O itinerário de Sisifo

por Antonio Souza*

Não lido bem com o tempo. Estou ficando velho e o desperdiço como se fosse rico. Para outros a barba grisalha cai bem, não para um negro, não para um pardo. Café amargo. Chegar atrasado e ouvir um interminável sermão, apesar da barba grisalha, me consideram criança. À noite, havia lutado com um sonho, o esforço de aprender juros simples me deixou seco e essa parte seca quis dominar e ordenar o caos do sonho, produzindo um pesadelo, era necessário terminar algo sempre interrompido. Café amargo, a diabetes silenciosa, lá fora, a pressa dos outros. Não chegue atrasado, não se atreva.

No ônibus as pessoas em seus smartphones. Saco o meu caderno de notas . “Olha o velho de boina”. Me olham críticos: “ o velho ainda escreve”. Depois abaixam os olhos para a tela de seus celulares e digitam compulsivamente, ou gritam no viva voz com suas mulheres, repreendem os filhos. Tudo como se fosse um reality em pequena escala. Não é possível que tenham tanto pra falar, tanto para digitar, não, é uma cena. Estamos todos atrasados e todos apenas com um café amargo no estômago. O motorista conversa animadamente com duas mulheres. Chove. – Não chegue atrasado, não se atreva. Estamos todos atrasados. – Não se atreva. Você tem fobia social. Síndrome do pânico. – Não chegue. Não se… Você é rancoroso. E as pessoas nos celulares . Ninguém tem nada a dizer, mastiga-se as palavras, resmunga-se, ninguém ouve. – Não se atreva. Mas foi a chuva, os celulares, o mau sonho, o café amargo. – Não se atreva.

.

*Antonio Souza da Cruz é de Surubim, uma cidadezinha do agreste pernambucano, nascido em 1971, muda-se com a família para a periferia de São Paulo em 79. Atualmente trabalha nos Correios. Possui um livro publicado pela editora Patuá, em 2015, O Deus dos Famintos. Sobre seus poemas pode-se dizer que são marcados por duas paisagens principais: o sertão pernambucano e a periferia paulista.

Quinze anos de Facada X

por Roberta AR

Criado como um espaço livre para publicar, por mim e pelo André, o Facada sempre esteve aberto aos nossos amigos e a pessoas que se aproximaram para trocas interessantes. Começamos um ano depois do lançamento do orkut, que ainda era fechado apenas para convidados,  então muito do que foi postado no início deste deste zine eletrônico tem a cara de publicação comum das redes sociais de hoje. Para muita gente, foi a primeira experiência publicando despreocupadamente na internet, alguns até começaram seus próprios blogs depois. Hoje, ainda somos espaço para reflexões, trabalhos autorais, resenhas, e, mais recentemente, listas. E tudo isso está aqui nos nossos arquivos. Ao abrir nossa conta no instagram, nesses tempos de redes muitas, vi que chegamos aos QUINZE ANOS!

É muito tempo desde que criamos o ainda Facada Leite-Moça, um nome aleatório retirado de uma música de Fausto Fawcett, e que acho que foi o nome deste espaço por pelo menos a metade da sua existência. Como somos dinossauros da internet, ainda somos fruto do idealismo do conteúdo livre e compartilhado, por isso decidimos ser um espaço não monetizável e colocamos nossas publicações em licença Creative Commons.

O que nunca fizemos, nesta longa trajetória, foi organizar em um único post todo mundo que já passou por aqui. Não tínhamos feito, porque está aqui agora, os convidados todos para nossa festa de debutante. Além de mim, Roberta AR, e do André Rafaini Lopes, temos esta longa lista. Clique no nome para ver o conteúdo disponível:

