Lição póstuma

por Carmen Dolores*

No carro que conduzia à casa da amiga morta, Madalena meditava com melancolia, conchegando ao busto ainda belo as rendas negras do vestuário de luto improvisado para esse inesperado transe.

Morrera Valentina, a sua querida companheira da infância!… Extinguira-se de repente, na véspera, essa doce criatura pálida, cuja vida frágil, de sempre enferma e sempre apagada, pouco importava desde muitos anos aos seus mais próximos, nesse centro familiar, rumoroso e alegre, onde se moviam os filhos, as filhas, os genros e as noras da atual finada, em seu inconsciente egoísmo de entes novos, sadios e ativos. E o principal, na aparência, de toda essa gente moça, nascida do seu sangue ou fundida com o seu sangue, Valentina, na realidade, passara gradualmente a ser um zero no lar, de uma sensibilidade doentia que a isolava, sob o terror dos choques da existência comum, e de uma fraqueza de caráter que as contínuas moléstias iam sempre agravando. Tinha a figura emaciada de uma freira. Andava devagar, como arrastando dolorosamente os passos, sem rumo, sem objetivo. E eis enfim que morrera, discretamente, sem ruído, num sopro de ave cansada, que encolhe a cabeça sob a asa e expira docemente, sem incomodar ninguém com estardalhaços de uma agonia aflitiva e prolongada.

Madalena evocava agora esse tristonho tipo de mulher, que conhecera despreocupado na meninice, poeticamente sentimental na adolescência, e enfim abatido nos últimos tempos — e uma sensação como medrosa de arrepio se misturou ao sentimento natural da sua afetuosa saudade.

Quantos anos podia ter Valentina? Só quarenta e seis — a sua própria idade, pois tinham nascido no mesmo ano. E, mais nervosa, Madalena atirou-se para o canto da vitória, vergou o corpo, para enfiar a vista pelo espetáculo das ruas em todo o jubiloso movimento das quatro horas da tarde. Que contraste com o desalento das suas idéias! E que novidade, também, no meio da apatia dos seus dias monótonos, sempre iguais, ao fundo dessa chácara sombria de arvoredos, porejando umidade dos seus caramanchéis apodrecidos pelas chuvas, em que ela esquecia todos os risos da vida por inércia de hábitos, empurrada pouco a pouco, quase sem sentir, para o isolamento próprio dos que terminaram o seu papel no mundo! Um relâmpago fuzilou nas pupilas de Madalena, ao acicate de um pensamento súbito e cruel: como a Valentina!… assim mesmo é que se resvala até cair na morte, sem reagir e sem viver — no verdadeiro sentido desta palavra tão ampla…

E, como febril, debruçou-se mais avidamente, fartou a vista de olhar, de olhar a onda popular espraiada pelas vias, numa ondulação crescente e vertiginosa.

O carro, vindo do Rio Comprido, seguia pela nova e brilhante rua da Carioca, cortada de elétricos rápidos, com a sua alta casaria de aspecto europeu, lojas de montras espelhantes cheias de compradores, grupos remoinhando em certos pontos da calçada larga, junto aos postes de parada dos bondes, um ar de efervescente alegria no azul do céu, na brancura luminosa das fachadas dos prédios, nas vitrinas, nos artigos policromos expostos à venda, nas portas, na multidão formigando apressadamente; em tudo.

Ao pé do mercado das flores, um embaraço qualquer deteve um instante a marcha da vitória, entre a trepidação violenta de todo o gênero de veículos a se cruzarem, e Madalena aspirou, com um frêmito, o aroma vivo das rosas brancas e rubras, dos cravos purpurinos e das angélicas virginais desprendendo o seu hálito de volúpia entre os crisântemos e as dálias sem perfume. Mas já o carro vencia o largo da Carioca, onde desembocava toda uma torrente popular despejada pelas ruas da Uruguaiana e Gonçalves Dias; e, ao reflexo dourado do sol, trazendo nos ouvidos o rumor da vida tumultuosa das ruas e na rotina a visão da graça experta das mulheres que andam às compras, parando em cada montra com um fulgor de apetite no olhar, a saia arregaçada com arte, o pé bem calçado e nervoso — Madalena entrou a rodar sobre o asfalto macio da avenida Beira-Mar, voltando a pensar nessa morta que aguardava na imobilidade suprema o definitivo mergulho na terra fria.

