A gaivota cega (parte 4)

por Raul Córdula*

A familiaridade com o momento era paraminésica, sentia-me fisgado no tempo, sintonizado com vários tempos de minha vida, preso num episódio que queria se definir como um capitular do início de um texto, uma etapa, uma data, ou uma vinheta de final de capítulo.

Fui até o cego e perguntei:

– Quem é você?
– Aristides. Por quê?
– Gostamos da frase bordada na camisa.
– Comprei na América, gosto da ironia quando é inteligente. Muitos se aproximam de mim quando a percebem, como vocês. Quem são vocês?

Disse que éramos artistas plásticos. Ele disse que era professor de inglês para brasileiros em São Francisco, e que estava de férias. Maria Adília, sua mulher, quis voltar com ele ao Recife.

– Sou daqui e tenho a memória do Bairro do Recife que conheci garoto, quando eu ainda enxergava.

Parou um carro na Zona Azul. Maria Adília desceu deslumbrante. Ele me convidou:

– Até o fim do mês virei aqui toda tarde. Venha conversar!

E foi-se com ela.

Marquei na praça com Humberto Magno. Queria repassar um pouco da memória de nosso trabalho nos anos 80. Fui de táxi para a praça. Humberto não tinha chegado, mas lá estava Aristides disfarçado de quem vê, sem os óculos escuros. Sorria um sorriso de meia lua e seus olhos eram perfeitos, a não ser pela sutil ausência de luz. Fui direto até ele.

– Olá, Como vai? sou o pintor que falou com você aqui há alguns dias! Posso sentar aqui?
– Porque não? A não ser que você queira me assaltar.
– Eu não sou louco… com este cachorro?…
– Esse pobre não faz nada, só mete medo. Não está aqui para me proteger, mas para me conduzir. Eu não trago nada comigo. Minha mulher não deixa que eu fique só com dinheiro, é muito fácil tirar qualquer coisa de mim. E você não tem voz de bandido, tenho certeza que lhe daria uma surra de bengala, se você tentasse. Mas você me disse que era artista plástico. Como é ser artista plástico? Como é viver assim?

Fiquei confuso, como falar a um cego sobre pintura, mas expliquei: Não sei como você irá entender, é uma vida inteira fazendo coisas para o olhar dos outros.

– Eu já vi pinturas, quando criança eu vi pinturas, retratos, paisagens, fotografias, esculturas, tudo isso.
– Quando você era criança a arte era diferente.
– Eu sei de tudo, eu leio e converso sobre arte na América. Eu sei o que é arte moderna e arte contemporânea, embora não as tenha visto, ceguei com 8 anos. Os cegos têm uma capacidade de visualização que você nem imagina. Sou capaz de formar imagens nítidas na minha cabeça. Não se acanhe, o que eu quero mesmo é saber como é sua pintura. Sua palavra será minha luz.

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*Raul Córdula é pintor, paraibano, fundou o Museu Assis Chateaubriand de Campina Grande, onde foi diretor; foi supervisor da Casa da Cultura de Pernambuco; hoje e responsável pelo intercâmbio da Casa França-Brasil e representante da Associação Cultural de Marselha. Assina Córdula