Sirlene Barbosa, a primeira indicada ao Jabuti de HQ por Carolina

por Roberta AR 

O primeiro quadrinho da novela gráfica Carolina foi de um impacto imenso para mim. Lembrei imediatamente da chácara que ficava no fim da minha rua, em Parelheiros, que tinha aquela senhora gentil que fazia biscoitos para mim. Eu era muito pequena, possivelmente no mesmo ano que aparece registrado ali. Teria eu conhecido a Carolina?

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Primeiro quadrinho da novela gráfica Carolina

 

A história de Carolina Maria de Jesus, escritora do livro mais vendido em 1960 no Brasil e que foi publicado em dezenas de países, é que faz o roteiro desse quadrinho comovente de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Ela era conhecida como a escritora catadora de papel, que era a forma da elite cultural colocar seu trabalho em uma caixinha de menor valor na produção literária, mas seu trabalho era visceral, um olhar apurado da sordidez e das pequenas felicidades que se alternam na vida dos que estão na extrema pobreza.

Sirlene Barbosa reuniu um grande material de pesquisa sobre vida e obra de Carolina de Jesus, que receberam um roteiro lindamente desenhado por João Pinheiro. Não por acaso, o livro acaba de ser indicado ao Prêmio Jabuti na primeira edição em que se terá uma premiação específica para quadrinhos. Sirlene Barbosa é a primeira autora indicada na categoria, a única mulher nesta edição. Conversamos um pouco com ela sobre esse belo trabalho:

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Sirlene Barbosa

O que levou a escolha de Carolina Maria de Jesus como tema para este quadrinho?

Antes das respostas, quero deixar registrado meus agradecimentos pelo contato.

Bem, estou professora de língua portuguesa da Prefeitura de São Paulo. Por alguns anos, coordenei uma sala de leitura (projeto da Secretaria Municipal de Educação [SME] que, este ano, completa 45 anos e, por conta desse fato, haverá um Seminário para comemorar e refletir sobre este espaço. Eu fui convidada a participar de uma mesa para representar o corpo docente, no papel de escritora) e, principalmente no ano de 2014 (gestão Haddad), a SME tinha um núcleo para propor trabalhos referentes às questões étnico-raciais. Alguns dos membros da equipe fizeram algumas palestras sobre literatura negra, fazendo jus à lei 10.639/2003, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996), colocando como pauta obrigatória os estudos da literatura, história e cultura negras em todos os ambientes educacionais.

Carolina Maria de Jesus já era uma companheira de aulas, há alguns anos, mas ouvir pessoas falando de nomes que não aparecem como referências do cânone (Carolina, por exemplo), que deixam de ser objeto de estudo em livros e passam a ser protagonistas de suas obras me deslumbrou e me fez olhar, com outros olhos, o acervo da sala de leitura que coordenava – observei que diante de uma média de 30.000 livros, havia apenas uma prateleira de livros (algo em torno de 50) que estavam relacionados à literatura negra.

Em 2014, foi comemorado o centenário de Carolina Maria de Jesus e eu recebi, no início do ano, alguns livros para complementar o acervo da sala. Analisei a discrepância de duas caixas com livros de Ferreira Gullar, somando 40 volumes, e dois, sim, apenas dois Quarto de despejo: diário de uma favelada (o grande best-seller de Carolina).

Essas discrepâncias me levaram a refletir sobre a questão do currículo escolar: por que se lê, com muita frequência, pra não dizer sempre, o cânone literário, representado, em grande maioria, por homens e brancas e brancos e ignoram o que os excluídos desta mesma literatura têm a dizer?

Assim, propus uma enquete rápida com os professores orientadores de sala de leitura da Diretoria Regional Educação de Itaquera, onde constatei que de uma média de 40 docentes, apenas cinco conheciam Carolina e NENHUM/A havia lido sua obra em sala de aula.

Esses pontos me obrigaram a apresentar a vida e a importância de Carolina; o gênero textual que acreditei ser mais didático e interessante, principalmente, para as/os estudantes, foi a História em Quadrinhos (HQ). Como meu companheiro é quadrinista (João Pinheiro), resolvemos concretizar o trabalho. Faltava, no entanto, condições financeiras para se dedicar com exclusividade à empreitada. No final de 2014, fomos um dos ganhadores do prêmio ProAC, do governo do Estado de São Paulo, possibilitando, então, concretizar o livro.

