Quando a heroína continua presa ao molde do herói: diversidade sáfica ou reciclagem narrativa?

Laluña Machado*

Nas últimas décadas, a cultura pop ampliou de forma significativa a presença de personagens LGBTQIAPN+ em filmes, séries e quadrinhos. À primeira vista, isso parece uma conquista inegável. Durante muito tempo, pessoas LGBTQIAPN+ foram invisibilizadas, estereotipadas ou confinadas a papéis secundários. Hoje, protagonistas lésbicas, bissexuais, trans e queer ocupam espaços centrais em diversas narrativas. No entanto, uma questão se torna cada vez mais difícil de ignorar: o que acontece quando a identidade do personagem muda, mas a estrutura que o sustenta permanece intacta? O que acontece quando uma heroína continua presa ao molde do herói?

Antes de avançar, vale esclarecer uma distinção nem sempre observada. “Lésbica” e “sáfica”, embora frequentemente tratados como sinônimos, não têm o mesmo significado. Lésbica é a mulher que sente atração afetiva e/ou sexual por outras mulheres. Sáfico, derivado de Safo, é um termo mais abrangente, que se refere às experiências afetivas e amorosas entre mulheres de maneira geral — e pode incluir lésbicas, bissexuais e pansexuais. Essa distinção importa porque a discussão aqui não se limita a uma identidade específica, mas à forma como a ficção imagina mulheres que amam mulheres.

O problema da representação contemporânea não está apenas na quantidade de personagens LGBTQIAPN+ (mesmo que isso ainda seja uma lacuna), mas na maneira como elas são construídas. Grande parte das análises sobre diversidade concentra-se na aparência: o cabelo é curto ou comprido, a roupa é considerada feminina ou masculina, a personagem performa feminilidade ou masculinidade. Essas questões têm sua relevância, mas frequentemente encobrem perguntas muito mais profundas. Quem é essa personagem para além de sua aparência? Como ela se relaciona com o mundo? Como ela ama, constrói vínculos, exerce poder e lida com suas vulnerabilidades?

Minha inquietação surge exatamente porque, com frequência, as respostas para essas perguntas vêm de um lugar bastante familiar. Em vez de criar novas possibilidades de subjetividade, muitos roteiros simplesmente transplantam para personagens LGBTQIAPN+ os mesmos modelos narrativos que durante décadas sustentaram protagonistas masculinos heterossexuais.

Um exemplo recorrente é o de Kate Kane nas primeiras temporadas de Batwoman. O problema não está em sua expressão de gênero mais “masculina”. Afinal, mulheres lésbicas masculinas, andróginas ou que rejeitam padrões convencionais de feminilidade existem, e todas essas experiências merecem representação. Reduzir a crítica à aparência seria, portanto, um equívoco.

O que chama atenção é outra coisa. Em muitos momentos, Kate Kane não parece uma personagem cuja subjetividade foi construída a partir de suas próprias experiências. Ela parece herdar quase integralmente o repertório emocional e comportamental associado ao Batman: a dificuldade de demonstrar afeto, a necessidade constante de controle, o isolamento, a incapacidade de confiar, a tendência de decidir unilateralmente o que é melhor para todos ao redor. Não se trata apenas de uma heroína que ocupa o lugar do herói, trata-se de uma personagem que reproduz o mesmo modelo de heroísmo.

Esse fenômeno está longe de ser exclusivo à Batwoman. Ele reaparece em diversas produções: a personagem LGBTQIAPN+ é apresentada como inovadora porque sua identidade representa uma ruptura com a norma heterossexual, mas sua personalidade continua organizada pelos mesmos referenciais de sempre. O resultado é uma diversidade que opera predominantemente na superfície.

Essa limitação se evidencia sobretudo nas relações afetivas retratadas. Em vários casos, personagens sáficas se relacionam com outras mulheres reproduzindo dinâmicas de poder que evocam modelos heteronormativos bastante conhecidos. A parceira é tratada como alguém que precisa ser protegida, guiada, corrigida ou controlada. A comunicação cede lugar à imposição. O diálogo é substituído pela certeza de que uma das partes sabe o que é melhor para a outra. O afeto aparece subordinado ao controle.

