Uma história contada através do Atlas da Experiência Humana (parte 1)

 por Luciano Vitoriano*

Seis da tarde, na cidade de Mudança. Saí de meu trabalho no Posto de Controle pela saída principal, que fica na Rua da Incerteza, dobrei a esquina em Postergação para pegar meu ônibus de volta para casa, mas, em vez disso, resolvi dobrar mais uma esquina e, não sei bem porque, entrei pela Rua da Decisão.

Eu não tinha uma vida ruim. Um trabalho estável no Instituto da Dúvida, uma pequena casa na Alameda das Hipóteses, no bairro de Tese, um bairro suburbano, ao norte da cidade. Saía para me divertir, de vez em quando. Religiosamente praticava minhas corridas na Rua Supostamente-Tudo-Sob-Controle, admirava a natureza exuberante do parque do Exagero e, de vez em quando, fazia pic-nics à beira do lago do Impulso, que ficava naquele parque. Assim mesmo, tinha um impulso incontrolável para andar. Para não voltar para casa.

Passei por grandes bulevares e entrei à direita na Alameda da Melancolia, deixando para trás, à minha esquerda, as casas pobres do Bairro Decadente, com suas ruas apertadas onde estão perdidas as, outrora pontos de encontro dos intelectuais e boêmios, Ruas da Beleza, da Inocência e a perigosíssima Rua Sem Volta.

A Alameda da Melancolia termina em uma rua que transformou-se em um grande beco depois da instalação, ao sul da cidade, da Usina de Efeito da Prevenção, que, através do oleoduto do Canal Transcontinental da Existência e da Decadência, refina os subprodutos da usina do Grande Transformador, que fica ao norte.

Para não seguir por este beco perigoso, minhas únicas opções eram voltar para trás (o que estava fora de cogitação) ou entrar no grande, clássico e decadente edifício da estação de trem de Parada Perdida.

Andei muito por lá, vendo o trânsito intenso de pessoas, até que sentei em um banco, dos poucos que estavam desocupados (é impressionante como a Parada Perdida é cheia a qualquer hora do dia) e contei o dinheiro que carregava comigo. Não era muito, mas possibilitava-me pegar o próximo trem. “Para onde vai o próximo trem?” perguntei para a moça do balcão. Ela respondeu, não sem antes fazer uma bola de chiclete que estourou sem fazer barulho, “o ponto final é na cidade de Arrependimento, com paradas nas cidades de Perda e de Estóico”. “Uma, só de ida”, pedi.

O Trem de Grande Tristeza partiu antes do horário, deixando para trás muitos passageiros com suas passagens compradas e que (feliz ou infelizmente) não tiveram tempo de embarcar. Já era noite e eu estava cansado, então, antes do trem cruzar o deserto do Ser eu já estava dormindo.

O agito do trem e o corre-corre dos funcionários da companhia ferroviária através dos vagões fizeram com que meu sono não fosse muito longo. Quando acordei, certamente estávamos passando pelo deserto de Tornar-se, pois, no terreno plano, consegui, ao longe, reconhecer as luzes da cidade de Consequências.

Depois de 12 horas de viagem, o trem começou sua subida, deixando para trás as planícies dos desertos dos Problemas e entrando nas regiões altas das Montanhas do Desespero. Uma hora mais tarde, mais ou menos, fizemos nossa primeira parada na cidade de Perda.

Por algum motivo, naquela hora, mudei de idéia. Não queria mais ir até Arrependimento. Eu já conhecia aquela cidade, tinha amigos e parentes lá. Conhecia todas as cidades em volta e, definitivamente, não estava afim de pescar com meus amigos de Feridas Antigas no lago de Pesar, nem de fazer a trilha pela mata que liga a cidade de Remorso a Amor Antigo. Nem mesmo aproveitar as praias de Nostalgia, olhando o Farol de Rememorar, atiçavam meu interesse. Não era nada disso que eu estava procurando. Então, carregando comigo não mais do que as roupas do corpo e alguns trocados, desembarquei e fiquei na estação olhando o trem partir… (continua)

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*Luciano Vitoriano é paulistano, fã de ficção científica e colecionador de profissões. Dorme pouco, sonha muito. Mora em São Paulo.

Hoje, e nas próximas duas semanas, o Facada Leite-Moça trará capítulos de uma história criada por Luciano Vitoriano. É um projeto ainda em desenvolvimento que certamente te deixará sedento pela continuação. Aproveitem.