Gotham 1889: Uma ode a Era Vitoriana e a Belle Époque

por Laluña Machado*

Levando em consideração que o Batman é um dos personagens que mais se mantêm no imaginário coletivo e que consegue ser usado em vários tipos de representações para todas as idades e gostos, colocá-lo em uma história que se passa no fim do século XIX, numa Gotham que tem como base a Londres da Era Vitoriana, com aspectos da Belle Époque, que tem como fervor a Segunda Revolução Industrial e as condições que possibilitaram os homicídios de Jack O Estripador, vai dar muito certo. Gotham by Gaslight acabou abrindo o Elseworlds (esse título foi dado retroativamente) com muito estilo e com um roteiro muito bem amarrado. 

Gotham 1889, como ficou conhecida no Brasil, foi uma história que foi publicada inicialmente com 52 páginas, sendo composta por Brian Augustyn, com arte de Mike Mignola e cores de P. Craig. Russel. A narrativa foi lançada em 1989, apontando assim, o que viria a ser o selo Elseworlds, que colocava os principais personagens do Universo DC em realidades paralelas e contextos completamente opostos ao que o leitor estava acostumado. 

A história conseguiu fazer uma costura competente de fatos históricos e de determinações que estão no universo ficcional do Batman. Principalmente em relação às interações de pessoas que de fato existiram, como o psicólogo Sigmund Freud (que faz uma ponta como “terapeuta” do Bruce Wayne) e do serial killer mais famoso da história, Jack O Estripador, que cometeu vários homicídios com mutilações no bairro de Whitechapel, em Londres, no ano de 1888. Jack acaba sendo o vilão da narrativa que supõe sua ida para Gotham, assim como Bruce Wayne após uma turnê de negócios pela Europa.

Porém, pode-se dizer que Gotham City em si é uma das principais personagens do quadrinho, o que não poderia ser diferente dado ao contexto representado no roteiro. Levando em conta, que o século XIX foi um período de ode as cidades, tratadas com maestria em muitos poemas e narrativas de Charles Baudelaire (1821-1867) e Edgar Allan Poe (1809-1849), as estruturas sociais também são efetivamente consolidada nos diálogos e nas disposições dos personagens. Além disso, os aspectos da Belle Époque (início em meados de 1870 com fim após a Primeira Guerra Mundial) são muito bem caracterizados, não pra quem se coloca como um leitor “leigo”, mas pra quem se debruça melhor sobre algumas bases teóricas e de contexto histórico. Assim, se obtêm uma melhor percepção sobre o desenvolvimento das Empresas Wayne justamente naquele período, sabido que a Belle Époque tem como um dos seus pilares o progresso em relação à tecnologia e a indústria, além de fortificar o que seria conhecido como cultura do divertimento. Deste modo, os cabarés e parques se mostram de fundamental importância para definir essa Gotham com ares europeus. Em contraponto, as questões estruturais e socais de uma grande metrópole dessa época também são elencadas. Principalmente as indiferenças e diferenças entre as pessoas, observando os debates sobre a ascensão da burguesia, a luta de classes e os primórdios dos estudos sociais. 

Os autores também inseriram algumas particularidades que são reconhecidas da Era Vitoriana e que serviram de composição para a personalidade do Batman se ele “existisse” naquele período, pontos como uma moralidade severa e uma espécie de puritanismo que são fundamentais para o Reino Vitoriano e que são motivadores para que Bruce Wayne vista o Manto do Morcego. Além disso, há trechos em que Bruce comenta sobre o aumento da população em Gotham e Gordon ressalta que com isso a criminalidade também aumentou. Isso também é uma das características da Era Vitoriana, considerando que o século XIX gozou de anos sem grandes epidemias e secas, possibilitando uma expansão populacional. Ademais, o abandono da ruralidade a partir de 1851 fez com que as cidades se inflassem, proporcionando uma condição para a anonimidade para essas pessoas que chegavam. Contexto perfeito para as ações de um homicida em série, não?!

No ano passado, o quadrinho ganhou uma adaptação em forma de animação, porém, pode ser percebidos mais elementos da Era Vitoriana (isso foi um acréscimo paralelo ao gibi). Uma delas é o trabalho infantil tido como uma mão de obra extremamente barata e eficaz para as novas indústrias, principalmente as de minério que são retratadas em algumas obras de Charles Dickens como Oliver Twist. Na animação, alguns Robins que fizeram parte da Trajetória do Morcego aparecem como essas crianças e também cometem algumas delinquências. Para mais, a Guerra do Ópio (1839-1860) também ganhou seu lugar em algumas passagens, mesmo que isso seja de forma discreta em cenas que retratam alguns vícios, avanço da medicina e produções de medicamentos. 

Atualmente o gibi pode ser encontrado no formato de encadernado e contém uma sequencia que foi publicada originalmente em 1991, a Batman: Mestre do Futuro. A história se passa em 1892 e tem como base a “aposentadoria” de Bruce Wayne (que estar prestes a se casar) como Batman e a sua dedicação integral aos negócios da família. Para tanto, essa explanação tem características do gênero steampunk com a imersão de tecnologias que não foram aplicadas nesse contexto, além de conter discurso e passagens anacrônicas. Também podem ser notados elementos de uma população paranoica com a próxima virada de século. Bem conveniente, já que a Era Vitoriana também ficou conhecida como por ter uma obsessão com a morte e ascensão do espiritismo em território britânico. 

As duas narrativas gráficas junto com a animação provam mais uma vez que o Batman é um dos personagens mais mutáveis da cultura, mas que tem uma idiossincrasia particular, ele nunca deixa de ser Batman. Repetidamente o Personagem mescla-se com a Ideia, fazendo com que grandes histórias possam ser produzidas (outras não), mas sempre mantendo pontos que são familiares para o leitor independente da idade dele. Gotham 1889 pode ser curtida por um fã ou leitor “comum”, ou explodir a mente de um(a) historiador(a) como eu. 

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos e do site Minas Nerds.Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

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