Mulheres & Quadrinhos: um registro da produção desse tempo

por Roberta AR

As vantagens de ser uma artista mulher
Trabalhar sem a pressão pelo sucesso.
Não ter que participar de exposições com homens.
Poder descansar do universo da arte nos seus outros 4 empregos.
Saber que sua carreira pode deslanchar depois dos 80 anos.
Saber que não importa o tipo de arte que você faça, ela sempre será rotulada como ‘feminina’.
Não ficar presa em um trabalho estável de professora.
Ver suas ideias ganharem vida no trabalho de outras pessoas.
Ter a oportunidade de escolher entre sua carreira e a maternidade.
(…)Não passar pelo constrangimento de ser chamado de ‘gênio’.
Aparecer em revistas de arte vestindo uma roupa de gorila. 

por Guerrilla Girls

Um livro, um compêndio histórico, que reúne mais de cem mulheres que fazem quadrinhos e escrevem sobre quadrinhos. Mulheres & Quadrinhos, organizado por Dani Marino e Laluña Machado, conseguiu juntar jornalistas, acadêmicas e claro, quadrinistas, e é o vencedor do Troféu HQMIX 2020 em duas categorias: Livro Teórico e Publicação Mix. Eu também sou uma das autoras presentes nesta antologia (meu texto pode ser lido aqui).

Quando eu comecei a ter contato com quadrinhos nacionais mais de perto, há uns quinze anos, mais ou menos, era difícil ter acesso a trabalhos de mulheres. Era um momento em que se começava a ensaiar as feiras de produção independente, uns poucos títulos impressos por conta própria, numa cena quase totalmente de homens. Eu estava lá como assessora de imprensa ou fazendo produção. O Facada X fez parte dessa história recente do quadrinho independente (clique em Quadrinho para ver) e, num certo momento, eu também decidi produzir minhas coisas (estão em Impressos). Eu pensei que seria suave – eu estava inserida no processo, né? – mas não foi. Só consegui publicar minhas coisas com parcerias com outras mulheres.

Arte de Mulheres & Quadrinhos

Esta minha experiência é a de praticamente todas as mulheres que se enveredam em ambientes supostamente masculinos. Resistência, silêncio e, em casos nem tão raros assim, sabotagem. A Cris Camargo, que também está em Mulheres & Quadrinhos, fala um tanto sobre a rotina de ser artista mulher em uma de suas séries de quadrinhos, que resenhamos aqui, com registros de situações reais.

Há muito o que dizer sobre estas questões, mas este livro pretende ser uma celebração da produção feita por mulheres. Já na introdução, Dani e Laluña destrincham os principais equívocos sobre a presença de mulheres no mercado de quadrinhos brasileiro: que mulheres não leem quadrinhos, que mulheres não produzem quadrinhos, que mulheres só produzem quadrinhos fofos ou sobre emoções e relacionamento, que mulheres não atingem grande público porque não tratam de temas universais. E defendem que publicações exclusivas são o espaço possível para que nós possamos ser conhecidas. 

Observem as antologias mistas, qualquer uma delas, e conte quantas mulheres estão presentes. E também as listas feitas por sites escritos por homens. A presença de quadrinhos masculinos é sempre a maioria absoluta e, quando aparecem, umas três mulheres (este número é bem recorrente, ainda não descobri o porquê). Quando eu escrevia uma coluna de quadrinhos com a Laura Athayde (outra autora presente em Mulheres & Quadrinhos) passamos a chamar este pequeno número de mulheres que servem de token para validar essas antologias e listas de “cota”. Sim, um tanto de sarcasmo, porque três entre quinze, vinte, é o mínimo do mínimo. E se você também acha que existem poucas mulheres fazendo quadrinhos, veja a lista que fizemos aqui no Facada X.

Tem texto meu no livro Mulheres & Quadrinhos

O livro

Mas, aqui, temos um livro de mais de quinhentas páginas que reúne quadrinhos dos mais diferentes estilos (não à toa ganhou um prêmio de Publicação Mix) e textos de mulheres que analisam a produção de quadrinhos de mulheres pelas mais diferentes perspectivas, artigos, entrevistas, para os mais variados públicos (não à toa ganhou um prêmio de Livro Teórico).

O livro foi viabilizado por meio de um campanha de financiamento coletivo que teve quase quatrocentos apoiadores e foi editado pela Skript. Um novo financiamento coletivo está em andamento agora, para uma segunda tiragem, a pedido de leitores que não conseguiram comprar na primeira campanha. Acesse aqui se quiser seu exemplar.

Entrevista com Laluña

Conversamos com a Laluña Machado sobre esta publicação tão importante e os desafios encarados para que ela se tornasse material:

Facada X: Como surgiu a ideia da publicação Mulheres & Quadrinhos? Quais foram as motivações para fazer uma publicação deste porte?

Laluña: Uma publicação como o M&Q já era para ter sido realizada há muito tempo, ainda mais que é um fato que a produção “feminina” de quadrinhos é bastante significativa no cenário nacional. Mas foi a própria editora que nos apresentou o projeto e nós abraçamos. O objetivo principal era dar visibilidade para essas mulheres que tinham alguma atuação, tanto no mercado, na pesquisa e na produção de quadrinhos. Além disso, externar talentos que ainda não tinham tido a oportunidade de ter algo publicado.

Facada X: Isso já deveria ser um assunto sabido por todos: por que é importante fazer uma publicação só com mulheres dos quadrinhos?

Laluña: Eu acho que foi determinante para “estabilizar” uma posição na nona arte nacional. Infelizmente muitas coisas ainda precisam estar em debate constante e o papel da mulher nos quadrinhos é uma delas. O livro serve para mostrar que muitas artistas podem compor qualquer tipo de história além daquelas ditas como “femininas”. Além disso, a obra também pode ser reconhecida como uma espécie de catálogo e vitrine para as artistas, pesquisadoras, editoras, letristas… Afinal, são mais de 100 conteúdos diferenciados que compõem o livro.

Facada X: A publicação está completando um ano de lançamento. Quais retornos vocês já tiveram com o livro?

Laluña: O maior retorno foi a valorização e reconhecimento das pessoas que estão ali. Muitas mulheres nunca tinham publicado nada fisicamente e depois do livro deslancharam com outras produções. Isso é muito gratificante, não só para nós como organizadoras, mas para todas que participaram. Intimamente, dá aquela sensação de sororidade.

Facada X: Quais são os desafios para as mulheres que querem atuar na área de quadrinhos e quais caminhos você recomendaria?

Laluña: Infelizmente em algumas áreas dentro no “núcleo” quadrinhos as mulheres são hostilizadas ou pré qualificadas com uma opinião majoritariamente masculinas. Isso é real e nenhuma nós está inseta disso em maior ou menor grau. Por isso que é de extrema importância a união de alguns pares (colar no rolê certo), tanto para a formatação de eventos e publicações, quanto para a divulgação dos trabalhos.

Mulheres & Quadrinhos

Dani Marino e Laluña Machado (organização)

Skipt

R$ 75,00 (campanha catarse 2020) (Amazon)

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