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Trecho de Carolina

Mesmo depois de tanto tempo, ainda temos grandes figuras do meio literário tentando diminuir a importância da Carolina de Jesus para a literatura, como no episódio em que ela foi homenageada pela Academia de Letras do Rio. Literatura ainda é uma arte elitista?

Acredito que sim, mas, também, que representantes das literaturas periférica, negra e indígena estão abrindo estas portas, mesmo que a “pontapés”.

Um exemplo importante: em 2014, apareceu um projeto na SME chamado de Leituraço, em que se propunha a leitura de livros que tentavam validar as leis 10.639/2003 e 11.645/2008 (propõe os estudos da história, arte e literatura indígenas). Todas as salas de leitura do município paulista receberam livros com estas temáticas, além de literaturas que abordam a vida na periferia, bem como da América Latina e de alguns países do continente africano – projeto belíssimo, por sinal, muito bem executado, pelo menos, até o final de 2016.

Dessa forma, foi possível apresentar aXs estudantes outras/os autoras/es, narrativas, protagonistas – foi uma tentativa de descolonizar o currículo da rede municipal paulista. Currículo que aborda com muita ênfase nomes e fatos do continente europeu e menospreza nossa realidade. Dizendo isso não significa que se deixará de ensinar o que a Europa e/ou os EUA têm de importante, no contexto histórico mundial e nas suas literaturas etc. Não! Descolonizar para ensinar que não existe apenas a estética europeia como padrão de beleza, nem seus ambientes gelados como cenários da narrativa, mas dizer que negras/os (por conta de um recorte de pesquisa, pois não podemos nos esquecer da importância dos primeiros moradores do que, hoje, chamamos Brasil – OS INDÍGENAS – e que tiveram suas terras INVADIDAS e não ocupadas, foram assassinados,

estupradas/os, enfim, destroçadas/os) também podem ser princesas, que não foram/são preguiçosos, que foram/são protagonistas de suas próprias narrativas, inventores importantes, por fim, mas não somente, SÃO ESCRITORAS/ES – sim, a literatura também é nossa!

Quarto de Despejo vendeu mais que Jorge Amado e Clarice Lispector no ano de seu lançamento e fala da realidade dos excluídos, um tema que tem paralelo em autores como Graciliano Ramos. O que teria levado seu trabalho a não estar presente nos currículos escolares e só recentemente foi pedido em algumas provas de vestibular e virou tema de Enem?

A tentativa de esconder a grandiosidade de negras/os, de mantê-las/os no poço literário.

Você é a primeira mulher indicada ao prêmio de quadrinhos do Jabuti, e única. O espaço das publicações sempre foi um território difícil. Qual o paralelo que você faria entre o cenário vivido por Carolina de Jesus e o que vivemos hoje?

O paralelo que faço é que ainda há muito a caminhar, pois não posso ignorar o fato de que sou a única mulher e NEGRA a ser indicada, mas tenho um homem do meu lado.

Carolina tentava publicar já há alguns anos, bem antes da chegada do jornalista do que hoje conhecemos como Folha de S.Paulo, Audálio Dantas, em maio de 1958, mas só o fez, em 1960, tendo homens como seus editores.

Finalizo afirmando que há muito a se fazer, principalmente para nós mulheres, negras, indígenas, brancas, trans e periféricas, e que, é de suma importância, estarmos na ponta para abrirmos as portas para outras irmãs e isso não significa dizer que pretendemos derrubar os homens, mas que a luta não termina enquanto os direitos por igualdade, em todos os âmbitos, não forem alcançados por nós, mulheres.

É isso e tudo isso!

Um grande abraço a todas as manas e aos manos!

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Capa do quadrinho Carolina

Carolina

Sirlene Barbosa e João Pinheiro

Editora Veneta

Número de páginas: 124

Formato: 17x24cm

R$ 54,90

 

Entrevista publicada originalmente no site MinasNerds em outubro de 2017

Facada 76 – Abalone (Boardgames)

Pensa um joguinho estratégico. Nesta edição explicamos um pouco o conceito de jogo abstrato enquanto apresentamos o Abalone! A ideia é empurrar as bolinhas do adversário para fora do tabuleiro. E isso não é tão fácil quanto parece!

Facada 75 – BENDITA CURA – RESENHA (HQ)

Ainda na sombra do Dia Internacional de Combate à LGBTQIA+fobia, o Facada traz uma resenha da contundente – e necessária – HQ de Mário César: Bendita Cura.