A impressão, em certos momentos, é que a personagem sáfica não foi construída a partir da observação de mulheres reais, mas a partir da adaptação de arquétipos masculinos já consolidados, como se a única forma possível de representar força fosse reproduzir comportamentos associados a uma masculinidade problemática. Como se independência significasse incapacidade de vulnerabilidade. Como se liderança fosse sinônimo de controle. Como se amar alguém implicasse assumir uma posição de autoridade sobre essa pessoa, e isso é tão tóxico.

É importante deixar claro que essa crítica não parte de nenhuma idealização. Mulheres que amam mulheres não são naturalmente mais empáticas, éticas ou emocionalmente maduras do que qualquer outra pessoa. Elas podem ser generosas ou egoístas, afetuosas ou distantes, acolhedoras ou abusivas. A questão não é moral, é narrativa. Que muitas ficam entre a linha da preguiça e da desonestidade.

Quando a ficção oferece sempre os mesmos referenciais, a diversidade de experiências existentes entre mulheres sáficas desaparece para dar lugar a um conjunto restrito de arquétipos. A única mulher lésbica considerada forte é aquela que replica os comportamentos do herói masculino tradicional (é incrível a necessidade do homem cis, hétero e branco em se ver em absolutamente todos os lugares. Lacan ajuda tanto na compreensão disso). A única forma de demonstrar poder é repetir modelos que a própria cultura contemporânea passou décadas questionando.

Talvez o maior desafio da representação não seja simplesmente colocar personagens LGBTQIAPN+ no centro das histórias, mas permitir que essas personagens existam a partir de suas próprias experiências, sensibilidades e formas de compreender o mundo. Isso exige mais do que trocar a identidade de um personagem, exige ampliar a imaginação narrativa.

Representação não responde apenas à pergunta “quem está na história?”. Ela também precisa responder “como essa pessoa foi imaginada?”. Uma personagem pode ser lésbica, bissexual ou sáfica e ainda assim permanecer aprisionada em estruturas emocionais e afetivas herdadas de modelos que nunca foram pensados para ela. Quando isso acontece, a inclusão existe, mas a transformação não.

A discussão sobre diversidade na cultura pop precisa avançar para além da presença. Presença é necessária, e continua sendo. Mas não pode ser o ponto final. O objetivo não deveria ser apenas multiplicar personagens LGBTQIAPN+, mas ampliar as possibilidades de existência que essas personagens representam. A verdadeira diversidade não acontece quando mudamos quem ocupa o papel principal. Ela acontece quando somos capazes de imaginar novas formas de ser, de amar, de sentir e de viver. E é justamente aí que muitas heroínas ainda permanecem presas ao molde do herói.

*Laluña Machado é Palestrante, Professora e Escritora. Graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB e Pós Graduada em Ensino de História – Uniamérica. Jurada Técnica do CCXP AWARDS e do Prêmio Mapinguari de Quadrinhos, curadora do Santos Criativa Festival Geek, vencedora do Troféu HQMIX nas categorias Melhor Livro Teórico e Melhor Mix com a produção Mulheres & Quadrinhos e com História dos Quadrinhos EUA na categoria Melhor Livro Teórico. Também conta com indicação no troféu Angelo Agostini como Melhor Publicação com o Mulheres & Quadrinhos. Além de ser a maior especialista tórica em Batman do Brasil. Foi uma das fundadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas “HQuê?” – UESB. Além disso, é Mediadora Cultural na Gibiteca de Santos e conteudista no site FacadaX. Também é pesquisadora Teórica de Histórias em Quadrinhos, apontando direcionamentos que envolvem contexto histórico, sociologia e filosofia para uma leitura mais crítica da nona arte.
Sua pesquisa acadêmica tem como foco a primeira produção do Batman para o cinema na cinessérie de 1943, considerando as representações da Segunda Guerra Mundial no discurso e na caracterização simbólica do Homem Morcego. Paralelamente, também pesquisa tudo que possa determinar a formação do personagem em diversas mídias, assim como, sua história e a importância do mesmo para os adventos da cultura nerd.

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