Adriano de Almeida

André Francioli

André Gonzales

Antonio Netto

Antonio Souza

Biu

Bruno Azevêdo

Caio Gomez

Casa Locomotiva

Carla Lisboa

Carlos Dowling

Chapamamba

Cicinho Filisteu

Clara do Prado

Cláudo Parentela

DigóesX

Diogo Brozoski

Edgar Raposo

Érica Pierrobon

Evandro Esfolando

Everaldo Maximus

Felipe Marinho

FErio

Fernando Vasconcelos

Flávia Diab

Francisco Zenio

Gabriel Góes

Gabriel Mesquita

Igo Estrela

Jamile Vasconcelos

Juh Oliveira

Juliana Bolzan

Laluña Machado

Lauro Montana

Lilian Sampaio

Luciano Vitoriano

Luda Lima

Maurício Patiño

Mauro Castro

Michel Aleixo

Os Haxixins

Pedro Elias

Rafael Zolis

Raul Córdula

Sebastião Vicente

Stêvz

Thelma Ramalho

Tiago Penna

Túlio Flávio

Valdez

Zefirina Bomba

Não

por Antonio Souza*

Não, o campo não está lavrado
nem a mesa posta
e tuas promessas
o descanso
a terra do eterno estio
Passárgada ou
o oblívio
não, ainda não é o tempo
o cheiro de manga madura no ar
é verão e depois
outono
e depois o inverno
Segurarei a tua cintura
e te seguirei
apenas quando chegar a Quinta Estação

.

Infância exumada

Quem me chama sob as camadas do sono?
__ acorda menino
acorda pra carpir
Quem me chama entressonhos
a louca minha mãe ?
Abaixo dos lençóis de água
a tessitura do vazio
o não Ser . O dexistir,
O rio corre nas profundezas
O rio corre para o mar
para o buraco do mundo.
No poço de águas escuras
A mãe d´água me arrasta
para o fundo .
Da água forte do sonho
quis recuperar a infância sem nome
sem história
a infância cósmica
Mas no poema posso apenas
a infância exumada
desse retrato surge um menino
de rosto sério e digno ,
rosto que não reconheço
Não está acostumado à canduras
ao cetim ao veludo
O dia imenso , a poeira
o sol a pino . O seco mordente
a terra esturricada;
A chuva não veio e não virá
O milho morrerá
o pasto morrerá
as vacas também.
E apesar de olhar o rio Sena
de pés descalços repiso
o Sertão

.

*Antonio Souza é poeta e, sobre si, diz: “nasci em Pernambuco, há algum tempo, a não ser por alguns poemas que tenho a pachorra de fazer, sou a pessoa mais sem graça do mundo e não gosto de falar disso”.

Poemas 4

por Antonio Souza*

Esse açucar derramado , tão dificilmente
engendrado na entranha da fruta.
É um açucar desnecessario
doçura inútil e dádiva
mas no mundo de
garras , presa e queixadasnão se ganha batalha
com tal artimanha
Seguir o exemplo do cardo
agudez e espinho para defender a polpa

A fruta se faz plena e vítima

.
Quero morrer em praça pública
como os três tigres tristes
singelamente
como os mendigos
e os balões

.
À beira Tejo as coisas fluem.
O rio da minha aldeia é
mais belo que o Tejo ?
Mormaço e solidão
minha
aldeia
tem mais de mil
anos e é a mesma.
O rio da minha aldeia já
naveguei
O rio que nasce
em minha aldeia é triste
pois não sabe se perder

.

Que substância é essa em que se está submerso
a qual se rumina a cada instante
que substância é essa em que estamos soterrados?
mas
se por acaso fossemos retirados? Gritaríamos,
Rilke? Gritaríamos através de nossas guelras,
gritaríamos para ser outra vez jogados
no peso que nos aterra?

.

*Antonio Souza é poeta e, sobre si, diz: “nasci em Pernambuco, há algum tempo, a não ser por alguns poemas que tenho a pachorra de fazer, sou a pessoa mais sem graça do mundo e não gosto de falar disso”.

Poemas 3

por Antonio Souza*

Ao meio dia, de onde estou,
vejo a sombra da
arvore. O vento
Balança as folhas da sombra
(a do vento também será escura?)
A sombra das coisas são mais maleáveis
Do que as coisas. O que parece
um títere de repente perde
sua nitidez . A sombra
busca a sombra criando
outra forma.
Minha treva procura a tua
não estás presente
esperará a noite
e a amalgama
que os corpos não podem realizar
Por enquanto
Que o vento claro do meio dia
Balance as folhas e
Ressoe na paisagem

.
Onde O Nosso Oriente
Papoulas e flores de lótus
De pétalas carnudas , flores
Nomes e inomináveis sem .
Onde o Opio -o Samadi ,
o nirvana
O esquecimento ?
Em nenhuma parte
das geografias conhecidas .
Onde o imenso , o sagrado
o selvagem ,
o desgrenhado
Através dos mares ,
HÁ muitas luas
Praias Desertas NAS ,
Pelo Caminho do Sol , a Senda
de tijolos dourados ?
Onde o Oriente – perversão
Espaço do tempo ?
Onde Uma Multidão de Mulheres
de bronze, Cabeças de Águias ?
Em Istambul de ruas
Uma cheirar cravos , perfumes, e esgoto
Onde o Nosso Último Oriente ?

