Facada entrevista Mauro Castro, do Taxitramas

por Roberta AR

Vida de blogueiro não se resume em publicar seus próprios textos, mas se estende no prazer de conhecer páginas novas, que tenham bons textos, de preferência. Nesta de garimpar de blog em blog cheguei ao Taxitramas (www.taxitramas.blogger.com.br) , que é atualizado toda a segunda. O blog é de Mauro Castro, que é taxista em Porto Alegre e colunista semanal do Diário Gaúcho, distribuído na região metropolitana da capital gaúcha.

Histórias de taxistas sempre fascinam. Tem filme sobre isso (Uma Noite Sobre a Terra, do Jim Jarmusch) e tem apresentador global fazendo papel de taxista em programa de TV. Agora tem também livro com histórias de taxista. O Taxitramas foi lançado em outubro, pela Editora Sulina, e traz histórias publicadas no blog.

Abaixo publicamos uma entrevista com o taxista blogueiro, que nos fala um pouco sobre como começou a escrever e da importância da internet para a divulgação do seu trabalho.

No final da entrevista publicamos uma colaboração que o Mauro nos enviou e será uma ótima primeira experiência para quem nunca leu seus textos. (Quem quiser comprar o livro do Mauro Castro pode fazer isso já, é só entrar no site da Editora Sulina, ou no site da Livraria Cultura, ou no site da Livraria Saraiva )

O que te levou a começar a escrever?
Eu escrevo desde sempre, mas nunca com a constância de agora. Quando Jovem (bah, há muito tempo atrás, risos), tive um fanzine aqui na minha zona, o Scória, que, basicamente, servia para sacanear a nossa turma aqui da vila onde moro. Nada sério, mas que me despertou o gosto pela escrita. Eu também ilustrava, diagramava, distribuía e tinha o prejuízo das cópias xerox. Uma escola.
Há uns quatro anos, o editor do jornal Diário Gaúcho, que pegava táxi no meu ponto, sugeriu que eu passasse para o papel as incríveis histórias que eu colecionava sobre taxistas. Depois de analisar alguns textos que eu lhe enviei, o cara teve a coragem de me ceder um espaço no jornal, às segundas-feiras. Escrevo nesta coluna do Diário, desde então. São quase 200 textos publicados. Os mesmos que eu passo para o blog toda a segunda-feira.

De blog em blog acabei chegando no Taxitramas. Você acha que seu trabalho teria a mesma repercussão sem a internet?
Não. O Diário Gaúcho é um jornal de grande circulação (um milhão de leitores/dia), mas tem uma abrangência limitada à região metropolitana de Porto Alegre. A Internet “espraiou” meus textos pelo mundo. Isso aconteceu graças às matérias que saíram na mídia e, principalmente, à propaganda blog a blog.

Algum passageiro já se reconheceu nas suas histórias? Quais as reações?
Alguns passageiros e colegas contam as histórias e pedem que eu lhes dê o crédito. Quando escrevo por minha conta, nunca uso nomes reais. Em alguns casos, porém, não há como não saber que determinado texto se refere a tal passageiro. Isso já aconteceu, mas graças ao cuidado que procuro ter em relatar as histórias, nunca tive problemas com ninguém.

Você também escreve histórias que acontecem com seus colegas de profissão. Como é a relação deles com este seu ofício paralelo?
De uma forma geral, eles gostam. Mas não há um grande interesse, creia. Eles custam a acreditar no sucesso que as histórias fazem. Não entendem bem o que leva tantos jornalistas e canais de TVs a visitarem meu ponto. Pouquíssimos colegas, por exemplo, compraram o livro do Taxitramas…

O primeiro texto seu que eu li foi sobre o Caio Fernando Abreu.Quem são os escritores que te inspiram e te influenciam?
Tudo o que eu leio me influencia. Não tenho grandes ídolos. Gosto especialmente de crônicas, textos que sejam ágeis, que falem de forma simples, coloquial. L.F.Verissimo, Millor Fernandes, Rubem Fonseca, gente desse tipo. Não li grandes autores. Certo jornalista comparou meus textos com os do Tchecov. Preocupado, fui à Internet conferir se ele não estava me insultando (risos).

Você acaba de lançar seu primeiro livro pela Editora Sulina. Como surgiu a idéia do livro? Foi um processo difícil?
Não foi difícil. Na verdade, graças à visibilidade do blog, foi a editora Sulina que me procurou e não o contrário. Eis o milagre que a Internet é capaz de operar. Em um país onde muitos escritores correm o risco de acabar ao volante de um táxi, este humilde taxista transita na contramão.

Para quem ainda não leu nenhum texto no Taxitramas, o Mauro mandou esta colaboração para deixar um gostinho.

Drogas, mágoas e uma pistola automática

Por Mauro Castro
Dois caras entraram no táxi do Viana e mandaram tocar em frente. Na fissura, precisavam de dinheiro para comprar mais drogas. Pensaram em assaltar uma farmácia, mas depararam com câmeras de tevê e segurança armada. Preferiram meter um táxi.

O Viana é um ex-policial. Era um tira durão. Vagabundo com ele não tinha moleza. Escreveu não leu o Viana baixava a mão nos bandidos. Um policial à moda antiga, viril, hábil no uso de armas de fogo e firme na abordagem corpo a corpo. A bandidagem o temia, sabiam que na área do Viana o bicho pegava.

Um dia, porém, um traficante, com bons advogados e influência, foi “molestado” por Viana. Forjou provas, subornou as pessoas certas, alterou perícias e comprou testemunhas. Submetido a um processo disciplinar, constrangido e humilhado, Viana acabou deixando a polícia. Perdeu a insígnia e a auto-estima.

Depois de sucumbir à burocracia na tentativa de abrir uma empresa de segurança, Viana passou a viver de bico. Segurança em bailes, vigia, manobrista, qualquer coisa. Salários aviltantes e mágoa: uma mistura explosiva.

Naquela noite, estava trabalhando no táxi do seu sogro. Parado em uma esquina escura, cansado e sem perspectiva, Viana acariciava sua pistola automática que levava sob o banco, quando os dois caras entraram para o que parecia ser só mais uma corrida.

Quando a lâmina da faca roçou seu pescoço e o assalto foi anunciado Viana reagiu por instinto. O policial que havia no fundo daquele farrapo de taxista ressurgiu. Como quem reage ao próprio destino, abateu os marginais com dois tiros certeiros.
Haviam escolhido a vítima errada, na hora errada.

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