Facada Cast 002 – 2014: contra, a favor, muito pelo contrário

Qual a ligação entre a Copa do Mundo e uma revolução armada liderada por macacos? A resposta é uma só: 2014. Nesta edição, Roberta AR, Pedro Elias e André têm como convidado Luciano Vitoriano, do Vish Podcast, para fazer um balanço do ano que dividiu amigos e cabeças de orcs a pedradas.

Leia a crônica de Luciano Vitoriano, que inspirou o podcast.

Um ano tão polarizado que minha retrospectiva só poderia ser feita em termos de “a favor” e “contra”.

Fui contra o Facebook. A favor do Google+. Contra o isolamento digital. A favor do deixa-quieto. Contra o ebola. A favor dos BRICS. A favor da Copa. Contra a copa. A favor da Copa. Contra a Copa… Contra o esmagamento dos contra. Contra o 7X1. A favor da Internet. A favor da Alemanha. Contra Dunga. Contra o conservadorismo. A favor de direitos básicos. E ao que parece. A favor da corrupção. A favor de “tudo que está aí”. (suspiro). Contra o preconceito. A favor do respeito. A favor das minorias. A favor do resultado de eleições, sejam quais forem. Contra a Dilma. Mas mais contra Aecio. E contra a bolsonarização da vida. A favor de unfollows. A favor de encontros às cegas. Contra relacionamentos surdos. A favor de EUA falar com Cuba. A favor de Israel. A favor da Palestina. Contra mísseis caindo em escolas. Contra me mandarem pra Cuba sem me darem a passagem. Contra os ministérios. Contra a saída de cena do Chaves. Contra o desespero do Homem Bicentenário. Contra… absolutamente contra qualquer ditadura. Contra Interestrelar. A favor de Planeta dos Macacos. Contra o Hobbit virar 3 filmes. Contra Katniss em todas as salas. A favor de conselhos populares. Contra Juiz-Divindade. Contra juiz abutre. A favor do exoesqueleto. A favor da Rosetta. Contra o pau-de-selfie. E totalmente a favor de que o próximo seja melhor que o anterior.

Trilha sonora: Abertura – Ponto de vista, do Casuarina;  BG – álbum Tidal, de Fiona Apple.

 

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Uma história contada através do Atlas da Experiência Humana (parte 3)

por Luciano Vitoriano*

Quando acordei, estávamos estacionando em uma espécie de galpão de jipeiros. Eu desembarquei, sonolento, e perguntei à guia o que estávamos fazendo ali. Eu estava totalmente perdido, pois não ouvi nada do que ela explicou. Ela respondeu que estávamos trocando de transporte, pois, para seguir nossa viagem para o lago do Choro, teríamos que pegar uma trilha pela mata. Demorou alguns segundos até cair minha ficha… “Lago do Choro?” – perguntei com um sorriso nervoso. “Sim, senhor”, ela respondeu. Eu disse que não era para lá que eu tinha comprado o passeio, que tinha comprado um passeio muito mais caro e que não me interessaria passar o dia andando de jipe. Ela me mostrou o comprovante e disse “senhor, aqui está seu comprovante, você comprou exatamente este passeio”. Eu fiquei revoltado. A recepcionista me cobrou o dobro do preço e me colocou em um passeio que eu não comprei! Na pressa com que saí, nem li o comprovante. Eu estava indignado! Virei as costas para a guia e disse: “vocês podem ir sem mim! Eu vou dar um jeito de voltar para o hotel! Vou matar aquela incompetente!”. Visivelmente constrangida, a guia tentou acalmar-me, sem sucesso. Eu a empurrei para o lado e saí andando. O pior é que aquele lugar ficava em uma parte isolada da cidade. Eu teria que andar um bocado até chegar ao centro, onde poderia conseguir um taxi.

A van da empresa de turismo foi embora e os passageiros saíram em seus jipes, felizes, para seus passeios. Eu fiquei ali, amoado, revoltado. Dei-me conta, então, que não sabia nem onde estava. Perguntei para um jipeiro “amigo, que cidade é essa?”, “Desespero, senhor”. Eu conhecia Desespero de ouvir falar: a cidade mais insuportável do mundo. Crimes, trânsito, um clima quente, abafado e úmido. Estava no pior lugar que poderia estar em um raio de 500 kilômetros. Contei a ele minha história e meu plano de caminhar até a cidade para procurar um táxi. Ele disse que não faria isso se fosse eu, pois, há muitos perigos naqueles caminhos até a cidade. Bandidos ficam à espreita, procurando por turistas desavisados como eu.

Eu disse “então, você está dizendo que eu vou ter que ficar aqui até a van voltar para pegar os outros passageiros?” e ele disse “não, senhor, porque isso não irá acontecer. A van, quando sai daqui, vai por um caminho de estrada para a cidade de Choro e é lá que ela vai pegar os passageiros, no final do dia”. “Então, o que eu faço?”, perguntei. “Bom, eu posso falar para meu chefe se ele não faz um preço melhor para o senhor e a gente aluga um jipe para levar o senhor de volta para Perda.”, respondeu o jipeiro. “Puxa, se você fizer isso, eu fico muito agradecido”, respondi, sentando em uma cadeira velha com vários rasgos em seu estofamento.