.

Uma bela cena de leveza: a câmera
Flutua sobre Havana revolucionaria,
Entra nos prédios,
Perpassa as janelas
Havana em festa.
Os canaviais incendiados por uma
Luz branca sofrem sua epifania

.

O seco mordente, caatinga
engolidor de pianos
meu avozinho
saudoso de um Recife
inexistente e mágico.

A maçã e o cacto
alegoria e metáfora.
Mesmo quando cruel, suave.
meu menino triste e tísico
atrás da vidraça
a olhar platônico
e guloso
o céu de balões

.

*Antonio Souza é poeta e, sobre si, diz: “nasci em Pernambuco, há algum tempo, a não ser por alguns poemas que tenho a pachorra de fazer, sou a pessoa mais sem graça do mundo e não gosto de falar disso”.

Poemas 2

por Antonio Souza*

Substância

A metafísica e o medo
construções suaves e diáfanas
carne sutilíssima para
esconder-nos o osso
Surge o cristal, pedra que aprsiona
e que toma o
nome daquilo que apodrece
Mas, dentro, após o tutano,
muito além, talvez possamos
encontrar o caroço, logo abaixo, sob o pantâno
hiernando em seu exílio,
abaixo do que lhe servirá de adubo, o fruto

.

Criação

Homens de segredos expostos
geométricos demais
Outra imagem em meu espelho
segredos por baixo da pele
atrás dos olhos
Falta-nos um útero
Um forno
para cozer o pão
e fermentar o vinho
Resta-nos a fúria de sugar
o desespero de sugar
alimentar-nos da presença
dentro
propor uma trégua a nossa fome
Solidão
Voltar a ser completo
Hermafrodita
mas ainda resta o medo de uma nova gênesis
e o temor de voltar a ser
osso

.

Ouroboro

Salve o primeiro , Adão
aquele que não sentia fome.
Salve o deus dos famintos, dos loucos, dos áridos
Salve Eva , a maçã, Eva
a natureza
a loba
que nos alimenta e nos caça.

Salve a morte
a silenciadora
das infinitas vozes que habita
cada um de nós
Salve Gênesis
e os universos criados
por nossa angústia
matéria restante em nossos
corpos

.

*Antonio Souza é poeta e, sobre si, diz: “nasci em Pernambuco, há algum tempo, a não ser por alguns poemas que tenho a pachorra de fazer, sou a pessoa mais sem graça do mundo  e não gosto de falar disso”.

Poemas

por Antonio Souza*

Xícara 

algo absurdo sem explicação
de uma realidade concretíssima.
uma xícara vazia em uma mesa
solitária e abandonada por especulações metafísicas .
Branca
objeto sem uso, contendo imponderâncias
sem perguntas. Exercendo a presença
diante de niguém.
Branca, vazia e xicara
comunicando disfunções.
Aberta
esquecida em uma mesa,
uma xícara em desuso,
sem deuses para
tomar dela o conteúdo

Flor

Vasto o botão guarda a
flor guarda o tempo guarda a
vida guarda
guarda a flor guarda o
tempo guarda a
espera guarda o mistério não
guarda flor exposta em
gozo o tempo presentificado
tudo amostra em
superfície a mação o corpo
a semente o sêmen
Adão guarda no
passado as horas
não esperam
a vida semer em tudo o
ovo espera os
olhos esperam
tudo espera o
término da tempestade na
luz da tempestade
a satisfação e a glória
de sobreviver

.

*Antonio Souza é poeta e, sobre si, diz: “nasci em Pernambuco, há algum tempo, a não alguns poemas que tenho a pachorra de fazer  sou a pessoa mais sem graça do mundo  e não gosto de falar disso”.