Alma não tem cor: uma falsa medida do homem

por Carla Lisboa*

Passadas as “comemorações” sobre o dia em que foi assinada a Lei Áurea, que extingue a escravidão no país (mas não a mentalidade escravista), tudo volta ao “normal”: violência e/ou discriminação racial, racismo, silenciamento, necropolítica… você escolhe, o repertório é vasto. Tudo acaba em extermínio, em invisibilidade social, em uma memória apagada, numa denúncia deslegitimada.

Tá, mas… E daí?

O historiador francês Pierre Norah, propôs um debate importante sobre memória, por ocasião do bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, mas também sobre o papel dos arquivos, datas comemorativas, monumentos e do patrimônio do país. O que deve ser preservado, ou esquecido? De qual passado falamos? Quais memórias são dignas de serem levadas adiante? Entre outras questões (e incômodos) levantados por Norah, está a memória como espaço de DISPUTA.

Tá, mas… E daí?

Daí que os debates sobre a desigualdade e a discriminação racial têm data certa no calendário, como se só morressem pretas e pretos no 13 de maio ou no 20 de novembro… É como se afrodescendentes só existissem a partir da perspectiva da miséria, da exclusão social e da violência, e essas duas datas servissem para um mea culpa, mea maxima culpa, mas que, na prática, não muda nada. Mas enfim, Pierre Norah está aí para explicar sobre esse processo de apagamento de memória e como ele acontece. E, apesar de me basear nas reflexões de um historiador europeu e branco, ele ajuda a organizar minhas reflexões sobre o assunto. Em tempo: Isso não quer dizer que não haja outros intelectuais falando sobre isso, mas que é uma escolha minha para falar sobre o tema partir das datas comemorativas, criadas por brancos. É uma discussão longa, válida, necessária, mas que pretendo fazer em outro momento, abordando especificamente intelectuais negros.

Todo lugar de memória é, antes de tudo, um espaço de disputa, não de concessão. Assim como a Lei Áurea não foi uma concessão, mas resultado de uma série de disputas em diversos níveis, seja no aspecto político, econômico e, claro, o social. Para que um grupo social seja lembrado é preciso silenciar o outro, ou “conceder” uma data, monumento, homenagem, para compensar esse silenciamento. Explico: não é uma data para reconhecimento das lutas por liberdade e reconhecimento da humanidade de milhões de pessoas escravizadas, muito menos de seus descendentes. Deveria ser, mas não é. Se houvesse, realmente, uma vontade de reconhecer historicamente a miséria vivida cotidianamente por essas pessoas, hoje, não seria necessário criar essas datas “de reflexão”. Sabe por quê? É simples: porque essas pessoas teriam sido integradas à sociedade depois do glorioso 13 de maio de 1888. Mas quem quer reconhecer que pisou na bola e construiu seu patrimônio financeiro à custa da exploração do trabalho alheio, não é mesmo?

Sem políticas de inserção social, sem acesso à escola e ao aprendizado de outros ofícios (além daqueles que exerceram enquanto escravizados), sem moradia, não haveria muitas alternativas além do alcoolismo, da mendicância, da fome e do subemprego. E nem venha me dizer que alguns conseguiram subir na vida, porque essa exceção só confirma a regra miserável que permanece ainda hoje. E digo mais: estes poucos que “subiram na vida” ou que não são miseráveis, só conseguiram graças ao ocultamento de sua identidade e ancestralidade africana. Só conseguiram o passaporte do sucesso porque se submeteram a uma série de códigos (brancos) de aceitação: modo de vestir, de falar, de se comportar, enfim, se embranquecer como é possível. Uma violência tamanha, que nenhum branco é capaz de imaginar, muito menos de sentir.

Mas, antes que eu me perca, quero evidenciar alguns pontos “nebulosos” sobre o racismo nosso de cada dia. Porque, sim, apesar de não ser branca, eu também cometo erros e tento aprender com eles. É uma luta desgastante, injusta e cheia de armadilhas e devemos estar preparados para elas. É preciso estar atento e forte, já alertava Gal, sob os ventos tropicalistas. E o mundo está cheio de armadilhas, acredite. A primeira delas, quiçá a mais frequente e que me deixa profundamente irritada (e até já adoeci por isso) é o famigerado “Somos todos iguais”. Iguais!? ONDE, alguém me explica?

