por Walter Benjamin* Há uma religião a divisar no capitalismo, isto é, o capitalismo serve essencialmente à satisfação das mesmas preocupações, tormentos e inquietudes aos quais outrora davam resposta as chamadas religiões. A prova desta estrutura religiosa do capitalismo, não apenas, como pensa Weber, como formação condicionada pela religião, mas sim como um fenômeno religioso … Continue lendo Capitalismo como religião
Categoria: TEXTO
Carta de um defunto rico
por Lima Barreto* “MEUS CAROS amigos e parentes. Cá estou no carneiro nº 7..., da 3ª quadra, à direita, como vocês devem saber, porque me puseram nele. Este Cemitério de São João Batista da Lagoa não é dos piores. Para os vivos, é grave e solene, com o seu severo fundo de escuro e padrasto … Continue lendo Carta de um defunto rico
Dizes-me: tu és mais alguma cousa
por Alberto Caeiro* Dizes-me: tu és mais alguma cousa Que uma pedra ou uma planta. Dizes-me: sentes, pensas e sabes Que pensas e sentes. Então as pedras escrevem versos? Então as plantas têm idéias sobre o mundo? Sim: há diferença. Mas não é a diferença que encontras; Porque o ter consciência não me obriga a ter … Continue lendo Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Cidadela (trecho)
por Antoine Saint-Exupery* “A justiça, na minha maneira de ver - disse-me meu pai - está em honrar o depositário por causa do depósito. Tanto como honro a mim próprio. Porque reflete a mesma luz. Por muito pouco visível que seja nele. A justiça é considerá-lo como veículo e como caminho. A minha justiça é fazer … Continue lendo Cidadela (trecho)
Natal
por Auta de Souza* Às Moças da Serra É meia noite ... O sino alvissareiro, Lá da igrejinha branca pendurado, Como n’um sonho místico e fagueiro, Vem relembrar o tempo do passado. Ó velho sino, ó bronze abençoado, Na alegria e na mágoa companheiro! Tu me recordas o sorrir primeiro De menino Jesus imaculado. E … Continue lendo Natal
Somos todos
por André Rafaini Lopes “Não ficar de joelhos, que não é racional renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas”. A frase chamou minha atenção na escadaria da escola. Aliás, não tanto a frase, mas o autor dela: Carlos Marighella. Aliás, não tanto … Continue lendo Somos todos
Segura e natural
por Roberta AR “Ela disse hoje não meu tesão Mas eu disse hoje sim, por que não?” Menstruada, de Os Cascavelletes “O primeiro absorvente higiênico ultrafino e com gel”. Era essa a publicidade que pretendia atrair meninas da minha idade quando da proximidade da menarca. A minha foi com quatorze anos e, por sorte, e … Continue lendo Segura e natural
Não entrei para as estatísticas
por Roberta AR Nasceu. A coisa mais improvável de acontecer comigo, aconteceu: meu filho chegou. Do pânico de descobrir uma gravidez não planejada aos cinco meses de gestação, o medo por estar para completar 40 anos, o medo de doenças, de não dar conta, da minha vida acabar, como tanta gente me disse, nada disso … Continue lendo Não entrei para as estatísticas
A gratidão do Assírio
por Lima Barreto* - Meu caro Senhor Assírio, eu lhe tinha a perguntar se de fato está satisfeito com a vida. Nós nos havíamos introduzido no elegante porão do Municipal e falávamos ao restaurante chic com água na boca. Este não tardou em responder: - Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual. - Mas por … Continue lendo A gratidão do Assírio
Agora que sinto amor
por Alberto Caeiro* Agora que sinto amor Tenho interesse no que cheira. Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro. Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova. Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia. São coisas que se sabem por fora. Mas agora sei com a respiração … Continue lendo Agora que sinto amor
Renascimento
por Auta de Souza* A Olegária Siqueira Manhã de rosas. Lá no etéreo manto, O sol derrama lúcidos fulgores, E eu vou cantando pela estrada, enquanto Riem crianças e desabrocham flores. Quero viver! Há quanto tempo, quanto! Não venho ouvir na selva os trovadores! Quero sentir este consolo santo De quem, voltando à vida, esquece … Continue lendo Renascimento
O Bilhete Premiado
por Anton Tchekhov* Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal. - Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando a … Continue lendo O Bilhete Premiado
Às escuras
por Artur Azevedo* Havia baile naquela noite em casa do Cachapão, o famoso mestre de dança, que alugara um belo sobrado na Rua Formosa, onde todos os meses oferecia uma partida aos seus discípulos, sob condição de entrar cada um com dez mil-réis. D. Maricota e sua sobrinha, a Alice, eram infalíveis nesses bailes do … Continue lendo Às escuras