Não demorou muito até ele voltar acenando positivamente. Falou-me o preço – muito salgado, por sinal – mas eu tive que aceitar. Fomos até a sala da gerência para passar meu cartão. Deu errado a primeira vez. Ele passou novamente, digitei a senha e deu mais um erro. Eu já sabia, mas, fiquei ouvindo quando ele falou que, caso tentasse novamente e desse erro, poderia ter meu cartão bloqueado. Sugeriu, então, que utilizasse um pequeno caixa 24 horas que havia a cinco minutos dali, em um posto de gasolina. Garantiu que, por aqueles caminhos, eu poderia andar sossegado porque eram seguros.

Não tive opção, fui até o posto e acessei minha conta. Para minha surpresa, descobri que a máquina dos jipeiros não tinha nenhum problema e nem tampouco meu cartão. O problema era que, simplesmente, minha conta havia sido zerada… Provavelmente haviam clonado meu cartão. Fiquei desnorteado. Será que teria sido no hotel? Não, eles não se arriscariam a escândalos com fraudes deste tipo… Então, veio uma lembrança em minha mente: a máquina de cartão do taxista… Bem que eu senti que não era boa gente quando ele me disse que torcia para o Antítese… (continua).

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*Luciano Vitoriano é paulistano, fã de ficção científica e colecionador de profissões. Dorme pouco, sonha muito. Mora em São Paulo.

Uma história contada através do Atlas da Experiência Humana (parte 2)

por Luciano Vitoriano*

Lá estava eu, sozinho, em uma cidade desconhecida, sem lugar para ficar e com quase nenhum dinheiro no bolso. Eu havia trazido meus cartões, mas minhas economias tinham sido feitas com tanto sacrifício que eu não queria, agora, para satisfazer uma vontade que eu não sabia nem de onde vinha, torrar tudo o que tinha. Me deu uma grande vontade de voltar para trás, mas sentia que ainda não tinha cumprido a missão que eu tinha eu cumprir – seja lá que missão fosse essa.

A cidade de Perda é uma cidade muito conhecida. Pessoas de todos os pontos do país – e também muitos estrangeiros – visitam a cidade muitas vezes no ano. Algumas vêm à Perda por causa do trabalho, outros por motivos pessoais. Eu nunca havia conhecido Perda e as agências de turismo têm um lema para a cidade: “você não conhece a si mesmo antes de conhecer Perda”. Bem, ali estava eu.

Andei pelos arredores da estação até achar um taxi.

Conversando com o motorista, pedi informações sobre hotéis na região, preços, etc e ele disse conhecer um que, certamente, eu gostaria. Fomos conversando o caminho todo. Ele perguntou-me o que me trazia até Perda e eu, desconcertado, tive que dizer que não sabia exatamente o que estava fazendo ali. Na conversa, descobri que ele também era de Mudança, que morou muitos anos no bairro de Coincidência, na zona central, e que tinha se mudado para Perda há quinze anos. Resolveu passar um tempo ali depois da morte da esposa e, por fim, nunca mais foi embora. Quando o assunto começou a ficar triste demais, começamos a falar de futebol e, então, descobri que ele torce para o Esporte Clube Antítese, o “arqui-inimigo” do meu time, o Tese futebol clube, e isso rendeu assunto para os próximos quarenta minutos de viagem. Aliás, só demoramos quarenta minutos porque, segundo ele, distraiu-se com a conversa e acabou perdendo-se no caminho… Eu não quis brigar e paguei a corrida sem reclamar. Ainda bem que ele tinha máquina de cartão de débito no taxi.

Desci no hotel, fiz meu check-in e fui para meu quarto, de onde não saí o dia todo. Passaria ali o fim de semana e, então, voltaria para casa.

Liguei para a recepção para informar-me sobre passeios turísticos da cidade e a recepcionista –apesar da dificuldade para localizar informações em seu sistema – forneceu-me os roteiros mais conhecidos. O que mais agradou-me, afinal, foi um passeio para uma vila localizada a três horas de Perda, a oeste, em uma parte alta e fria da região das montanhas do Desespero, chamado Pico do Orgulho. Disseram que, de lá, conseguimos ver as cidades de Herói, Bravura e toda a região montanhosa de Coragem, Busca e Encurralado. Combinei o valor e horário. Eles ligariam para mim no dia seguinte, assim que a van da empresa de turismo chegasse.

À noite, eu estava cansado, mas, não sei porque, perdi o sono.

No dia seguinte, sem dormir nem um pouco, desci para a recepção do hotel para esperar a van. Assim que o carro estacionou na frente do hotel, a recepcionista acenou chamando-me. Ela teria que me entregar o ticket de embarque para que eu o apresentasse à empresa de turismo, comprovando meu pagamento. Mais uma vez, ela estava um pouco perdida e, com muita dificuldade, conseguiu imprimir meu comprovante. A van já estava quase saindo e, para não perdê-la, peguei rapidamente o papel das mãos da recepcionista e corri para a rua. Eles já estavam saindo quando eu bati algumas vezes na janela da van. Abriram a porta, entreguei meu comprovante e tomei meu assento.