Agora, neste exato momento de isolamento social, nem todos têm o privilégio de ter uma casa para se isolar, tampouco uma torneira para lavar as mãos. Não deveria ser assim, óbvio que não. Ter empatia e compaixão são indicadores da nobreza das pessoas, mas se esses sentimentos não levam a uma ação efetiva, de pouca valia será a indignação com o racismo. Nossa humanidade nos faz iguais em generosidade, respeito e, até mesmo, na fragilidade com relação às doenças, a solidão e a morte, mas como acreditar nisso com tanta gente dizimada, deslegitimada, desacreditada, calada, presa sem saber por quê? Como acreditar nisso se, quando estamos dizendo que não somos socialmente iguais, embora devêssemos ser, insistem na ideia de vitimismo? Quando vão entender que existe uma história do CONTINENTE AFRICANO anterior à escravidão e que a diáspora negra para o Brasil foi e é cruel porque tira, HOJE, direitos constitucionais dos descendentes de escravizados, porque não têm acesso a eles, como quaisquer outros cidadãos? Como essas pessoas vão ter uma formação e conseguir “ser alguém na vida”, se não conseguem se manter frequentando a escola? Como essas crianças e adolescentes vão se sentir acolhidos e aceitos com TODAS as limitações, traumas e violências sofridas dentro e fora de casa (quando há uma), quando tudo que recebem é julgamento? Se ouvem, desde a mais tenra idade, que são caso perdido, preguiçosos, acomodados, vagabundos?

Somos todos iguais, mesmo? Iguais a quem?

E seu eu te disser que, essa frase contém uma crueldade imensa?

Não somos iguais fisicamente, embora milhares de pessoas maltratem os cabelos para que pareçam lisos; não somos iguais espiritualmente porque muitos de nós têm um sistema de crenças diferente do cristianismo e que cotidianamente é vilipendiado, desprezado, dilapidado e destruído em nome de um Deus (branco) e salvador; não somos iguais filosoficamente porque pensamos o mundo diferentemente, com ênfase no coletivo e em respeito à ancestralidade; Não somos iguais porque ubuntu é muito mais sofisticado, complexo e profundo do que um sistema operacional de computador. Vou ficar por aqui, porque tenho exemplos e cansaço demais para esse espaço.

Numa sociedade extremamente violenta como a brasileira, é curioso observar esse fenômeno: a (falsa) crença de que somos iguais e suas variantes, tais como raça humana, não vejo cor, preto de alma branca, branco de alma negra, ou outra mais espiritual: alma não tem cor. Esta última soa mais cínica aos meus ouvidos. Considerando que há pouco menos de 150 anos, negros não tinham alma, tampouco eram considerados gente, a menos que fossem batizados com um nome cristão, obviamente… isso dói ouvir, sabe? Há quem argumente que se deva superar esse triste passado e buscar uma unidade espiritual, uma unidade branca e cristã, que fique bem entendido.

Então, eu te pergunto: por que deveríamos ser iguais, pasteurizados como um enorme pote de iogurte? Por que AINDA não somos aceitos por ser quem somos, como somos e queremos ser e ainda não podemos ser em plenitude e com dignidade?

Porque existe uma maioria que não quer assumir que tem privilégios. Sim, ser branco no Brasil é privilégio, não porque eu quero, mas porque vivemos num mundo em que aparência é importante. Veja, o código de “normalidade” é ocidental e branco. Não se trata de culpa, mas de responsabilidade social. Dizem que os negros e afrodescendentes não têm educação, são agressivos, irascíveis, histéricos, encrenqueiros, indisciplinados, se vitimizam… Você branco, cristão etc., já questionou sobre o porquê desse comportamento? Se não, deveria. Não estou falando em caridade, mas em fazer autocrítica para ser capaz de aceitar valores, estéticas e formas de expressão artística e religiosa diferentes das suas, para que outras pessoas tenham acesso às oportunidades que você tem. Começa por aí… O primeiro passo é reconhecer os privilégios.

Dói, né? Imagina quando negam o direto de se manifestar sobre a discriminação e violência vividas por causa da cor da pele… Quando um afro-brasileiro diz que determinada postura, fala, brincadeira é racista, não é opinião, nem vitimismo. É uma afirmação que é imediatamente deslegitimada com o mais puro achismo. Racismo não é sobre (sua) opinião, é sobre sua postura com quem é diferente de você, mesmo que você não perceba. Quando alguém lhe disser “isto é racismo”, aceite humildemente e se emende.

