I’M A 4F: O Batman e a Segunda Guerra Mundial

por Laluña Machado*

Os quadrinhos de super-heróis já tinham ganhando algum fôlego quando a Segunda Guerra Mundial teve seu início “oficial” em 1939, mesmo ano que o milionário (SÓ tinha milhões ainda) Bruce Wayne vestiu-se de morcego para combater o crime nas ruas de Nova York (isso mesmo, ainda não existia Gotham) na Dectetive Comics #27. Nessa primeira história, que ganhou o nome de O Caso da Sociedade Química, ainda não há fatores que caracterizam o mais novo contexto sociopolítico mundial, mas em pouco tempo ele iria aparecer e muito.

As Histórias em Quadrinhos já estavam sendo utilizadas como instrumento ideológico dos EUA, ainda mais depois da “Política de Boa Vizinhança” que foi estabelecido pelo presidente Roosvelt na tentativa de exportar o american way of life, ou seja, uma das medidas para tirar o país do cataclismo econômico no qual ele se encontrava após a Crise de 1929. Tal medida foi caracterizada por apresentar ao mundo a “experiência de ser americano”, e claro, vende-la. O estilo de vida americano começou a fazer parte dos países latino-americanos, marcas como Kibon e Trident já qualificavam as intenções do Tio Sam e é mais do que lógico que um produto como os quadrinhos não ficariam fora disso. 

Os comics eram e são uma das armas mais eficazes para vender costumes e representações, não foi por acaso que o Brasil ganhou um personagem na Disney logo nesse contexto, Zé Carioca é uma das legitimações dessa política de “boa” vizinhança estadunidense. Mas em parte demos sorte, já que o México o acordo foi mais ou menos assim: nós paramos de atacar vocês na fronteira por alguns territórios e vocês começam a COMPRAR nossos produtos e cultura. Muy amigos, no?! A partir daí os personagens dos quadrinhos começaram a ficar mais reconhecíveis pelo imaginário coletivo e isso daria sedimentação para as decisões que foram tomadas em relação às revistas durante a Guerra. 

Os EUA não entrou de imediato nos conflitos que aconteciam na Europa e no Pacífico entre os Aliados e o Eixo, o país viu uma alternativa financeira para sair da Grande Depressão que já se arrastava por 10 anos. Afinal, porque não vender tudo que temos em capacidade bélica e mantimentos para os países que estão sendo bombardeados e tendo seus aniquilados? Mas esse cenário iria mudar em 1941, após o ataque a base aérea de Pearl Harbor sob o comando de tropas do Império Japonês. Agora a maior potência capitalista se aliaria com a URSS para derrubar o nazifascismo. 

Com isso, mais uma vez o governo toma atitudes constitucionais para prover os combates ao front, afinal não se ganha uma guerra sem mão de obra e matéria prima, é quando entra a Política de Esforço de Guerra, que consistia em realmente todo o país arcar com o gasto que uma guerra traria. Absolutamente tudo em relação a consumo e mídia faria parte do Esforço de Guerra, o maior exemplo é que não se acha um carro da Ford que fora feito durante os anos de participação dos Estados Unidos na guerra, isso porque todas as fábricas foram direcionadas para a manufatura de material e/ou correspondentes a ela. Pois bem, mas onde os quadrinhos entram nisso?

Revistas de coloridas e de fácil leitura, podem ser transportadas facilmente e são perfeitas para trocas, ideais para entreter e educar os soldados. Histórias que levavam os títulos de Preso na Fortaleza Nazista e Blitzkieg em Berlim não ficavam por muito tempo nas prateleiras das lojas do exército. Além disso, as tiragens alcançaram níveis inéditos até então, Capitão Marvel batia a casa de 2 milhões de revistas vendidas ao lado de Superman e isso foi crescendo a cada personagem, ainda mais que não podemos nos esquecer de representantes como o Capitão América e a Mulher Maravilha. A guerra também contribuiu para o respeito do governo com os artistas, alguns deles serviram diretamente o exército como Jack Kirby que ganhou até condecoração, e outros como Stan Lee que forneceu seu talento para o setor de propagandas das forças armadas. Mas e o Batman?

