Caminho para Kandahar

por Flávia Diab*

Para grande parte do mundo, até pouco tempo atrás, o Afeganistão era um país desconhecido quase por completo. Nos últimos anos, tristemente, se tornou uma das principais notícias em todos os jornais. Em grande parte por seu famoso líder Osama Bin Laden, em outra pela brilhante invasão norte-americana, que aliás foi já praticamente esquecida pela grande mídia.

Em 1996, após dez anos de guerra com a ex-União Soviética, a milícia islâmica Talebã assumiu o poder em grande parte do território, instaurando um regime de extrema repressão. A fotografia, a pintura, bem como outras expressões artísticas foram proibidas. A situação das mulheres, se antes já era difícil, se tornou ainda mais restrita. Foram banidas de qualquer aspecto da vida social; proibidas de estudarem ou exercerem uma profissão.

Em Caminho Para Kandahar o diretor iraniano Mohsen Makmalbaf (Gabbeh, O Silêncio) procura revelar a condição feminina, em parte sintetizada pela assustadora burca (vestimenta que encobre as mulheres), escondendo-as dos pés à cabeça. “O Afeganistão é um país sem imagem por várias razões. As mulheres afegãs não têm rosto, o que quer dizer que metade de uma população de 20 milhões vive sem a chance de ser vista. Uma nação que não vê suas próprias mulheres é uma nação sem imagem.”, diz o cineasta.

O filme, entretanto, não se detém apenas na tragédia das mulheres. Mostra também a pobreza que atravessa as paisagens desérticas, além da tão dramática situação em que vivem aqueles que perderam pernas e braços em explosões de minas. Existem no Afeganistão atualmente cerca de 10 milhões de minas escondidas. Esta questão nos rende uma das mais impressionantes cenas de Caminho…, quando um avião sobrevoa um acampamento da Cruz Vermelha arremessando pares de próteses de pernas, provocando uma corrida desesperada de homens em muletas.

Caminho Para Kandahar realiza um tocante retrato de parte da realidade afegã. Trata-se de uma ficção-documental, no qual as personagens interpretam suas próprias vidas, vivem seus dramas reais. O que torna suas imagens mais impressionantes ainda.

A idéia do filme surgiu quando a jornalista Niloufart Pazira, em 1998, procurou Makmalbaf pedindo ajuda para conseguir entrar no Afeganistão. Ela havia recebido uma carta de uma amiga, contando as dificuldades que estava vivendo e sobre sua vontade de morrer. Pazira, que hoje vive no Canadá, mas que morou até os 16 anos no Afeganistão, decidiu regressar ao país para tentar tirar a amiga de lá. O diretor então lhe falou da impossibilidade de ajudá-la naquele momento. Somente dois anos mais tarde se encontram novamente, quando partem para a fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, onde a trama foi filmada.

Pazira, que de jornalista se transforma em atriz, passa a interpretar sua própria história. Nafas é uma afegã refugiada no Canadá, que regressa ao seu país de origem para tentar encontrar sua irmã menor. A caçula promete suicidar-se no próximo eclipse do sol, por não mais agüentar o regime repressor instaurado

Niloufarat acredita que o filme pode mostrar um pouco mais de perto a realidade afegã para as pessoas. Mostrar as caras e histórias, aproximar a gente que vive lá. “A nossa intenção era trazer o Afeganistão para o resto do mundo. O país está perdendo sua identidade cultural. Não existe cinema, as artes foram reprimidas. Me preocupa a manipulação que a mídia, principalmente norte-americana, possa fazer com as imagens que estamos apresentando. Após os acontecimentos de 11 de setembro o filme ficou mais visado, contudo nossa intenção continua a mesma que antes”, explica.

O filme foi apresentado pela primeira vez no Brasil na 25ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo. Na ocasião, o evento foi brindado com a presença de Niloufarat Pazira, que rodou o mundo divulgando o trabalho. “Nunca pensei que o filme poderia ser tão divulgado internacionalmente! Estou realmente impressionada com seu alcance”, conta a atriz, que diz ser essa sua primeira e provavelmente única experiência como intérprete (!).

Para quem não teve a chance de assisti-lo, Caminho Para Kandahar pode ser alugado facilmente nas locadoras. Vale o tempo investido!

Site oficial do diretor: http://www.makhmalbaf.com

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*Flávia Diab é brasiliense, produtora cultural, se interessa por cinema, música e atividades terroristas. Mora em Lisboa.

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Um comentário em “Caminho para Kandahar

  1. A única forma de acabar com esse tipo de barbárie é levando-a ao conhecimento do mundo.

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