A fraude eleitoral

por Lima Barreto*

Desde muito que várias personalidades da República, próceres de vários partidos e facções que se propunham salvar a pátria, mediante medidas inócuas ou simplórios cortes sistemáticos na arraia-miúda; desde muito, dizíamos, que várias personalidades se reuniam para resolver o problema da verdade eleitoral.
A comissão, como fazia há seis anos, se congregou naquela tarde para apresentar ideias tendentes a obter da exata manifestação das urnas a legítima representação nacional.
O senador Brederodes apresentou as suas ideias, o seu colega Marcondes as suas opiniões; Machado Malagueta aventou alguma coisa; enfim toda a comissão trabalhou a valer, e os alvitres mais sutis, mais severos, mais saudáveis, foram sugeridos para que a fraude fosse evitada nas eleições federais.
Despediram-se amáveis, sorridentes. E, ao famoso “secretário” da comissão, o oficial da Secretaria do Senado, Raide, pareceu que, daquela confabulação, ia sair obra de grande valia e alcance.
O seu desgosto, ao supor isto, era de não poder ele também assinar o projeto.
Seria a imortalidade…
Brederodes, que era econômico, desceu a pé até às ruas centrais. Atravessou o Campo de Santana apreensivo.
Chegou à chapelaria Watson e encontrou logo o seu adepto Fulgêncio, deputado desconhecido.
Falou-lhe este com todo o respeito devido ao chefe supremo do seu partido.
— Como vai vossa excelência?
— Não estou bom hoje, Fulgêncio.
— Por quê?
— Aborreci-me no Senado, na reunião da comissão.
— Que houve?
— Escuta aqui.
— Aquele canalha do Malagueta parece que anda de mãos dadas com o Dourado e os meus adversários no estado.
— Por quê?
— Não é que ele propôs que, na reforma eleitoral a fazer-se, não houvesse voto cumulativo? Estou derrotado…
Enquanto isso se passava, Malagueta, que viera de bonde, já se havia encontrado com a mulher e as filhas em uma confeitaria. Uma destas lhe disse:
— Papai parece que está contrariado.
— Pudera!
— Que houve, Chico? — perguntou-lhe a mulher.
O tratante do Marcondes propôs na comissão que só houvesse um deputado por distrito e que estes fossem equivalentes ao número de deputados que cada estado dá.
— Que tem?
— Que tem? É que não faço nem quatro lá na nossa terra…
Marcondes não ouviu certamente o tratamento que lhe deu o seu amável colega, mesmo porque ele tinha corrido do Senado para a casa de uma adorável criatura, a Manon, francesa nascida nos arredores de Varsóvia.
— Marcondes não está bom hoje — disse-lhe esta.
— É verdade. O patife do Brederodes propôs medidas que acabam com as atas falsas nas eleições.
— Que tem isso?
— É que, se eu assinar o projeto, o Juca, o chefão, não me reelege.
O projeto, como era de esperar, não foi apresentado ao plenário, e a comissão ainda estuda os meios eficazes de acabar com a fraude eleitoral.

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Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), mais conhecido apenas como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

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