Motivo Onze (ou Valsa nº 6 dos Mutantes)

por Biu e Stevz*

1. Eu consigo ouvir o tilintar dos segundos que escorrem do relógio de parede quando caem quicando no chão atrás de mim. Em breve a sala estará cheia deles e será difícil transitar, mais um pouco e o lugar estará inundado, e sufocaremos todos.

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2. Lá embaixo o tempo vai ficando cada vez mais curto à medida que avança, a sala afundou até a medida dos pés do cristo pendurado na parede, até os pés da cruz – o cristo não está mais lá, despregou-se e saiu andando sobre as águas do tempo, não sei se volta. Lá embaixo, agora, a sala vazia, cheia de si, em seu meio boia o esquife, muda testemunha desse estranho naufrágio. Lá fora crianças brincando na rua…

Cá em cima eu espero a minha hora tocando uma valsinha, uma que compus especialmente para o Manoel Manco, mas que é dedicada a todos os que vieram aqui hoje, vieram porque quiseram, não os convidei, nem fui convidada, nem eu nem minha irmã, tenho certeza, e agora ela está lá embaixo com os outros, submersa, como os outros. Chegaram, entraram, foram se sentando e se servindo e nem sequer para perguntar quem é o morto. E afinal quem é o morto? – Pergunta-me Johnny.

Eu páro a música. Ou a música me pára, não estou bem certa.

– Bem, eu tenho uma teoria sobre isso, meu caro Johnny, e ela é a seguinte:
Você sabe o endereço daqui?
– Não.
– Esse casarão onde estamos, você observou alguma janela?
Várias – Respondeu Johnny.

– E você já tentou apreciar a paisagem? Não? É porque não há paisagem. Estamos aqui morrendo de medo da morte enquanto nos velamos uns aos outros, Johnny. E você me pergunta quem é o morto…

– E volto a perguntar: Quem é o morto?

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*Biu é paraibano, farmacêutico e faz quadrinhos.

* Stevz é brasiliense, ilustrador e músico. De vez em quando ele escreve.

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