A guia nos cumprimentou, informou que passaria em alguns hotéis para pegar outros passageiros e que, então, nos explicaria como seria nosso dia. A noite sem dormir, somada àquele stress matutino e à voz baixa e monocórdia da guia fez com que meu sono aparecesse. Dormi durante toda a viagem e perdi toda a explicação da guia. (continua)

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*Luciano Vitoriano é paulistano, fã de ficção científica e colecionador de profissões. Dorme pouco, sonha muito. Mora em São Paulo.

Uma história contada através do Atlas da Experiência Humana (parte 1)

 por Luciano Vitoriano*

Seis da tarde, na cidade de Mudança. Saí de meu trabalho no Posto de Controle pela saída principal, que fica na Rua da Incerteza, dobrei a esquina em Postergação para pegar meu ônibus de volta para casa, mas, em vez disso, resolvi dobrar mais uma esquina e, não sei bem porque, entrei pela Rua da Decisão.

Eu não tinha uma vida ruim. Um trabalho estável no Instituto da Dúvida, uma pequena casa na Alameda das Hipóteses, no bairro de Tese, um bairro suburbano, ao norte da cidade. Saía para me divertir, de vez em quando. Religiosamente praticava minhas corridas na Rua Supostamente-Tudo-Sob-Controle, admirava a natureza exuberante do parque do Exagero e, de vez em quando, fazia pic-nics à beira do lago do Impulso, que ficava naquele parque. Assim mesmo, tinha um impulso incontrolável para andar. Para não voltar para casa.

Passei por grandes bulevares e entrei à direita na Alameda da Melancolia, deixando para trás, à minha esquerda, as casas pobres do Bairro Decadente, com suas ruas apertadas onde estão perdidas as, outrora pontos de encontro dos intelectuais e boêmios, Ruas da Beleza, da Inocência e a perigosíssima Rua Sem Volta.

A Alameda da Melancolia termina em uma rua que transformou-se em um grande beco depois da instalação, ao sul da cidade, da Usina de Efeito da Prevenção, que, através do oleoduto do Canal Transcontinental da Existência e da Decadência, refina os subprodutos da usina do Grande Transformador, que fica ao norte.

Para não seguir por este beco perigoso, minhas únicas opções eram voltar para trás (o que estava fora de cogitação) ou entrar no grande, clássico e decadente edifício da estação de trem de Parada Perdida.

Andei muito por lá, vendo o trânsito intenso de pessoas, até que sentei em um banco, dos poucos que estavam desocupados (é impressionante como a Parada Perdida é cheia a qualquer hora do dia) e contei o dinheiro que carregava comigo. Não era muito, mas possibilitava-me pegar o próximo trem. “Para onde vai o próximo trem?” perguntei para a moça do balcão. Ela respondeu, não sem antes fazer uma bola de chiclete que estourou sem fazer barulho, “o ponto final é na cidade de Arrependimento, com paradas nas cidades de Perda e de Estóico”. “Uma, só de ida”, pedi.

O Trem de Grande Tristeza partiu antes do horário, deixando para trás muitos passageiros com suas passagens compradas e que (feliz ou infelizmente) não tiveram tempo de embarcar. Já era noite e eu estava cansado, então, antes do trem cruzar o deserto do Ser eu já estava dormindo.

O agito do trem e o corre-corre dos funcionários da companhia ferroviária através dos vagões fizeram com que meu sono não fosse muito longo. Quando acordei, certamente estávamos passando pelo deserto de Tornar-se, pois, no terreno plano, consegui, ao longe, reconhecer as luzes da cidade de Consequências.

Depois de 12 horas de viagem, o trem começou sua subida, deixando para trás as planícies dos desertos dos Problemas e entrando nas regiões altas das Montanhas do Desespero. Uma hora mais tarde, mais ou menos, fizemos nossa primeira parada na cidade de Perda.

Por algum motivo, naquela hora, mudei de idéia. Não queria mais ir até Arrependimento. Eu já conhecia aquela cidade, tinha amigos e parentes lá. Conhecia todas as cidades em volta e, definitivamente, não estava afim de pescar com meus amigos de Feridas Antigas no lago de Pesar, nem de fazer a trilha pela mata que liga a cidade de Remorso a Amor Antigo. Nem mesmo aproveitar as praias de Nostalgia, olhando o Farol de Rememorar, atiçavam meu interesse. Não era nada disso que eu estava procurando. Então, carregando comigo não mais do que as roupas do corpo e alguns trocados, desembarquei e fiquei na estação olhando o trem partir… (continua)

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*Luciano Vitoriano é paulistano, fã de ficção científica e colecionador de profissões. Dorme pouco, sonha muito. Mora em São Paulo.

Hoje, e nas próximas duas semanas, o Facada Leite-Moça trará capítulos de uma história criada por Luciano Vitoriano. É um projeto ainda em desenvolvimento que certamente te deixará sedento pela continuação. Aproveitem.