Cinema de classe

por Roberta AR

Toda a arte é carregada de ideologia. Não seria diferente com o cinema. Mas, apesar de toda obra ser permeada das idéias políticas, sociais e filosóficas de seus autores, algumas tratam disso de maneira bem explícita. É sobre o cinema que trata da causa operária, um cinema de classe, que se tratará aqui, numa espécie de mini-guia do gênero.

Não se pode falar de cinema sobre a causa proletária sem citar o Cinema Revolucionário Soviético. Sergei Eisenstein foi o principal representante do gênero e é mais conhecido pelo seu Encoraçado Potemkim (1925), que trata da rebelião dos marinheiros deste navio por maus tratos. A cena do massacre nas escadarias de Odessa é uma referência para o cinema ainda hoje.

Antes, Eisenstein realizou A Greve (1924), que conta a triste história do movimento grevista que antecedeu a revolução de 1917. Uma fotografia impecável, numa história que traz no seu trágico final as justificativas para a revolução bolchevique.

Em 1964, o cineasta Mikhail Kalatozov concluiu Soy Cuba, numa parceria entre a União Soviética e Cuba. Este épico relata os acontecimentos que desencadearam na ascensão de Fidel Castro ao poder. O filme, falado em espanhol e russo, não agradou nenhum dos dois países e foi engavetado, apesar do enorme gasto e tempo dedicado para sua execução. O documentário brasileiro Soy Cuba – o mamute siberiano (2004), de Vicente Ferraz, recupera a história desta fita, que se tornou um clássico tardio do gênero.

O cineasta britãnico Ken Loach dedicou sua carreira a realizar filmes sobre as condições de vida da classe operária. Seu filme mais conhecido no Brasil é Terra e Liberdade (1995), que conta a história da Revolução Espanhola e das atividades do grupo anarquista Poum, que uniu forças da esquerda para derrotar o franquismo e foi traída por Stalin.

Segunda-feira ao sol (2003) conta a história de um grupo de estivadores desempregados que buscam ocupar seus dias ao sol conversando no bar. O filme, dirigido por Fernando León de Aranoa, relata os tempos do desemprego em massa e a desorientação pela falta de trabalho, aquilo que seria o suporte para a dignidade. O filme foi premiado em Gramado.

Do Brasil, podemos citar o filme Eles não usam black-tie (1981), baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri e dirigido por Leon Hirzman. Um conflito familiar acontece em meio a um movimento grevista, um cenário comum nos bairros operários na década de oitenta.

Também brasileiro, o documentário Terra para Rose (1987) relata a história da companheira Rose, militante sem-terra e sua luta pela reforma agrária no Rio Grande do Sul. A história do sonho de transformar a realizada sofrida e a perseguição que isso resulta.

Muitos outros filmes poderiam entrar nesta lista, mas creio que aqui temos um bom começo. Para encerrar, uma dica de quem “nasceu no subúrbio operário”: Rota ABC (1991), de Francisco César Filho. O filme conta a história de filhos de operários ao som dos Garotos Podres.

Anúncios