Poemas 2

por Antonio Souza*

Substância

A metafísica e o medo
construções suaves e diáfanas
carne sutilíssima para
esconder-nos o osso
Surge o cristal, pedra que aprsiona
e que toma o
nome daquilo que apodrece
Mas, dentro, após o tutano,
muito além, talvez possamos
encontrar o caroço, logo abaixo, sob o pantâno
hiernando em seu exílio,
abaixo do que lhe servirá de adubo, o fruto

.

Criação

Homens de segredos expostos
geométricos demais
Outra imagem em meu espelho
segredos por baixo da pele
atrás dos olhos
Falta-nos um útero
Um forno
para cozer o pão
e fermentar o vinho
Resta-nos a fúria de sugar
o desespero de sugar
alimentar-nos da presença
dentro
propor uma trégua a nossa fome
Solidão
Voltar a ser completo
Hermafrodita
mas ainda resta o medo de uma nova gênesis
e o temor de voltar a ser
osso

.

Ouroboro

Salve o primeiro , Adão
aquele que não sentia fome.
Salve o deus dos famintos, dos loucos, dos áridos
Salve Eva , a maçã, Eva
a natureza
a loba
que nos alimenta e nos caça.

Salve a morte
a silenciadora
das infinitas vozes que habita
cada um de nós
Salve Gênesis
e os universos criados
por nossa angústia
matéria restante em nossos
corpos

.

*Antonio Souza é poeta e, sobre si, diz: “nasci em Pernambuco, há algum tempo, a não ser por alguns poemas que tenho a pachorra de fazer, sou a pessoa mais sem graça do mundo  e não gosto de falar disso”.

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