Sanka

por Antonio Souza*

Tudo é destruição, tudo é solidão, tudo não passa de um arremedo de vida. Mas o que importa? Apenas os deuses, apenas eles podem dizer que vivem. O deus Sanka, destruidor de vários mundos, chegou-se à janela de seu palácio e percebeu que a destruição que causara não traria nenhum benefício ao seu vetusto nome e se perguntou como poderia, para sua glória, fazer uma reparação. Pensou por vários anos, chegando à conclusão de que a melhor maneira seria dar às viúvas dos guerreiros mortos em batalha uma flor do jardim de seu palácio, pois é sabido que as flores desse jardim podem trazer os amantes e os amados do mundo dos mortos. Antes, teve um último cuidado, para não irritar a deusa da morte, ordenou que os guerreiros poderiam ficar apenas uma noite por ano. Assim foi feito, os mensageiros colheram as flores e as levaram para o mundo.

Lênio gastou sua única noite olhando as estrelas e depois voltou à janela e chorou ao pensar que ao morrer a esposa, ele não poderia mais retornar para os viventes e olhar as estrelas e sentir o vento no rosto, como se sabe, são essas as coisas que mais fazem falta aos mortos. Ele amaldiçoou o nome do deus, pois aquilo era uma punição e não uma dádiva e ele desejou que Sanka não destilasse a sua crueldade se autoproclamando generoso. Lênio soube que teria que morrer a cada ano temendo que a esposa não mais o desejasse. Lênio chorou por suas imensas perdas.

O deus Sanka ouviu as blasfêmias proferidas e se regozijou. Não o puniria, deixaria as coisas como estavam. Percebeu que através de sua generosidade poderia ter um duplo prazer: o seu nome seria louvado em vários mundos e ao mesmo tempo os seus inimigos esperariam pelo dia da liberdade, respirariam por algumas horas; e os deus se deliciaria com as lágrimas das muitas despedidas das muitas esposas e filhas queridas dos muitos inimigos. Ele poderia saciar os seu duplo impulso. Pensando assim o deus se regozijou pela segunda vez.

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*Antonio Souza da Cruz é de Surubim, uma cidadezinha do agreste pernambucano, nascido em 1971, muda-se com a família para a periferia de São Paulo em 79. Atualmente trabalha nos Correios. Possui um livro publicado pela editora Patuá, em 2015, O Deus dos Famintos. Sobre seus poemas pode-se dizer que são marcados por duas paisagens principais: o sertão pernambucano e a periferia paulista.

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