A gaivota cega (parte 1)

por Raul Córdula*

Tenho visto gaivotas. Outro dia em Olinda, na curva da Praça do Carmo, avistei um bando delas voando para o norte. Estranho! As gaivotas são de outras praias, os pássaros daqui são pernaltas: lavadeiras, maçaricos; gaivotas são de longe. Mas tenho visto algumas perdidas por aqui. Noite dessas, na Rua do Bonfim, equilibrando-se numa cimalha da parede da igreja, lá estava uma gaivota assustada, estranha, tentando compreender o mundo diferente em que se havia metido. Cagara no barroco da fachada e sua merda fedia a esperma podre, peixe estragado, mênstruo jogado no lixo. Parecia, porque na verdade eu não senti o fedor, passava rápido, de carro. Mas pude ver, quando virou seu pescoço ao perceber minha presença, que o olho do outro lado de sua cabeça estava vazado. De um lado um olho sem olhar, redondo, vendo o mundo ameaçador sem mostrar nenhuma emoção, do outro um olho cego que, embora nada visse, expressava algo como um olhar de angústia e sofrimento. Lembrei-me que em Lisboa gaivotas e pombas desenhavam o céu com as formas e movimentos de seus corpos alados numa sensação de “à vontade”, de total desprezo do mundo dos homens, em frente às correnteza do Tejo.

Não somos Lisboa, tampouco Veneza, muito menos Amsterdã, mas noutro dia, tendo marcado um encontro com Betânia na Praça do Arsenal para beber vinho, avistei outras gaivotas voando sobre as estruturas dos mastros e das amarras dos navios do porto, e mais uma vez me senti em Lisboa. Era de tarde e eu esperava minha amiga que queria me levar à Torre. Percebi aos poucos outros pássaros. Pombos e pardais que conviviam com as gaivotas, cachorros e gatos que cruzavam a praça. Parecia que os animais participavam de uma cumplicidade à margem da vida dos homens, que se viam entre eles, que sabiam dos seus hábitos e guardavam distância e respeito entre si. E respeitavam os homens e suas manias.

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*Raul Córdula é pintor, paraibano, fundou o Museu Assis Chateaubriand de Campina Grande, onde foi diretor; foi supervisor da Casa da Cultura de Pernambuco; hoje e responsável pelo intercâmbio da Casa França-Brasil e representante da Associação Cultural de Marselha. Assina Córdula.

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