Em pouco, muito pálida sob o negrume do vestido de luto, contemplava Madalena a amiga de infância estendida sobre a eça de ouros lúgubres, entre os candelabros do estilo: e essa face mais lívida do que a cera das tochas acesas, mais reduzida do que um semblante de criança, com os cabelos de leve grisalhos, penteados para o túmulo, e uma expressão de amargura nos lábios finos e roxos — essa face defunta abalou tão violentamente a sua alma, que os soluços a sufocaram como uma crise de nervos. Nem saberia dizer por quem chorava, se pela morta, se por si própria, sentindo como uma trágica parecença nos seus destinos — ambas já tendo cumprido a sua missão na existência e não havendo sabido salvaguardar a nota pessoal, que serve de arma de defesa, instinto de conservação, na segunda e melancólica fase da vida das mulheres.

Acudiam-lhe, de envolta com as lágrimas, trechos de certo romance pungente de Tolstói — uma grande ternura ingênua que tudo dera de si, encontrando ao cabo a ingratidão mais dura, o isolamento, o abandono…

E um pavor subiu-lhe ao cérebro, lembrando as acomodações, as transigências, que ela fora aceitando contra o seu interesse, por amor e por inércia. Apareceu-lhe a chácara sombria, sentiu o vagar dos dias longos, viu-se a errar, cheia de tédio, sem vida própria, entre a animação egoística dos seus mais próximos, como a outra, como essa que ali jazia entre homenagens mentirosas, agora inúteis, de coroas, flores e galões dourados… E uma reação perigosa se fez no seu íntimo. Como a Valentina?… Não, jamais!… Ela queria viver e não morrer. Aquilo era uma lição.

O Matias, genro de Madalena, fumava, ao cair dessa tarde, à porta do vestíbulo, olhando a beleza do ocaso, quando viu caminhar pela grande alameda da chácara, em direção à casa, um vulto de mulher que ele, à primeira vista, não reconheceu.

“Mas é tua mãe!”, disse por fim à esposa, virando-se para dentro da sala, como atônito. E no seu tom havia uma tão insólita estranheza, visto como a volta da sogra era perfeitamente natural, que as filhas logo se ergueram e chegaram à porta.

“Mas é mamãe!”, repetiram elas, imitando inconscientemente o ar admirado do Matias.

Efetivamente, a silhueta de Madalena parecia mudada nas suas linhas habituais. Ela, que era gorda e indolente, vinha num passo firme e decidido que esmagava as folhas secas do caminho. Tinha arremessado para trás a pelerine de rendas negras, e em seu corpo, ainda bem feito, estava mais moça, mais viva, mais esbelta. No silêncio curioso que a acolheu, pôs-se a contar como fora o enterro da pobre Valentina, insistindo com rancor na insensibilidade ou excessiva resignação de toda a família, que tinha demonstrado à evidência o ínfimo lugar ocupado sob aquele teto pela falecida.

E como, nesse ponto da narrativa, um netinho a importunasse teimosamente, puxando-lhe ora o leque, ora as rendas, Madalena administrou-lhe, com nervosa prontidão, uma pancadinha seca nos dedos. O pequeno chorou: os pais entreolharam-se, espantados; e a mãe acabou observando, para aliviar o despeito:

“Essa d. Valentina, afinal, não passava de uma imprestável…”

Madalena, de ordinário paciente e vagarosa, saltou imediatamente:

“Imprestável? … Tola é que ela foi…”

Surpresa geral.

Quando Madalena saiu da sala, o Matias dirigiu-se ao cunhado Jorge, também casado, e, de mãos nos bolsos, meneando misteriosamente a cabeça, a esticar um grande beiço desolado, murmurou…

“Transformaram tua mãe, sabes? Aqui há coisa…”

E havia. Era um terror profundo deixado na alma de Madalena pelas impressões da morte da amiga. Era uma reação, entretida pela vontade de fugir a vagos perigos, que chicoteava dia a dia os impulsos da natural e passiva apatia, tentando às vezes retomar os antigos direitos sobre o seu caráter. Nesse momento, então, Madalena corria ao espelho para se examinar; já se via mais magra, com a face lívida e esbatida da amiga que não soubera defender a sua nota pessoal e morrera anulada, como um trapo inútil. E se, a essa hora, a filha ou a nora lhe anunciavam que iam passear, pedindo-lhe para ficar, como dantes, com as crianças, ela, depressa, contrariando o espontâneo assomo de condescendente bondade, respondia que também tinha de sair. E saía de fato, para atestar a sua independência; andava pela cidade, a impregnar-se, como buscando reforço à sua bruxuleante energia, do espetáculo da vida ativa de outras mulheres da sua idade, em que bebia lições. Como a Valentina é que nunca, nunca, jamais!

