I love my gun

por Biu, Bruno Azevêdo e Evandro Esfolando*

1. O homem é o lobo do homem, já dizia Severino Miguel, vereador emboscado no adro da Matriz de Santa Rita de Cássia, em Rio Tinto, Paraíba. E eu não duvido. O homem é o lobo do homem, é na animosidade dos instintos que se especializa a raça. Então não sejamos nós a tentar tapar o Sol com uma peneira cheia de cascalhos quentes, vamos pôr tudo às claras, embora a noite gema no escuro: forjados a ferro e fogo pela mão cascuda da própria natureza, dois super-homens duelam até a morte na mata ao lado do circo onde está o trailer de um deles, este que foi quase pego de surpresa em seu trailer, mas que, por princípio, nunca descola de seu trabuco, um apêndice de metal. É por isso que ainda está vivo, apesar de ferido, ainda que não tanto quanto seu oponente, que levou a pior na troca de tiros dentro do trailer e embrenhou-se no mato. Mas não se engane, ele vai voltar, e, sabendo disso, o outro saiu em seu encalço. É lua cheia, mas o céu está fechado, então as coisas às vezes ficam claras por aqui, mas, no geral, tão pretas, reluzindo de vez em quando pelos disparos das duas armas que se batem às cegas. Por instinto os canos uivam, comem balas e cospem fogo um no outro, e que (perca o pior) vença o melhor. Para a glória da donzela perversa, esses filhos de Darwin, dados do acaso, rolam sobre a mesa da necessidade, um deles nu, como pego na emboscada, arma em riste, o outro caindo pelas tabelas, deixando atrás de si um rastro de sangue, ambos arfando e de orelhas em pé. Onde não se pode ser leão, é preciso saber ser hiena, então o mais gravemente ferido estanca o sangue e dá a volta, ele falhara na primeira tentativa, se apenas tentar fugir, morrerá cedo ou tarde. A lua brilha no céu, cúmplice, iluminando seu rastro, está armada a arapuca. O silêncio que se segue a camufla. O leão aproxima-se, cheio de si, prestes a virar pato. Uma coruja pia em sinal de alerta, avisando a todas as criaturas, inclusive aos mamíferos bípedes, que existe um movimento estranho na mata. A lua volta a se esconder. Eles estão frente à frente, separados um do outro por uma clareira, um deles apoia-se em uma árvore com uma mão e faz mira trêmula com a outra, mas é o outro quem dispara primeiro, um último tiro, certeiro, em cheio.  Antes de espatifar-se, o cérebro registra uma última imagem que nunca saberemos qual é, isso é com os cientistas. O juiz encerra a luta, o vencedor comemora em silêncio: o homem é o bobo do homem.

Sob a lua alta, cheia e vermelha, de um céu agora deserto, mirando o vazio complacente dos olhos de seu oponente vencido, o lobo do homem examina seu ferimento, não é fatal, mais uma cicatriz… Senhores, chegamos juntos até aqui,  para quê dourar a pílula no final? Ele então baixa lentamente sua arma quente, ainda fumegante, expira o ar para fora de si e sente os pulmões murcharem e o coração debrear, enquanto uma brisa leva o cheiro da pólvora pra longe, e, ante a presa abatida, experimenta uma completa e irresistível ereção.

O circo estava armado. O show tem que continuar.
Monta o morto e lhe toma os sapatos e as calças, cigarros, fósforos e dinheiro pequeno vem de brinde. Só lhe deixa a camisa furada e empapada de plasma. Nunca o viu, mas carrega o respeito fraterno da profissão, como o guarda da estação, que às seis e meia desce do trem e diz bom dia aos carteiristas. Mungango is dead e de manhã o circo vai ser grande com os refletores e as crianças que preferem o palhaço assim, com a boca cheia de formiga. A festa com remela nos olhos, o rabecão, o sol que nasce e a trupe que reconhece pro delegado o palhaço que nunca viram porque o palhaço que há anos dava estripulias não tinha nome nem história, só uma pintura triste no rosto que fazia rir como ninguém e não titubeava na hora de furar um porco, não importa o quanto o bicho berrasse.
Ele então tem a idéia que vai fazer essa novela render…
Por mais que as cornetinhas do espetáculo, os rugidos dos leões, os roncos das motocas no globo da morte e os espantos nos queixos imberbes caídos dos meninos ante a mulher barbada tivessem abafado os tiros, e o ferimento não impedisse sua subida ao picadeiro – a clown who bleeds is better – chega uma hora que a gente fica vesgo e enxerga o próprio nariz vermelho.
De volta ao trailer, depois desse showzinho privê, pega as roupas e a maquiagem. Mesmo sozinho, tenta esconder o pau ainda duro com uma cueca e fica com aquele mini-circo nas ancas. Sabe que em algumas horas lhe doerão os ovos e esvazia o cofrinho pra comprar alívio, ah! Esporra numas fotos antigas de palhaços decadentes bebendo cerveja, a maquiagem borrada, os olhos tão vermelhos quanto os narizes. La petit mort, dizem os franceses, deve ser, porque a grande, à vera, quem curtiu foi o cadáver lá na mata, o outro palhaço, de um outro circo, mas, a mando de quem?
Volta à mata e veste o defunto com suas roupas. Você já tentou pintar um sorriso na cara de um morto? Alargar seu pau com uma bombinha então nem pensar, né?
E agora o circo está desarmado. Próxima parada: Santana dos Garrotes.

Não se falava em outra coisa que não fosse a morte do palhaço durante o monótono caminho entre as cidades. Especulações dos mambembes sobre Mungango ajudavam a matar o tempo dentro dos velhos caminhões ciganos. Seria vingança, porque palhaço o que é? Ladrão de muié? A anã Dora Dorinha poderia reconhecer o corpo com 100% de exatidão, se visse o pênis duro de Mungango, mole, ficou na dúvida. Ela adorava pisar nos sapatos gigantes de palhaço, enquanto ele lhe socava a pica goela abaixo…
Indo na direção oposta à dos mambembes, Mungango lembra da goela da anã e ri sozinho, em meio à poeira da estrada de barro. Aquilo tudo ficou para trás, tão rápido quanto anda a charrete que lhe deu carona. Mugango is dead: longa vida a Zoitão, o palhaço matador. Ou matador palhaço, orever.

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

* Bruno Azevêdo é maranhense e escritor. Autor do livro Breganejo blues, mantém o blog O PUTAQUIPARIU!

Evandro Vieira é escritor e músico, autor de Esfolando os Ouvidos (sobre o rock em Brasília) e de Grosseria Refinada (contos) e vocalista da banda Quebraqueixo.

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