Coringa: da insanidade ao poder disciplinar foucaultiano

por Laluña Machado*

Considerado o maior vilão de todos os tempos da cultura pop, quiçá da cultura de modo geral, surgindo um ano após a criação do Homem-Morcego em Batman #1 (1940), o Coringa teve sua composição inspirada no clássico  L’Homme qui rit (O Homem que Ri) de Vitor Hugo, que ganhou uma produção cinematográfica de mesmo nome em 1928, tornando-se um dos maiores símbolos do Expressionismo Alemão. A película também alcançou o posto de uma das maiores referências para a história do cinema mundial, principalmente pela singular atuação de Conrad Veidt, tanto que várias características icônicas foram utilizadas por Jerry Ronbinson e Bill Finger para dar vida ao principal vilão de Gotham City. 

Muitas dessas idiossincrasias permanecem praticamente imutáveis como o cabelo verde, a maquiagem branca na face e os lábios vermelhos, sem contar as risadas sádicas e irônicas. Apesar de ter se tornado um ladrão parvo durante os primeiros anos da segunda metade do século XX, o nêmesis alcançou o status de maior psicopata das histórias em quadrinhos no fim da década de 1970, consolidando/acumulando patologias psíquicas durante os anos 80. Fatos como o assassinato de Jason Todd (o segundo Robin), tentativa de homicídio e estupro de Bárbara Gordon, remoção do próprio rosto e eliminar uma plateia inteira em um programa de TV fazem do Coringa, nos últimos 40 anos, um dos personagens mais lancinantes, terrivelmente admirado por muitos. Uma dicotomia perfeita para uma narrativa num universo ficcional que tenha do outro lado um elemento como o Batman. 

Uma batalha entre duas personalidades que já resultou em inúmeras tragédias para os gothamitas, que acabam sendo reféns de uma quimera que inclui duas pessoas com notáveis problemas sociais e psicológicos, mesmo que isso seja de forma distinta, ambos deveriam ter o mesmo epílogo, a punição. Porém, considerando todo o aparato psicótico do Príncipe do Crime, essa punição deveria também ser de ressocialização do sujeito, mas isso ocorre da pior forma, como suas internações no Asilo Arkham, que teve sua representação mais famosa produzida por Grant Morrison e Dave McKean em 1989, Asilo Arkham Uma Casa Séria em um Sério Mundo

O hospital psiquiátrico de Gotham surgiu em outubro de 1974 em Batman #258 pelas mãos de Irv Novick e escrita por Dennis O’Neil. O nome foi inspirado na cidade fictícia Arkham, que tem aparições frequentes nos contos de terror de H.P Lovecraft. Nessa primeira história, que ainda não deixa claro as reais finalidades do Hospital Arkham (sim, ainda não era Asilo), são apresentados os dois primeiros internos, o Coringa e o Duas- Caras. 

Nesse ponto, o Asilo Arkham começa a exercer uma função panóptica a fim de cumprir uma vigilância e um adestramento levando a obediência e a disciplina desses indivíduos. Expandindo assim, reflexões estruturais sobre o Poder Disciplinar, que para Michel Foucault (1926-1984) é um processo que tem início com o desaparecimento dos suplícios, ou seja, quando a sociedade já não usa mais o espetáculo da execução pública como instrumento disciplinar caracterizado como Poder de Soberania e passa para o que é considerado como “punição velada” dotada de braços que trabalham de forma “corporativa” para a manutenção/disciplina desse corpo em um determinado espaço.

O Coringa é colocado no Arkham por várias e várias vezes com apenas uma finalidade, tornar o seu corpo dócil. Mas por que isso é necessário? Segundo Foucault em Vigiar e Punir, o Poder Disciplinar tem seu caráter à produção de indivíduos submissos, completamente determinados aos sistemas (principalmente ao Estado) e que possam oferecer uma mão de obra qualificada para o desenvolvimento econômico e social. Considerando que o Coringa não compartilha absolutamente nada dos fatores que compõem a preservação do sistema, pelo contrário, é um agente do caos e da barbaridade, é natural que o Estado queira contornar essa situação para manter suas instituições intactas. Lembrando que essa narrativa também já fez parte do universo do Cruzado Encapuzado na minissérie Batman Cavaleiro Branco, que traz um Coringa quase que completamente recuperado e agindo como operador do sistema.

O Poder Disciplinar também dispõe de estruturas físicas para legitimar sua presença, pontos como privação da liberdade e controle do tempo também são ferramentas para uma punição sem o recurso da violência para o corpo e isso é exercido claramente entre as paredes do Arkham, porém a questão da ausência de violência não é respeitada em vários episódios, o que não leva a um resultado efetivo de submissão do sujeito. Por isso, não é de se estranhar que haja tantas fugas, rebeliões e nenhuma recuperação dos pacientes no Asilo Arkham, pelo contrário, até os próprios médicos se colocam no estado de insubordinação às instituições como a psiquiatra Harleen Quinzel e o Dr. Hugo Strange, que voltarão a essa mesma estrutura não mais como executores do Poder Disciplinar, mas como corpos que precisam ser disciplinados. Se estabelecem novas práticas de relações de poder, a partir do momento em que os médicos ingressam do Arkham como pacientes, seus corpos tornam-se objetos, são alvos de execução dessa autoridade. 

Mas engana-se quem acredita que tal ordem só faz sentido quando se é exposto com exemplos ficcionais, olhe bem a sua volta e perceba que você está sendo vigiado e punido. Veja que o poder implicado a você (até de forma sutil) e que o controle do tempo interfere até nas suas necessidades biológicas. Observe que uma vez adestrado, você está sendo útil para a manutenção da disciplina. Isso não quer dizer que você deva se tornar um genocida para não deixar o Poder Disciplinar gerenciar a sua existência, ainda mais, que já é impossível não se submeter a ele é qualquer esfera social. Isso quer dizer que você deve refletir sobre tudo, até mesmo sobre o seu gibi do Batman. 

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*Laluña Machado é graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB no qual também foi coordenadora entre os anos de 2014 e 2018. Do mesmo modo, exerceu a função de colaboradora no Lehc (Laboratório de Estudos em História Cultural – UESB) e Labtece (Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade – UESB). Atualmente é membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP, colaboradora na Gibiteca de Santos e do site Minas Nerds.Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd. Contato: lalunagusmao@hotmail.com

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