Laluña Machado*

A morte de Marjane Satrapi, ocorrida na semana passada, produziu algo incomum no universo das histórias em quadrinhos. Durante alguns dias, uma quadrinista dominou os principais veículos de comunicação do mundo. Sua trajetória foi revisitada em jornais, revistas, programas de televisão e portais de notícias. No Brasil, diferentes publicações repercutiram o acontecimento, resgataram sua obra e sublinharam seu peso para a cultura contemporânea.
Para quem acompanha a história dos quadrinhos, essa atenção não surpreende. Satrapi foi uma das artistas mais relevantes das últimas décadas e uma das responsáveis por mudar a forma como a narrativa gráfica passou a ser encarada por leitores, professores, pesquisadores e instituições culturais. Ainda assim, enquanto lia as reportagens e acompanhava as homenagens, uma pergunta insistia em aparecer: quantas das pessoas que hoje lamentam sua morte realmente tiveram contato com seus quadrinhos? Quantas conhecem sua produção além do título de Persépolis? E, talvez mais importante, quantas chegaram sequer à ideia de que os quadrinhos podem ser muito mais do que histórias de super-heróis?
O título deste texto pode parecer provocativo, mas nasce exatamente dessa inquietação. Afinal, quem ainda acredita que quadrinhos são apenas super-heróis? A resposta parece evidente. Em teoria, ninguém. Vivemos num momento em que gibis recebem prêmios literários, são estudados em universidades, entram nas salas de aula e ocupam espaço em livrarias ao lado de romances, ensaios e obras de não ficção. No entanto, basta observar como os quadrinhos continuam sendo discutidos fora dos círculos especializados para perceber que a associação permanece viva. Quando alguém menciona histórias em quadrinhos, o imaginário coletivo ainda convoca capas coloridas, máscaras, uniformes, vigilantes e batalhas entre heróis e vilões, como se uma linguagem com mais de um século de história pudesse ser reduzida a apenas um de seus segmentos narrativos.
Não há nada de errado com os super-heróis. Pelo contrário. Seria impossível compreender a história dos quadrinhos sem reconhecer sua importância. Eles ajudaram a consolidar uma indústria, atravessaram gerações de leitores e se tornaram alguns dos personagens mais conhecidos da cultura contemporânea. Eu mesmo estudo Batman há mais de uma década e continuo encontrando naquele universo questões relacionadas à política, à cidade, à violência e às formas de construção da justiça. O problema nunca foi a existência dos super-heróis. O problema surge quando eles passam a ocupar todo o horizonte e nos impedem de enxergar o que existe além deles.
É precisamente nesse ponto que Marjane Satrapi se torna uma figura tão central para esta discussão. Sua trajetória funciona quase como uma resposta direta à pergunta que dá título a este texto. Basta abrir qualquer obra sua para perceber o equívoco de quem confunde os quadrinhos com um único gênero.
Em Persépolis, ela transforma sua infância e juventude durante a Revolução Iraniana numa narrativa sobre memória, repressão, identidade, exílio e liberdade. Em Bordados, constrói um retrato complexo da experiência feminina a partir das conversas íntimas entre mulheres iranianas. Em Frango com Ameixas, aborda amor, arte, perda e morte através da história de um músico incapaz de continuar vivendo depois de perder aquilo que dava sentido à sua existência, o irônico disso, é que há relatos que Marjane morreu de tristeza após 1 ano do falecimento de seu marido. Mas continuando pela sua obra, podemos abordar Mulher, Vida, Liberdade, que nos traz a construção de uma memória gráfica dos protestos iranianos contemporâneos.
Nenhuma dessas obras depende de superpoderes. Nenhuma gira em torno de vigilantes mascarados. E, ainda assim, todas demonstram com força o potencial dos quadrinhos como forma de expressão artística, política e cultural.
Talvez seja por isso que a repercussão de sua morte me levou a refletir menos sobre a autora em si e mais sobre a forma como consumimos quadrinhos. Existe uma diferença importante entre conhecer personagens e conhecer uma linguagem. Muitas pessoas conhecem Batman, Superman, Homem-Aranha, mas quantas conhecem Marjane Satrapi? Quantas conhecem Art Spiegelman, Joe Sacco, Alison Bechdel, Keiji Nakazawa, Posy Simmonds ou tantos outros autores que ajudaram a expandir os limites da narrativa gráfica?
A pergunta não busca estabelecer hierarquias culturais nem sugerir que certos tipos de leitura são superiores a outros. O que ela quer revelar é a distância que ainda existe entre a popularidade de certos personagens e o reconhecimento da diversidade efetiva dos quadrinhos.