Outra coisa: quando acreditamos na ideia de “dar voz às minorias”, na verdade, estamos dizendo que essas pessoas não são capazes de falar por elas mesmas de suas mágoas, frustrações e injustiças sofridas. E isso é silenciá-las mais uma vez. Olha aí, Pierre Norah acenando para mostrar o apagamento simbólico e histórico novamente! Não basta homenagear a cultura negra, exaltar sua beleza e sabedoria ancestral é preciso que ela exista e seja respeitada per se, sem ser esvaziada de significados, tampouco tornado produto. Essa luta é multifacetada e cheia de armadilhas, como já disse. É política, econômica, religiosa, social, semântica, mas também está presente no nível dos afetos, nos ritos cheio de significado e riqueza, nas memórias, histórias e seus múltiplos sentidos. É cruel, porque inviabiliza o discurso de quem mostra o racismo que estrutura nossa sociedade e as redes de relações. É tão grave que foi tornada crime, apesar de banal.

É aqui que nosso compromisso como cidadão deve se reafirmar, principalmente em tempos de terras planas, pistolas e “Zumbi dos Palmares dono de escravos” e outros negacionismos perigosos, do passado e do presente. Esse compromisso, nada fácil de ser mantido, pouco tem a ver com conceder algo que já está previsto na Constituição de 1988. Diz mais sobre como, nas diferenças, todos tenham acesso às mesmas oportunidades e direitos que você tem, desde que nasceu, e muitos nem sabem que existe. É sobre respeitar o ser humano, suas diferenças e, acima de tudo, agir com justiça. Só assim, a diversidade de identidades, credos, cores e crenças farão parte de ser brasileiro verdadeiramente.

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* Carla Lisboa é mestre e doutora em História Social pela Unesp/Assis e professora convidada do Centro Universitário Sagrado Coração. Capricorniana, corinthiana (sem muita convicção), de “de esquerda” e voltou a tricotar na quarentena.

O fracasso em meio ao caos

por Roberta AR

Sonhei que estava no cruzamento de uma grande avenida, um lugar que me foi tão familiar por tanto tempo, mas que não vou há anos. Perguntei para quem estava comigo, uma amiga que se distanciou, coisas da vida, se não tinha problema eu dar um pulinho por lá no meio do isolamento. “Está cheia de gente passeando, não tem problema”. Acordei assustada.

Este ar de normalidade no meio do absurdo é algo que sempre me assusta, não é um sentimento novo. As pessoas naturalizam as piores coisas de um jeito quase sereno, digo quase porque esta serenidade é mantida artificialmente com alguma compulsão, remédios controlados ou drogas. Os que não naturalizam, viram esses seres estranhos inadaptados que precisam ser consertados. 

Eu tenho sido essa pessoa quebrada faz uns anos já. Em isolamento, sem conseguir ser funcional nas condições que o mundo quer. Não sou mais produtiva, pois não gero riqueza. Estou aqui dedicada a manter uma criança mentalmente, emocionalmente e fisicamente saudável no meio da violência emocional e patrimonial que vem de todo o lado. E minha energia tem sido toda consumida por isso e pela feridas emocionais de uma vida de abandonos. Esteja materialmente vulnerável e se veja ser tratada como incapaz, com condescendência e até tentarem tirar seu poder familiar. 

É difícil e pesado viver neste mundo. Para todo mundo. Este é um mundo violento e nós, pobres, dividimos entres nós metade da riqueza do planeta, a outra metade está na mão dos 1%. Esse valor deve ter aumentado depois que esta marca foi atingida há quatro anos (pros mais ricos). E são esses 1% que dizem quem vai mandar em cada canto do mundo, ou você acha que foi o porteiro com seu voto que escolheu este presidente?

Acho interessante como se gasta tempo falando mal do pobre de direita e não se fala nunca destes ultra-ricos. Será que é porque as fundações deles dão uns troco para as artes, bancam políticos “de esquerda”? Usam até os mortos desta epidemia para chamar pobres de burros: “a maioria desta cidade votou em…”. Merecemos morrer por isso. Mas falar da fundação lá do cara mais rico do país, que tem aquela fast food das propagandas descoladas, junto com aquele apresentador que quer ser presidente nem pensar. E eles se juntaram para eleger muita gente no parlamento. Normal, né? Dinheiro bem gasto que vai nos beneficiar… Aqui eu acordo assustada, de novo, mas desta vez não estava nem dormindo. 

