A gaivota cega (parte 2)

por Raul Córdula*

De repente um alemão maluco, dono de uma cervejaria na Bom Jesus, soltou um morteiro de três tiros. Uma revoada de pombos cobriu o céu revoando em Pollock, os pardais dispararam de várias direções, cruzando-se em mondriânicas linhas retas e as gaivotas fugiram em suaves curvas, como um quadro de Matisse da fase do jazz. A revoada lembrou-me versos do Eugênio de Carvalho: “Horas, horas sem fim, tristes, profundas. / Esperarei por ti até que todas as coisas sejam mudas, / até que uma pedra irrompa e floresça, / e até que um pássaro me saia da garganta / e no silêncio azul desapareça”.Parecia que eu não ia agüentar esperar muito por Betânia, pois tinha na minha pasta duas taças, uma garrafa de um bom vinho de Mendosa e o meu saca rolha de cabo esmaltado que ganhei de meu belo e perfumado primo José quando ele chegou, aparvalhado, de Paris.

Minha garganta implorava um gole de vinho e eu me sentia sozinho demais para beber naquele banco sob a luz dourada da tarde. Do outro lado, em frente a mim, havia um senhor sentado, e ninguém mais, além dos passantes. Animado e solitário, resolvi abrir o vinho. O senhor, também solitário, mas não tanto. Ele tinha um cachorro, um flexível e adestrado Pastor Alemão que explorava os cheiros da praça e atendia de forma curiosa a uns quase silenciosos e invisíveis silvos que seu dono emitia. Era um homem estranho, não havia dúvida, apreciei sua bizarria. Vestia um conjunto de brim branco gelo dos tempos da calça lee, com o casaco fechado na cintura e gravata vermelha escura sob impecável colarinho branco. Suas mãos repousavam sobre a empunhadura de prata de um bengala, o que me fez pensar que era um homem velho, mas depois, olhando-o atentamente, percebi que não era assim tão velho, tinha, talvez, a minha idade, e era magro com as mãos finas cruzadas sobre a bengala. Pensei que ele prestava atenção em mim e na minha bebida e me preparei, na minha proverbial timidez, para oferecer-lhe a taça que esperava por Betânia, pois percebi um meio sorriso enigmático, só que depois vi que a direção dos seus olhos não apontava para mim. Neste ponto uma mulher apareceu dirigindo-se a ele, uma bela mulher que vestia negro e tinha os braços nus, lindos braços torneados. Cabelo curto, bem cortado, e um fio com pérolas em volta do pescoço. O homem chamou seu cachorro, pôs-lhe a coleira e a mulher segurou-lhe pelo braço ajudando-o a levantar-se. Apoiado na bengala e conduzido pela mulher e pelo cachorro ele saiu da praça. Foi então que percebi que ele era cego. Que bobagem eu estava preocupado com a atenção dele, não com sua presença. Envergonhei-me um pouco de minha presunção. Revi os pombos que voltavam calmos aos seus arrulhos, os pardais que se engavetavam novamente nas rachaduras da calçada, senti a ausência das gaivotas. E Betânia não veio.

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*Raul Córdula é pintor, paraibano, fundou o Museu Assis Chateaubriand de Campina Grande, onde foi diretor; foi supervisor da Casa da Cultura de Pernambuco; hoje e responsável pelo intercâmbio da Casa França-Brasil e representante da Associação Cultural de Marselha. Assina Córdula.

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