Loucura divina

por Castro Alves*

— “Sabes que voz é esta?”
Ela cismava!…
— “Sabes, Maria?
— “É uma canção de amores.
Que além gemeu!”
— “É o abismo, criança!…”
A moça rindo
Enlaçou-lhe o pescoço:
— “Oh! não! não mintas!
Bem sei que é o céu!”
— “Doida! Doida! É a voragem que nos chama!…”
— “Eu ouço a Liberdade!”
— “É a morte, infante!”
— “Erraste. É a salvação!”
— “Negro fantasma é quem me embala o esquife!”
— “Loucura! É tua Mãe… O esquife é um berço,
Que bóia n’amplidão!…”
— “Não vês os panos d’água como alvejam
Nos penedos? Que gélido sudário
O rio nos talhou!”
— “Veste-me o cetim branco do noivado…
Roupas alvas de prata… albentes dobras…
Veste-me!… Eu aqui estou.”
— Já na proa espadana, salta a espuma…
— São as flores gentis da laranjeira
Que o pego vem nos dar…
Oh! névoa! Eu amo teu sendal de gaze!…
Abram-se as ondas como virgens louras,
Para a Esposa passar!…
“As estrelas palpitam! — São as tochas!
Os rochedos murmuram!… São os monges!
Reza um órgão nos céus!
Que incenso! — Os rolos que do abismo voam!
Que turíbulo enorme — Paulo Afonso!
Que sacerdote! — Deus…”
À beira do abismo e do infinito
A celeste Africana, a Virgem-Noite
Cobria as faces… Gota a gota os astros
Caíam-lhe das mãos no peito seu…
… Um beijo infindo suspirou nos ares…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A canoa rolava!… Abriu-se a um tempo
O precipício!… e o céu!…

Santa Isabel, 12 de julho de 1870

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* Antônio Frederico de Castro Alves (1847 – 1871) foi um poeta brasileiro.Nasceu na fazenda Cabaceiras, a sete léguas (42 km) da vila de Nossa Senhora da Conceição de “Curralinho”, hoje Castro Alves, no estado da Bahia. Suas poesias mais conhecidas são marcadas pelo combate à escravidão, motivo pelo qual é conhecido como “Poeta dos Escravos”. Foi o nosso mais inspirado poeta condoreiro.

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