Protótipo de sanguessuga

por Roberta AR

Muito tem se discutido o destino do país neste ano que começa. Um novo velho governo e outro novo velho congresso. O grande último escândalo do ano passado foi o abusivo aumento de salário que os parlamentares deram a si mesmos, que deverá ser votado no próximo mês.

Sim, é um escândalo, mas não é disso que eu pretendo falar. Vou me valer do meu costumeiro mau humor e intolerância a certas pequenas faltas cotidianas, que, normalmente, nem são tão pequenas assim.

O número de revistas autodenominadas independentes que circulam no país tem aumentado significativamente. Arte pop, quadrinhos, música, cinema, em todo o tipo de formato que se imagine. No meio da leitura do que me chegou às mãos, me deparei com a revista Quase, feita por um grupo de pessoas de Vitória, no Espírito Santo.

Uma revista debochada, cheia de paródias de propaganda, que lembra revistas dos anos 80, mas que parecem mais, no fim das contas, com as brincadeiras de adolescentes que fazíamos no colégio, divertidas e inocentes, não fosse o que li no expediente, na última página.

“Essa revista foi financiada pelo dinheiro público. Isso significa que, gostando ou não, você pagou para que ela existisse, enquanto nós coçávamos o saco. Além disso, você teve que comprá-la depois de pronta, ou seja, você gastou duas vezes. Obrigado!”

Vou dizer de novo, porque tem gente que não entende minhas críticas quando toco nesse assunto: eu não sou contra o patrocínio cultural feito pelo estado. Creio que certas obras só são possíveis de se concretizar por meio dele.

Porém isso não legitima o discurso de que se é melhor que o resto, porque se conseguiu patrocínio. Esse discurso da Quase pode ser um escracho, uma sátira, mas para mim soou muito mal, porque, querendo ou não, o que eles dizem é verdade.

O que diferencia um artista que faz mau uso do patrocínio que consegue do estado de um deputado que aprova um aumento para si mesmo? Muita gente vai responder que é a quantidade de dinheiro. Mas são apenas 600 parlamentares em Brasília, quantos projetos culturais são bancados com dinheiro público em todo o país? Além disso, existe diferença entre pecadinho e pecadão?

Um amigo meu me contou uma história outro dia. Algumas pessoas se juntaram para montar uma associação/centro cultural. Eles pediram patrocínio ao Ministério da Cultura para contratar funcionários e conseguiram uma verba. Declararam ter apenas três funcionários, quando, na verdade, eram sete, isso para burlar o pagamento de impostos. Qual a diferença disso para a contratação ilegal em gabinetes? Eu não consigo ver nenhuma.

E eu não sou a única a ver uma ligação entre as duas coisas. No seu último filme, Nelson Pereira dos Santos faz uma crítica contundente a esse tipo de postura encostada no estado. Brasília 18% fala sobre políticos, servidores públicos, jornalistas e o pivô de um crime que envolve uma CPI do Orçamento é um cineasta, com o nome Augusto dos Anjos, que termina o filme dizendo que é inocente simplesmente por ser um artista brasileiro, legítimo representante do povo. A cena parece caricata, mas todo mundo já pode presenciar um tipo desses fazendo esse discurso.

Para terminar tenho que falar sobre minha mágoa particular. Ultimamente eu ouvi de alguns conhecidos que eu sou um tipinho fracassado, porque tenho que trabalhar no mundo real, enquanto eles vivem de sua “arte”. Pois é, chegamos no tempo em que trabalhar pega mal. Diante disso eu tenho que concordar com o Augusto dos Anjos do Nelson Pereira dos Santos: “minha terra tem palmeiras onde canta o dinherô”.

Ainda para confirmar a tese de que esse discurso monocórdico não é só meu, duas tirinhas de Arnaldo Branco, publicada no seu blog Mau Humor:

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