E certo dia, sob a reprovação mal refreada dos seus, Madalena participou que se ia casar com um senhor Salgado, qüinquagenário ainda robusto, que lhe oferecia a comunhão da simpatia contra os próximos e comuns desalentos da velhice solitária.

Por ocasião desse casamento, enquanto a noiva, madura e satisfeita, jurava fidelidade ao futuro de cabelos grisalhos, bem empertigado na sua casaca solene, o Matias, sucumbido, sussurrava ao ouvido do cunhado Jorge.

“Tudo isto é obra fatal da defunta Valentina…”

E, mais áspero:

“Eu, se ela ressuscitasse, metia-lhe uma bengalada…”

O filho acrescentou com raiva:

“Eu fazia mais: assassinava a peste…”·

E volvendo o olhar torvo para as sedas lilases e farfalhantes da mãe ao pé do altar, concluiu entre dentes:

“Ainda esta manhã ela foi levar uma coroa de amores perfeitos ao túmulo da amiga, agradecendo a lição…”

Madalena, entretanto, pesada e triunfante, ia dizendo ao senhor Salgado, cuja calva reluzia às luzes:

“ Recebo a vós…”

Era o direito à felicidade, proclamado alto!… Era o direito à vida própria!…

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* Carmen Dolores, pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, (1852 — 1910) foi uma escritora brasileira. Emilia escreveu contos e “fantasias” Usou vários outros pseudônimos em suas colaborações para os jornais “Correio da Manhã”, “O Pais”, “Tribunal” e “Étoile du Sud”, mas foi com o pseudônimo de Carmen Dolores que ficou mais conhecida. Apesar das limitações de sua concepção de libertação feminina, sua participação marca para as mulheres uma conquista importante de espaço na imprensa.

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A luta

por Carmen Dolores*

Casava-se a Celina, filha mais velha da D. Adozinda Ferreira, quarentona bem conservada, e todo o velho e pequeno hotel familiar para convalescentes: os Abelos ares! debruçado à beira do morro de Santa-Teresa, como a mirar a esplêndida vista da cidade, em baixo, aparecia rejuvenescido e embelezado pela abundância de festões de flores e galhadas verdes, com que o iam enfeitando alegremente algumas criadas vestidas com garridice espaventosa, rindo com os hóspedes mais íntimos que as ajudavam.

– Ponha as dálias encarnadas aqui, seu Juvêncio… É para casarem com os crisântemos brancos…

– Casarem… casarem… Você Crescência, não tem outra ideia na cabeça senão a de casamento…

– Pois então?!… respondia a primeira, com um muxoxo de mulatinha espevitada, o dia é mesmo para se pensar nisso. Bem que eu quisera estar no lugar de D. Celina, mas… com outro noivo, já se vê… Olhem lá…

Um vulto de rapaz ladeava solitariamente os maciços espessos do jardim, como procurando fugir à atenção, e uma gargalhada esfuziou no grupo, que depressa fingiu mergulhar mais ativamente nos preparativos da ornamentação da casa, em cujas janelas baixas já se balouçavam frágeis cadeias cheirosas, invenção da Crescência, atravessando as abertas em forma de bambolins floridos. Um aroma quente de folhas e pétalas dava ao ambiente um cunho de festa. E já um tapete esmeraldino se estendia no solo, em frente à porta da sala térrea, em cujo recinto ainda vazio de convidados branquejavam panos de crochet forrando os móveis usados, enquanto, de cada mesinha, de cada étagère, dos dois consolos antigos, do tampo do piano de armário, partia a nota violenta dos grandes ramos de rosas, de dálias, de begônias e palmas de Santa Rita, transbordando de todas as jarras da família, ali reunidas como principal recurso decorativo.

Mas um rumor cresceu no interior do prédio e D. Adozinda, proprietária do hotel, surgiu azafamada e seguida por duas meninas de cabeleira já frisada em que se enrolavam fitas azuis, indagando, ruidosamente das raparigas se já passara o bonde de uma hora da tarde… Não, não passara ainda, e era um inferno, porque faltavam as luvas brancas da noiva e das meninas, assim como o bouquet de flores de laranjeiras, que o Dr. Jaime, um hóspede tão amável! se prestara a ir buscar na cidade – e o noivo era bem capaz de chegar antes de tempo com a carrancuda da mãe, cujos reparos ela preferia evitar.