Bem, quando o Homem Morcego foi lançado o pau já estava quebrando, contudo, o rapaz não ficaria de fora dos combates ao lado dos seus compatriotas. Só que não. O Batman não deu um soco nas fuças de Hitler e nem desviou balas como a Mulher Maravilha, mas fez sua parte dado aos moldes dos esforços de guerra. Como assim? Até então, a maioria das histórias do Batman envolviam direta ou indiretamente a máfia, mas isso mudou completamente depois que os EUA entrou na guerra, isso porque o país precisava disseminar uma ideologia de salvaguarda, de ataque e de reverter ou se vingar daquilo que o Eixo tinha provocado no seu território, agora mais do que nunca o inimigo era real e universal. O contexto exigia heróis e nada melhor que os heróis dos quadrinhos para fazer isso.

Em 1943, quando os Estados Unidos já somava 2 anos de combates com as forças do Eixo, o Batman já era um caractere de 3 tipos de mídia. O Cruzado Encapuzado participava de 3 títulos de revistas em quadrinhos, a Detective Comics, World’s Finest Comics e sua revista solo Batman, somando com tiras de jornal e uma cinessérie de cinema que foi dividida em 15 episódios. Não houve uma vertente de comunicação social em que o Batman não externava todo o sentimento que tomava conta da população, se não fosse para vender os selos de guerra no fundo dos quadrinhos, era realmente para tentar convocar as pessoas para fazer parte do que o país mais precisava naquele instante, ganhar a guerra. Tanto o Cruzado Encapuzado quanto Bruce Wayne compartilhavam um discurso de patriotismo compulsório atrelado a representações simbólicas, que para nós que agora podemos ver a situação de forma “anacrônica” nos parece extremamente bizarro ver o Batman segurando uma metralhadora enquanto o Robin a carrega e prestando continência para soldados. Mas entenda, o personagem é um aparelho midiático como qualquer outro.

O maior exemplo disso nesse contexto bélico é o que é proposto no seriado que mencionei logo acima. O Batman levou inúmeras famílias ao cinema durante 15 semanas para que eles pudessem o ver derrotando o seu maior inimigo. Achou que era o Coringa, né?! Achou errado. O Vigilante de Gotham une todas as suas forças físicas e mentais para matar o Dr. Daka, um representante do Império Japonês que desejava transformar os EUA em um grande território de escravos da ilha além do Pacífico. Episódios que levaram os títulos de Uma Armadilha Nipônica, Escravos do Sol Nascente e A Perdição do Sol Nascente, determinavam a conotação política em relação ao consciente coletivo. Inclusive, não só o vilão que não nunca mais apareceu em nada relacionado ao Batman e os títulos dos episódios indicam esse cenário, já que Bruce Wayne tem uma patente no exército (uma 4F que pode ser resumida como um reservista do TG) e o próprio presidente sabe da sua atuação pelas ruas de Gotham. O Batman também elenca ideologias com discurso quando, com ajuda de um narrador, convoca os jovens a se alistarem nas forças armadas, ajudar nos esforços de guerra e claro, salvar a nação do “demônio japonês, Dr. Daka”

Vários autores falam que a guerra foi essencial para os quadrinhos estadunidenses, principalmente para as histórias de super-heróis, mas os conflitos acabaram em 1945 com a vitória dos Aliados e um saldo do maior genocídio da história da humanidade e duas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos no Japão (que surpresa). Com o fim da luta armada a venda de quadrinhos foi ladeira abaixo, já não tinha mais um inimigo real, mas isso iria mudar novamente. Afinal, a Guerra Fria batia a porta.  

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos e do site Minas Nerds.Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

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