Precisamos buscar o sucesso. Pensar em sucesso traz o sucesso até você. Mentalize a riqueza, o que você quer ter, onde você quer estar. Mesmo sabendo que tem que dividir metade da riqueza do mundo com quase sete bilhões de pessoas, porque a outra metade tá na mão de umas duas mil. Alguém sugeriu que eu monte meu negócio agora. Acordo já acordada de novo. Mas assustada. “Fulano doou um milhão para pesquisa do corona vírus”. Dinheiro do papel higiênico, né? Cês me poupem. 

Eu vejo muita gente sem conseguir se encaixar neste mundo. Estou assim faz pouco tempo, focando minha energia em sobrevivência primária, mas sinto essa dor de todos como a minha. Pessoas que sentem o peso de ter que levantar de manhã para exercer atividades absolutamente inúteis e dispensáveis no meio de gente abusiva e que se dá um valor maior do que lhe é de direito. Nunca tinha chegado neste estado em que o peso é maior que a minha força, mas sempre tive que lidar com ele. E ainda temos que ouvir que isto é fracasso.

O sucesso do 1% é o total desprezo ao resto do planeta. Estamos neste caos sanitário porque tem gente sugando nossa existência (nossa como parte da natureza, somos todos uma coisa só) e a transformando em moeda corrente. Lidar com o fracasso não pode ser um problema, neste contexto. Somos todos fracassados, nesta perspectiva. O fato de alguém ter um salário um pouco maior não o torna uma pessoa de sucesso, porque o salário pode sumir a qualquer momento. Aquela empresa de sucesso também não sobreviveu agora.

Hoje, me sinto reconectada ao mundo. A minha dor agora tem legitimidade. O absurdo está bem visível, para quem quiser enxergar. Não é uma sensação boa, este pertencimento. Mas me tira do lugar da louca que se nega a cair na real. O que é real?

Ontem, li um artigo, que tava numa fila pra ler faz tempo (você está sendo produtivo na pandemia? eu não). Ele falava de moda, mas veja este trecho: “O tempo urge. Defendo a cura pelo respeito ao coletivo, às pessoas. Acredito que vamos precisar nos preparar para organizar uma nova ordem feita de variações mínimas (…) com respeito irrestrito ao planeta. Será preciso o indivíduo desprender-se das normas antigas e apreciar cada vez mais o coletivo, para aí sim conseguir afirmar um gosto mais pessoal.” (o texto do Jackson Araújo está completo aqui

Ele fala de coletivo, mas não como estes grupos contemporâneos que pretendem ser vanguarda, mas têm essa cara de empreendedorismo meritocrático. Coletivo como estar junto, de verdade. Precisamos nos ver a partir do outro, da troca, não do julgamento. E eu pensei aqui nas tantas vezes que estive com amigues e até em coletivos, mais de um, pessoas incapazes de pensar a troca de potencialidades sem isso virar recurso financeiro. Pessoas que não aceitam que você faça algo que é sua especialidade sem pagar por isso, provavelmente por não querer “ficar devendo”. Ou que acha que qualquer coisa que ela faça tem preço. A impensável, para elas, gratuidade nos gestos. Eu faço parte de um núcleo da Comunidade que Sustenta a Agricultura (saiba mais o que é clicando aqui) e um dos lemas desse grupo é substituição da “cultura do preço pela cultura do apreço”. Agora é tempo de pensarmos estas relações sociais. Isso é muito sério.

Vejo iniciativas como Artistas em Quarentena, da Lila Cruz, que pensa concreto e pontual, neste momento difícil, para citar uma de um grupo com que tenho trabalhado nos últimos anos. Como esta, temos milhares de ações em todo o país, indígenas, periferia, catadores, artesãos, quilombolas, estão todos se articulando para sobreviver apesar de. Mas, mais do que doar, precisamos criar nossas próprias redes de apoio. Material e emocional. Gente com a qual você possa estar nas vacas gordas e vacas magras te olhando do mesmo jeito, com respeito, amor e carinho. Que a gratuidade do gesto seja recíproca. Que o cuidado seja sincero e te deixe tranquila por ter um colo no meio do caos. Precisamos sobreviver para o depois.

Está difícil, mas eu tenho o sonho com um abraço apertado na amiga querida que nunca vi pessoalmente. Tenho a mensagem de quem sempre esteve aqui do meu lado quando eu quebrei de verdade. O carinho de quem me ajuda a descobrir quem eu sou. O amigo que divide minhas iniciativas de conteúdo gratuito “creative commons”. O companheiro que está aqui, mesmo sendo tudo tão difícil. A criança que me ama. Somos coletivo. Comunidade, porque acho mais bonito.