A duas flores

por Castro Alves*

São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas… Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

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* Antônio Frederico de Castro Alves (1847 – 1871) foi um poeta brasileiro.Nasceu na fazenda Cabaceiras, a sete léguas (42 km) da vila de Nossa Senhora da Conceição de “Curralinho”, hoje Castro Alves, no estado da Bahia. Suas poesias mais conhecidas são marcadas pelo combate à escravidão, motivo pelo qual é conhecido como “Poeta dos Escravos”. Foi o nosso mais inspirado poeta condoreiro.

Loucura divina

por Castro Alves*

— “Sabes que voz é esta?”
Ela cismava!…
— “Sabes, Maria?
— “É uma canção de amores.
Que além gemeu!”
— “É o abismo, criança!…”
A moça rindo
Enlaçou-lhe o pescoço:
— “Oh! não! não mintas!
Bem sei que é o céu!”
— “Doida! Doida! É a voragem que nos chama!…”
— “Eu ouço a Liberdade!”
— “É a morte, infante!”
— “Erraste. É a salvação!”
— “Negro fantasma é quem me embala o esquife!”
— “Loucura! É tua Mãe… O esquife é um berço,
Que bóia n’amplidão!…”
— “Não vês os panos d’água como alvejam
Nos penedos? Que gélido sudário
O rio nos talhou!”
— “Veste-me o cetim branco do noivado…
Roupas alvas de prata… albentes dobras…
Veste-me!… Eu aqui estou.”
— Já na proa espadana, salta a espuma…
— São as flores gentis da laranjeira
Que o pego vem nos dar…
Oh! névoa! Eu amo teu sendal de gaze!…
Abram-se as ondas como virgens louras,
Para a Esposa passar!…
“As estrelas palpitam! — São as tochas!
Os rochedos murmuram!… São os monges!
Reza um órgão nos céus!
Que incenso! — Os rolos que do abismo voam!
Que turíbulo enorme — Paulo Afonso!
Que sacerdote! — Deus…”
À beira do abismo e do infinito
A celeste Africana, a Virgem-Noite
Cobria as faces… Gota a gota os astros
Caíam-lhe das mãos no peito seu…
… Um beijo infindo suspirou nos ares…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A canoa rolava!… Abriu-se a um tempo
O precipício!… e o céu!…

Santa Isabel, 12 de julho de 1870

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* Antônio Frederico de Castro Alves (1847 – 1871) foi um poeta brasileiro.Nasceu na fazenda Cabaceiras, a sete léguas (42 km) da vila de Nossa Senhora da Conceição de “Curralinho”, hoje Castro Alves, no estado da Bahia. Suas poesias mais conhecidas são marcadas pelo combate à escravidão, motivo pelo qual é conhecido como “Poeta dos Escravos”. Foi o nosso mais inspirado poeta condoreiro.