Não as matem

por Lima Barreto* Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher. O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou … Continue lendo Não as matem

Pobres liberais!

por Artur Azevedo* Foi no tempo do Império. O notável político Dr. Francelino Lopes, sendo presidente de uma província cujo nome não mencionarei para não ofender certas suscetibilidades, aliás mal entendidas, resolveu, aquiescendo ao desejo dos chefes mais importantes do partido conservador (era o que estava de cima), fazer uma grande excursão por todo o … Continue lendo Pobres liberais!

Ode ao burguês

por Mário de Andrade* Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,O burguês-burguês!A digestão bem feita de São Paulo!O homem-curva! o homem-nádegas!O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!Eu insulto as aristocracias cautelosas!Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!Que vivem dentro de muros sem pulos;E gemem sangues de alguns milréis fracosPara dizerem … Continue lendo Ode ao burguês

Mãe penitente

por Castro Alves* "Ouve-me, pois!… Eu fui uma perdida;Foi este o meu destino, a minha sorte…Por esse crime é que hoje perco a vida,Mas dele em breve há de salvar-me a morte!"E minh'alma, bem vês, que não se irrita,Antes bendiz estes mandões ferozes.Eu seria talvez por ti maldita,Filho! sem o batismo dos algozes!"Porque eu pequei… … Continue lendo Mãe penitente

A volta

por Lima Barreto* O governo resolveu fornecer passagens, terras, instrumentos aratórios, auxílio por alguns meses às pessoas e famílias que se quiserem instalar em núcleos coloniais nos Estados de Minas e Rio de Janeiro. Os jornais já publicaram fotografias edificantes dos primeiros que foram procurar passagens na chefatura de polícia. É duro entrar naquele lugar. … Continue lendo A volta

Cantai

por Auta de Souza* A Edwiges de Sá Pereira Ó vós, que guardais no seioCom tanto amor e carinho, Com o mesmo doce receioDe um’ave que guarda o ninho:As ilusões mais douradasQue um’alma de moça encerra: -Cantai as crenças nevadasQue divinizam a terra;Cantai a meiga harmoniaDas esperanças em flor,Cantai a vida, a alegria,Na lira santa … Continue lendo Cantai

Os argonautas

por Francisca Júlia da Silva* Mar fora, ei-los que vão, cheios de ardor insano;Os astros e o luar — amigas sentinelas —Lançam bênçãos de cima às largas caravelasQue rasgam fortemente a vastidão do oceano. Ei-los que vão buscar noutras paragens belasInfindos cabedais de algum tesouro arcano…E o vento austral que passa, em cóleras, ufano,Faz palpitar … Continue lendo Os argonautas

A viúva Simões

por Júlia Lopes de Almeida* I Apesar de moça e de rica, a viúva Simões raras vezes saía; dedicava-se absolutamente à sua casa, um bonito chalet em Santa Tereza. Vivia sempre ali; inquirindo, analisando tudo num exame fixo, demorado, paciente, que exasperava os seus cinco criados: a Benedita, cozinheira preta, ex-escrava da família; o Augusto, … Continue lendo A viúva Simões

Uma vida em fuga

por Roberta AR Decidi fugir. Achei mais fácil do que ficar encarando coisas que não vão mudar mesmo. E a fuga acabou virando um estilo de vida, minha marca registrada. No começo, só fugia daquilo que era grande e medonho, hoje, qualquer coisa que doa é motivo. Quando eu era nova e resistente, aguentava ouvir … Continue lendo Uma vida em fuga

A alegria do povo

por Carlos Marighella* Uma grande jogadapela ponta direita,o balão de courocomo que preso no pé.Um drible impossível…Garrincha sai por um lado,e o adversário se estatela no chão.Gargalhada geral,o Maracanã estremece…Lá vai o ponta seguindo,os holofotes varrendo de luz o gramado,o balão branco rolando,seguro nos pés do endiabrado atacante. Voa Garrincha,invade a área contrária,indo até à … Continue lendo A alegria do povo

Consolo Supremo

por Auta de Souza* Os tristes dizem que a vidaÉ feita de dissaboresE a alma verga abatidaAo peso das grandes dores. Não acredito que sejaAssim como dizem, não…Ai daquele que desejaViver sem uma ilusão! Se há noites frias, escuras,Também há noites formosas;Há risos nas amarguras;Entre espinhos nascem rosas. E rosas também cobriramO lenho santo da … Continue lendo Consolo Supremo

Gupeva

por Maria Firmina dos Reis* I Era uma bela tarde: o sol de agosto animador e grato declinava já seus fúlgidos raios; no ocaso ele derramava um derradeiro olhar sobre a terra e sobre o mar que, a essa hora mágica do crepúsculo, estava calmo e bonançoso, como uma criança adormecida nos braços de sua … Continue lendo Gupeva