A morte é parte da vida

por Roberta AR

Eu era ainda muito pequena quando fui a um funeral, o primeiro. Nem lembro que idade tinha, porque minha família nunca protegeu as crianças dessas cerimônias funestas, nem de muitas outras coisas que não vêm ao caso agora.

Foi a perda de uma irmã que me fez entender que a morte pode mudar tudo na vida, dentro de uma casa, na dinâmica das relações. Mas nem assim sua presença, da morte, passou a me acompanhar, era algo que existia, que eu sabia ser repentina em muitos casos, que doía e que deveria ser superada, pois a vida continua, mesmo que acabe para alguns.

Nem todo mundo é assim, vivo e querendo viver, tem aqueles que invocam a presença da morte todo o tempo, que fazem dela sua mais preciosa companheira imaginária, claro, pois se estão vivos, a companhia real é a da vida. E isso me faz pensar em Júlio.

Era uma fase de mudanças intensas na minha vida e ele apareceu. A minha empolgação com tudo, com novas pessoas, novas possibilidades de trabalho, minhas pretensões artísticas nas horas vagas, novos lugares, sabores, tudo isso parecia atraí-lo e algo que poderíamos dividir. Ele falava muito de morte, brincando, era o que eu pensava naquele tempo, e eu achava divertido, irônico, como um desprezinho à cultura de que temos que estar alegres o tempo todo. Mas eu estava muito enganada com esse julgamento, totalmente enganada.

Então estava lá eu, toda entusiasmada com a nova vida que se desenhava à frente e nem me dava conta de que entrava numa história completamente diferente do que eu esperava. Fui colocada em companhia da morte.

Sua familiar mais próxima decidiu desistir do próprio corpo e parecia brincar de querer morrer. Uma pessoa me disse uma vez que morrer não é algo tão fácil quanto parece, decidir morrer enfraquecendo o próprio corpo leva muito tempo, neste caso foram anos de dedicação. Esse foi mais um passo para que a morte fosse uma presença constante na vida e sua influência, desta mulher que desistiu de viver, continuou mesmo depois que ela alcançou o que achava que queria.

Assim como ela, ele gostava de correr riscos, de uma maneira um pouco diferente no começo, e também não cuidava do próprio corpo. Eu achava divertido isso de correr riscos, porque é preciso sair do confortável, da monotonia, para que a vida seja mais. Diversão é necessária numa vida saudável. Mas a busca ali não era a da saúde e eu nem me dava conta, ou fingia não perceber.

Com a convivência cotidiana, passei a me sentir triste todo o tempo e não entendia porquê. Ele ficava indignado, porque não era de uma mulher triste que ele tinha se aproximado e eu, confusa por conta dessa tristeza que não sabia como combater, falava sobre isso de que não se pode ser alegre o tempo todo, o que pensei que ele sabia, mas ouvia impropérios e apologias à festa eterna, à diversão acima de todas as deusas. Era uma alegria artificial, proporcionada por aditivos químicos de todo o tipo e que anestesiavam a vida.

Fui arrebatada para este mundo em que vida ficava em suspensão, uma espécie de coma induzido, em que nada parecia real e nenhum sentimento era sincero. Fui tomada pela tristeza, meus dias se arrastavam, minha saúde foi afetada, fiquei inchada, indisposta, insone. Mas ele sorria o tempo todo e devia achar que isso era felicidade. Ou apenas encarava isto cinicamente, o mesmo cinismo com que passou a me tratar com o passar do tempo.

A presença da morte era tão constante, que não foi possível uma nova vida vingar em mim, parecia impossível pro meu corpo lidar com aquilo, eu tinha medo desse legado de tristeza que dava a impressão de ser intransponível. Trazer vida para morte era algo incompreensível e inaceitável.

Eu me sentia entregue a esta vida fúnebre, mas algo em mim reagia mesmo sem eu perceber. A vontade de viver, de me atirar ao novo e bonito e saudável estava lá, no fundo da minha alma, e começou a me empurrar para a ação. Isso foi logo depois que comecei a temer pela vida dele todos os dias, a vida física, o corpo, que estava prestes ao colapso. Meu medo era de um mal incapacitante, que me tornasse uma babá para o resto da vida. Sim, fui egoísta e sem nenhuma vergonha disso, ainda mais depois de ter sido tragada para um abismo. Um belo dia, desisti dele e acabamos nos afastando.

Foi chocante ver que, mesmo depois de não mais convivermos cotidianamente, ele ainda tentava me puxar para o seu abismo pessoal. As poucas conversas que aconteceram foram sobre como sua vida era uma grande tragédia ou para me humilhar nas minhas fraquezas pessoais.

E foi assim que percebi que só quero estar morta quando morrer efetivamente. A morte faz parte da vida, mas é preciso estar vivo para entender o que isto significa.

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