Essa distância produz um fenômeno curioso. Nunca se falou tanto sobre quadrinhos: filmes inspirados em HQs dominam bilheterias, personagens viraram marcas globais e editoras publicam mais títulos do que em qualquer outro momento da história. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa do público continua associando a linguagem a um conjunto bastante restrito de referências. É como se alguém acreditasse conhecer toda a literatura porque leu apenas um romances. Ou como se afirmasse conhecer o cinema assistindo exclusivamente a filmes de ação. Não há problema em gostar dessas obras, mas o problema aparece quando elas passam a ser confundidas com a totalidade da produção cultural.
Marjane Satrapi dedicou a vida a demonstrar que os quadrinhos podem ir muito além disso. Sua obra evidencia que a narrativa gráfica pode funcionar como autobiografia, testemunho histórico, intervenção política, crítica cultural e reflexão filosófica. Pode tratar de revoluções, migrações, relações familiares, sexualidade, autoritarismo, religião, memória e pertencimento. Pode dialogar com temas que costumamos associar à literatura, ao cinema ou às ciências humanas.
Em outras palavras, Satrapi ajudou a demonstrar que os quadrinhos não são um gênero, mas uma linguagem. E linguagens não têm temas exclusivos, têm possibilidades.
Talvez seja exatamente por isso que sua morte recebeu tanta atenção da imprensa internacional. Ela não representava apenas uma autora bem-sucedida, mas uma transformação histórica na forma como os quadrinhos passaram a ser percebidos ao longo das últimas décadas. Sua trajetória ajudou a retirar a narrativa gráfica de um espaço marginalizado e a colocá-la definitivamente no centro dos debates culturais contemporâneos.
Mas toda essa repercussão também nos obriga a uma autocrítica. Quantas pessoas descobriram Marjane Satrapi apenas porque ela morreu? Quantas ouviram seu nome pela primeira vez numa reportagem televisiva ou numa postagem nas redes sociais? Quantas conheciam Persépolis apenas como um título famoso, sem nunca ter aberto o gibi?
Essas perguntas não são uma acusação. São um convite à reflexão sobre os mecanismos que determinam o que lemos, o que valorizamos e o que permanece invisível dentro do campo cultural.
Quando perguntamos quem ainda acredita que quadrinhos são apenas super-heróis, estamos, na verdade, perguntando algo mais amplo: quem ainda não percebeu a diversidade extraordinária dessa linguagem? Quem ainda não encontrou autores que a transformaram em autobiografia, reportagem, memória histórica ou reflexão política? Quem ainda não descobriu que uma página de quadrinhos pode discutir temas tão complexos quanto os de um romance, um ensaio acadêmico ou um filme premiado?
Talvez o maior legado de Marjane Satrapi esteja precisamente aí, não apenas nas HQs que escreveu e desenhou, nos filmes que dirigiu ou nos prêmios que recebeu, mas na capacidade de ampliar o que entendemos por histórias em quadrinhos. Sua obra nos lembra que essa linguagem pode ser uma ferramenta para compreender o mundo, interpretar experiências humanas e preservar memórias coletivas.
E talvez a melhor homenagem que possamos prestar a uma autora como ela não seja apenas lamentar sua perda ou compartilhar reportagens sobre sua trajetória. Talvez seja aceitar o desafio que sua obra nos propõe: olhar para os quadrinhos para além dos super-heróis e reconhecer que, por trás dos personagens mais famosos, existe uma linguagem imensa, diversa e ainda insuficientemente explorada.
Porque, no fim das contas, a pergunta continua válida. Quem ainda acredita que quadrinhos são apenas super-heróis? Talvez menos pessoas do que no passado, mas certamente mais do que gostaríamos de admitir. E é exatamente por isso que autoras como Marjane Satrapi continuam sendo tão necessárias.
*Laluña Machado é Palestrante, Professora e Escritora. Graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB e Pós Graduada em Ensino de História – Uniamérica. Jurada Técnica do CCXP AWARDS e do Prêmio Mapinguari de Quadrinhos, curadora do Santos Criativa Festival Geek, vencedora do Troféu HQMIX nas categorias Melhor Livro Teórico e Melhor Mix com a produção Mulheres & Quadrinhos e com História dos Quadrinhos EUA na categoria Melhor Livro Teórico. Também conta com indicação no troféu Angelo Agostini como Melhor Publicação com o Mulheres & Quadrinhos. Além de ser a maior especialista tórica em Batman do Brasil. Foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB. Além disso, é Mediadora Cultural na Gibiteca de Santos e conteudista no site FacadaX. Também é pesquisadora Teórica de Histórias em Quadrinhos, apontando direcionamentos que envolvem contexto histórico, sociologia e filosofia para uma leitura mais crítica da nona arte.
Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd.