As cidades imaginárias de Daniel

por Biu*

Daniel era um one man band, como todos aqui. Daniel contava muitas histórias, sobre como era a vida antes de vir parar aqui, de como seria a vida quando saísse, e de como estaria tudo diferente quando voltasse para cá e nesse ponto sempre me confundia pois não parecia louco como o resto de nós, parecia que sabia do que falava, mas, sendo assim não estaria aqui, certo? E se eu achava isso das histórias de Daniel mau sinal para mim, certo?
Continuo com meus remédios, eles me deprimem, me animam, mas não me fazem esquecer das histórias de Daniel. O problema é que só eu o vi, e como que para alguma coisa tem de servir os remédios não fui estúpido de contar a eles isso. E não será agora, nem aqui, passado o pior, que vou forrar o meu caixão, não quero voltar para a sela, leia nas entrelinhas das histórias de Daniel.

Se bem me lembro a primeira vez que o vi ele atravessava a rua de olhar fixo e de mão no bolso. Ele sempre tinha ao menos uma delas escondida lá e então tinha uma no bolso e a outra levava e trazia o cigarro à boca mecanicamente, enquanto o corpo esguio atravessava decidido a rua vazia. Esta foi a primeira vez que o vi. A seguinte foi aqui, três anos depois, não lembrava mais dele, mas ele lembrou de mim e depois da ocasião, e veio até mim e contou-me uma de suas histórias, a da primeira vez que me viu.

Era domingo, pé de cachimbo, e pra resumir, o buraco é fundo, acabou-se o mundo, e entre uma coisa e outra deu-se esse dia, antes deste, depois do fim. No meio dia desse dia Daniel atravessava a rua para checar a correspondência em sua caixa postal no correio que ficava embaixo do sobrado onde eu morava quando sentiu o sol refletir em seus olhos com isso distraiu-se e parou em meio à rua vazia. E foi assim que descobriu-me na janela do outro lado já distraído com outra coisa, talvez com uns letreiros do outro lado da rua que estavam sempre mudando, anunciando uma coisa ou outra, não importa mais. E Daniel não só continuou me observando como voltou atrás, onde o ângulo favorecia mais, e concluo que foi assim que fuçou meu quarto, só pode, pois nunca esteve lá e descreveu metade dele com precisão. E era precisamente estas minúncias que me impressionavam nas histórias de Daniel, a lembrança de como estava o céu de um dia distante, ou dos livros que estavam então em minha finada estante. Bizarro. Parece que gostamos dos mesmos autores.
E Daniel lembrava especialmente desta ocasião porque ali mesmo me observando em pé junto ao poste resolveu, não me perguntem porquê, fazer um pacto com o diabo. Não perguntei e fêz-me o favor de não dizer. Mas era este o motivo pelo qual alegava me conhecer e lembrar da ocasião.

Há pouca coisa a se fazer por aqui e esses remédios me tiram o tesão, então escrevo, meu médico diz que me fará bem, pergunta-me sempre como vou com minhas histórias e quando finalmente pediu-me algo dei-lhe uma redação inofensiva que ajudou-me a diminuir alguns gramas de minhas doses diárias. Não vou a lugar algum com minhas histórias pois já estão todos aqui. Por que as pessoas tratam as outras como se fossem bois?

Não importa. Daniel como disse antes e como era meu desejo, e ainda é – quanto menos souber disso melhor – não deu-me seus motivos para o pacto, mas contou-me que estava em uma mão boa e tinha cartas na manga e um coelho na cartola, e com isso referia-se aos bolsos, imagino. Daniel achava-se esperto. Mas como aprendeu o mundo não é dos espertos que o rasgam e sim dos trouxas que o remendam. Havia uma lição em jogo e ela entrou à força na cabeça de Daniel. Foi assim que veio parar aqui. É assim com todos, não foi diferente com ele.
Enquanto Daniel embaralhava e o diabo distribuía eu de minha janela distraído pensava em jogar minha sorte prédio abaixo. Disso não preciso puxar pela memória pois não houve um dia em que olhando pela janela não pensasse isso, nenhum outro modo me atraía. Ainda penso nisso, confesso, mas não admito.
Bem, deu sete, pois naquela ocasião havia feito meu próprio pacto e dei meu primeiro pulo e foi assim que cheguei aqui. Daniel naquela ocasião em que nos encontramos pela segunda vez contou-me isso. Como me espatifei e como o sangue escorreu na calçada, como rápido juntou gente na rua vazia e de como este golpe brutal foi-lhe pertinente. Daniel achava-se mesmo muito esperto. E achando-se muito esperto, frio e calculista, acendeu outro cigarro e voltou a atravessar a rua e em seu meio distraiu-lhe novamente um reflexo e parado em meio a agora rua vazia para entender melhor aquilo viu-me novamente na janela… E entendeu que havia perdido a razão, mas não o jogo, não ainda, ainda não acabou, pensou, louco, e como uma coisa não excluía outra, juntou mais gente ainda pois agora com a carrocinha-de-doido além da polícia e da ambulância o espetáculo ficava ainda mais animado. Mais dois atos e estará completo.

Daniel mal terminado de contar de onde me conhecia passou para como sairia daqui. Nesse ponto dei-lhe as costas, paciência tem limite, e tomei a direção de um banquinho ao sol onde sempre ia quando queria ficar só. E lá estava Daniel, que permaneceu mudo, respeitosamente, o que não me fez perder de vez minhas ainda operantes quinze gramas vespertinas de calma, e como o que não tem remédio é que já está remediado ou coisa assim, ou não, sentei-me no banco ao lado de Daniel e assim passamos um bom pedaço do dia. Entendi por fim que não era sua intenção me perturbar e tendo em vista sua necessidade latente de contar histórias combinamos de que daria um sinal quando ele estivesse me enchendo e assim ficamos bem, era como ter uma tv portátil ou coisa assim. Contudo a ladainha era a mesma, de como ele escaparia daqui.

A grande fuga se daria porque ele assumiria o corpo de outro, estava trabalhando nisso naquele instante mesmo, contava, e eu o ouvia, displicente. Na transação poria fim a tudo, mas eram os ovos quebrados necessários ao omelete, detalhes, portanto, picuinhas. E quando será isso, Daniel, posso saber? Esta noite mesmo.
Claro que sim.
À meia noite daquele dia faltou luz. Isso não me impressionou, já havia acontecido antes e além do mais é impossível sair daqui, ao menos é o que sistematicamente me dizem minhas cinquenta gramas diárias disso ou daquilo e é isso que todos aqui têm em mente e é com isso que devem sonhar à noite, e Daniel não é diferente de ninguém. Quando imprevistos ocorrem aqui são prontamente sanados, não há espaço para improvisações neste lugar, nem para manifestação de nenhum tipo de nada que lembre espontaneidade, aqui há regras que devem ser seguidas, e é assim, fazendo o que mandam e pensando o que querem, que estaremos pronto para o mundo lá fora, dizem, e suas receitas ratificam. Então soaram as sirenes e logo em seguida houve a primeira explosão. E mais uma e ainda uma terceira se seguiram. Finalmente abriu-se as portas e os auto-falantes nos mandaram em fila indiana pelos corredores até o pátio, mas poucos obedeceram. Eu fui um deles, pois enxerguei nisso uma maneira de barganhar mais um tempinho de sobrevida útil fora daqui, louco que sou. E assim segui pelos corredores tateando as paredes até passar pelo grande espelho da sala de espera onde vi Daniel refletido. Virei-me e lá estava ele, sentado, calmo. Daniel, é você, O que faz aí, Você tem algo com isso, perguntei e continuei perguntando, mas ele fez-me o sinal que combinamos de quando era hora de calar a boca. Zip. Fim da história.
Saí para o pátio calmo, cabisbaixo, de mãos nos bolsos, e lá soube, não precisei que me dissessem, que essa é mais uma das histórias de Daniel.

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.