Carro é trabalho

por Roberta AR

Cabeça, tronco e rodas. Essa é a descrição de um ser humano considerado normal em Brasília (e grande parte do mundo). Por ter tanta gente obsecada por carro a minha volta, cada dia tenho menos interesse em tirar a carta de motorista. Pela minha rotina, carro não é uma coisa indispensável, entendo que seja para muita gente, como um acessório que possibilita o trabalho, o transporte de crianças, pessoas idosas, etc. Mas não mais que isso, um acessório.

A transferência da sensação de realização pessoal para a posse de um objeto é o must deste tempo. Uma coisa tão absurda chegou num nível da naturalização que o filósofo francês Jean-Pierre Dupuy conduziu um estudo nos anos 1980 para descobrir quanto tempo o francês gastava diariamente com seu carro. Levando em consideração que os problemas de trânsito pioraram no mundo inteiro nos últimos trinta anos, seus dados (e imaginar sua atualização) são assustadores, veja:

“Nos anos de 1980, seguindo uma intuição de Illich, procedi, junto com minha equipe de pesquisa, cálculos bizarros, mas rigorosos, que conduziram aos seguintes resultados:
O francês médio, naquela época, dedicava mais de quatro horas por dia ao seu carro. Seja se deslocando de um ponto a outro, dentro do carro, seja enfeitando o carro, seja, sobretudo, trabalhando nas fábricas ou escritórios para obter recursos necessários a sua aquisição, a seu uso, a sua manutenção. Recentemente, voltando aos dados que havíamos reunido para fazer esse calculo cheguei a conclusão que a situação presente é, sem dúvida, pior do que era há trinta anos. Temos razão de supor que a situação é a mesma aqui no Brasil, nos Estados Unidos, etc.
Se dividirmos o número médio de quilômetros médios percorridos, com todos os tipos de trajetos misturados, por essa duração, quatro horas por dia, obtemos uma velocidade. Esta velocidade que eu nomeei de “velocidade generalizada do automóvel” está em torno de sete quilômetros por hora, um pouco maior do que a velocidade de um homem andando, mas sensivelmente inferior à velocidade do ciclista.
O resultado obtido aritmeticamente significa o seguinte: o francês médio (o americano médio, o brasileiro médio) suponhamos sem carro, liberado, então, por suposição da necessidade de trabalhar muitas horas para pagar o carro dedicaria menos tempo generalizado ao transporte se ele fizesse todos estes seus deslocamentos de bicicleta.
Estou dizendo claramente todos os seus deslocamentos, não apenas os que faz cotidianamente para atravessar o espaço que separa sua casa do seu trabalho, mas também aqueles que no fim de semana o conduzem para a casa de campo distante (…) esse cenário alternativo seria considerado por todos completamente absurdo, intolerável. Entretanto ele economizaria tempo, energia e recursos raros. Então onde está a diferença que faz com que num caso alternativo o absurdo da situação esteja patente, enquanto no caso atual fica dissimulado? Porque afinal é menos cômico trabalhar boa parte do seu tempo para pagar os meios de chegar ao trabalho?
O cálculo precedente faz a equivalência entre uma hora de transporte e uma hora de trabalho, uma e outra sendo contadas como simples meios a serviço de outro fim, esta equivalência é a mesma dos engenheiros economistas, pode-se contestá-la, mas ela não faz de início senão levar a sério a lógica do desvio de produção. Trabalho, de um lado, e transporte, do outro, não são igualmente fins em si mesmos. O cálculo econômico tem como missão contabilizar rigorosamente a fadiga, o cansaço dos homens, condição prévia indispensável para os economistas que têm por objetivo torná-los tão pequenos quanto possível. Ora, tanto o trabalho quanto o transporte causam fadiga, cansaço.(…)
A palavra trabalho em português veio do latim tripalium, instrumento de tortura de três estacas. (…) A mesma palavra tripalium deu, em inglês, a palavra travel, o transporte. (…) O trabalho e o transporte são o mesmo esforço, a mesma tortura que ambos denotam, as palavras que nós usamos dizem isso muito claramente.
Como é possível que o absurdo de um modo de vida e subtração do espaço e do tempo social que conduzem as pessoas a dedicarem tanto tempo a seus deslocamentos para uma eficácia média tão ridiculamente pequena não seja percebido?”
Jean-Pierre Dupuy, na conferência O tempo que nos resta proferida no ciclo Mutações – Elogio à preguiça, que pode ser ouvido na íntegra no site do evento.
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Texto retirado do blog Um pouco de café e sinusite

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