Entre Robin e Foucault: manifestações de uma sexualidade

por Laluña Machado*

Em abril de 1940, Robin, o Menino Prodígio, fazia sua estreia na Detective Comics #38. Com um apelo mais infantil para as histórias do Homem Morcego, Dick Grayson conseguiu dobrar as vendas das revistas após suas missões com o Cruzado Encapuzado, afinal, o modo como os roteiros eram narrados mudou com a presença do Robin. O Batman agora tinha alguém para dialogar sobre o que ocorria, trazendo uma linguagem que sustentava muito mais uma relação com o leitor. Principalmente quando esse público consumidor, em sua maioria, tinha a idade de Dick Grayson. O menino que viu sua família ser morta pela máfia (que inovador, não?!) colocou mais “cor” nas histórias, além de tirar o Batman do centro das críticas que apontavam a parte dark das narrativas.

Além disso, o surgimento de Robin mudou a indústria dos quadrinhos de super-heróis que engatou uma onda de personagens mirins ajudantes que se aproximavam mais com os leitores. Buck e Kid Flash também são grandes exemplos dessas mudanças que foram proporcionadas após as aventuras do menino trapezista com nome de passarinho.

Porém, nem tudo foi um rolê louco de Batmóvel nas quebradas de Gotham. Em 1954, o psiquiatra alemão Fredric Wertham publicou o livro Sedução do Inocente que continha vários artigos que alertavam para o consumo de histórias em quadrinhos. Wertham declarou em seu livro e em várias entrevistas que os comics eram uma espécie de impulso para a delinquência juvenil, além de poder o influenciar a sexualidade das crianças e adolescentes. Para o psiquiatra, histórias como a da Mulher-Maravilha induziam ao “lesbianismo”, além de apontar Bruce Wayne e Dick Grayson como um casal homoafetivo que envolvia pedofilia. As ações de Wertham foram de extrema importância para a história das histórias em quadrinhos, a partir daí foi estabelecida uma censura e determinado o Comics Code Authority, que teve o poder de legitimação das obras em arte sequencial durante décadas.

Contudo, os relatos sobre a sexualidade de Dick Grayson tornaram-se uma espécie de senso comum, principalmente entre as pessoas que não consomem quadrinhos ou que não conhecem a história por trás dos comics. Para além disso, quando Grayson deixou o manto do Robin para se tornar o Asa Noturna, a indústria quase sempre o coloca sob as 4 linhas limitantes do Male Gaze1, mas isso é um debate para outro texto.

Deixando o senso comum de lado, a DC resolveu estabelecer a bissexualidade do terceiro Robin, Tim Drake. Um dos personagens mais amados pelos nerdolas, o Robin de Tim Drake é considerado um dos mais eficientes em termos narrativos, principalmente devido a sua origem, afinal, Drake foi o único dos Robins a descobrir a real identidade do Batman e consequentemente fazer parte da equipe. Encaixa-se aquele discurso de meritocracia que os nerdolas adoram, mas que de certa forma faz o roteiro funcionar, porque Drake sempre se coloca em pé de igualdade com o Morcegão e isso trás uma dinâmica diferenciada para os diálogos e os embates internos.

Mas retornando aos objetivos desse texto, a bissexualidade de Tim Drake foi apresentada de forma “orgânica” pela DC, e isso faz muita diferença para o discurso que a editora se dispôs a ter daqui para frente. Tudo acontece na terceira parte do arco Sum Of Our Parts da Batman: Urban Legends #6, após Bernard (amigo de Tim) ser resgatado de uma espécie de sequestro/rapto e ficar sob os cuidados de Robin. Nesse momento, Bernard sem saber a real identidade de Robin, externa que gostaria de terminar o date com Tim. Ao fim da história, Tim se desloca até a casa do amigo e aceita de forma amorosa o convite.

A roteirista Meghan Fitzmartin e a ilustradora da edição, Belén Ortega, tiveram uma preocupação de como essa “saída do armário” poderia ser de forma natural, fugir de estereótipos sexuais e que poderia fazer sentido para a história do próprio Tim Drake. Envolveu muito estudo e sensibilidade Fitzmartin e Ortega, o que pode ser considerada uma nova fase mais coerente da DC com esse tipo de representação, ainda mais após o cancelamento do matrimônio entre Kate Kane e a capitã Maggie Swayer da edição Batwoman #18, a decisão da editora levou ao pedido de demissão de toda a equipe envolvida. Tal atitude “repentina” da editora pode ser observada sob a perspectiva foucaultiana que determina a noção do sexual como “donos do saber sexo”, ou seja, estruturas como a economia, igreja e ciência determinam e validam tudo que permanece atrelado a visão binária da heterossexualidade, principalmente branca e dominante.

Essa escolha da DC em não publicar um casamento homoafetivo encaixa-se no que Foucault determina como um dos dispositivos apresentados no Microfísica do Poder, o do “não dito”. Esse “não dito” também estabelece vestígios subjacentes às práticas sociais, apadrinhando ideias, conceitos, discursos de verdade e normas que determinam o “certo” e o “errado”. Esse silêncio também determina o que será expresso posteriormente e o mais importante, como será dito.

Foucault também define que para que haja uma quebra desse paradigma que inclui forças dominantes socialmente é importante que se estabeleça uma espécie de confissão. Ou seja, um diálogo entre o sujeito que disserta e o que absorve a informação. Trazendo esse conhecimento para a história de Tim Drake, é de extremo valor a menção de certas palavras como “encontro”, que remetem a uma relação romântica entre Tim e Bernard. O fato da aceitação da representação e da reação positiva de Drake, designa o que Foucault aponta como “ritual discursivo”, que envolve uma certa relação de poder entre aquele que “confessa” e aquele que “absorve”. Ou seja, no instante que ficam claras as intenções dos personagens para o leitor, o mesmo é colocado na posição de “ouvinte de uma confissão”, o que para Foucault é classificado como a quebra de uma das forças dominantes imaginárias do discurso.

Nesse momento, a bissexualidade de Tim Drake torna-se uma matéria privilegiada da confissão a colocando no lugar de “natureza”, ou seja, algo que se qualifica como natural. Afinal, o sexo e a sexualidade garantem seu status binário heteronormativo no sigilo, sendo alimentado pela culpa e pelo medo.

Para tanto, Batman: Urban Legends #6 acaba se encaixando no roll de narrativas históricas do universo ficcional do Homem Morcego, contudo, não pelo fato de Tim ter apresentado ao leitor a sua sexualidade, mas sim como isso foi dito e será trabalhado posteriormente. Talvez Drake possa melhorar até sua atuação como Robin no decorrer da sua descoberta como minoria e no enfrentamento de situações bifóbicas. Além disso, a definição da DC de colocar um homem bissexual também vai longe da curva do que a editora costuma fazer. Ainda mais com a maioria das representações que a Batwoman teve (como se realmente fosse só um Batman com ppk), ou as formas sexualizadas da Arlequina com a Hera Venenosa (coisas para a apreciação do olhar masculino com fetiche em sexo lésbico).

Tomara que Drake seja só o começo para histórias com mais profundidade sobre questões das sexualidades humanas, e, quem sabe, sobre outros discursos sociais importantes para a composição comunitária. Aspectos que tem faltado e muito das narrativas DCnáutas.

1 Na teoria feminista, o olhar masculino é o ato de representar as mulheres e o mundo, nas artes visuais e na literatura, a partir de uma perspectiva masculina heterossexual que apresenta e representa as mulheres como objetos sexuais para o prazer do observador heterossexual masculino.

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Foi colaboradora do site Minas Nerds e atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos. Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

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