Cheia de corpo, clara com uns bonitos olhos pretos sob os cílios longos, um buço já forte desenhando-lhe a boca larga e carnuda, D. Adozinda correu rapidamente pelos aprestos da festa a vista alvoroçada e chamou pelos hóspedes, pediu-lhes que fossem agora ajudar um pouco a guarnecer a mesa do lunch, gritando às criadas que se aviassem sozinhas, que andassem, porque a Celina precisava delas.

Já a sua camisola transparente e ampla, enfiada por cima do colete, apertando-lhe as carnes opulentas, fazendo ressaltar o seio abundante, voejava pelo corredor, sobre as saias de baixo, rendadas e farfalhantes de goma; e o Juvêncio, o Tomás e o Rodolfo, três estudantes simpáticos e prestuberculosos, que lhe deviam pensão barata e carinho familiar, precipitaram-se atrás desse claro sulco, ainda com as mãos todas crivadas de espinhos de roseiras.

Dentro, a sala de jantar resplandecia à larga claridade de três janelas e uma porta abrindo para o jardim, que circulava a casa e onde zumbiam abelhas sobre os cálices de lírios, banhados de sol; e a cidade aparecia num plano inferior de silêncio e de distância, através de um vapor trêmulo e azulado que varava aqui ou ali o reflexo de incêndio de alguma clarabóia ferida por um raio de luz mais direto.

A mesa, recoberta pela toalha de linho dos grandes dias, tinha o aspecto convidativo, com os seus pratos de sandwiches, pastéis e empadinhas flanqueados pelas garrafas de cristal, em que brilhava um vinho aparentemente fino; pirâmides de fios d’ovos e compoteiras de doces feitos em casa alternavam com as fruteiras em que enrubesciam maçãs junto aos cachos de uvas, decorativamente espalhados – e toda uma profusão de flores em altos ramos circunscrevia a vista.

Um copeiro emprestado dava o último toque ao serviço – e os três estudantes o ajudaram a dobrar os guardanapos em feitio de leque, de mitra e de rosa, não sem volverem obliquamente um olhar dissimulado e guloso para o peru e as fatias de fiambre, acomodadas sobre o aparador, sob um grosso filó cor de rosa, protetor contra as moscas assanhadas.

– E o coronel?… acabou o Tomás por perguntar baixinho ao ouvido de Rodolfo.

– Está no quarto, ciciou este com malícia; não gosta de escândalo e parece que hoje vai deixar-se ficar encerrado…

– Que idiota! O macambúzio do Gilberto é que devia fazer-lhe companhia, em vez de errar pela chácara como uma alma penada…

– Homem, também…

Mas uma senhora vestida de sedas investiu de repente pela sala, como uma tromba, e atrás dela vieram correndo as meninas de fitas azuis nos cabelos riçados, duas moças em toilettes brancas e o bando das criadas espevitadas, gritando todas:

– D. Adozinda, o bonde largou uma porção de gente na porta… Estão aí o noivo com a mãe, a madrinha, o Dr. Jaime, dois velhos…

– Nossa Senhora!…

E. a dona da casa saiu do quarto arrastando atrás de si uma preta que ainda lhe acolchetava com esforço, resfolegando, bufando, o corpo do vestido cor de pérola; a fazenda rangia, estalando sobre as formas salientes e vermelha, de olhos congestionados, retendo o fôlego, D. Adozinda ia balbuciando com voz entrecortada:

– Anda, rapariga!… Anda, Marcelina!…

Um rumor de falas, de passos, de cadeiras arrastadas, enchia a casa, entre as suas folhagens decorativas, e alguém preveniu que o suplente do pretor também tinha chegado pelo mesmo elétrico e que o afilhado do padre André vinha avisar que o padrinho estaria ali para o casamento religioso às 4 horas em ponto.

Houve um sussurro crescente e a noiva, toda branca, assomou à porta da sala envolta em véus virginais.

A D. Adozinda Ferreira tinha um dia chegado, havia tempos, de Iguaçu, com três filhas já crescidinhas, a mais velha, quase moça, e dizia-se viúva de um Inácio Ferreira, negociante, que falecera durante uma visita feita à sua aldeia natal, em terras portuguesas, no Minho.

Como a posição da recém-chegada não atraía atenções, e que, de resto, ela se mostrava com alguns recursos pecuniários, alegre, insinuante, de uma familiaridade ruidosa que agrada a muita gente, ninguém pôs em dúvida o estado de viuvez apresentado como rótulo social, e pôde essa senhora entreter algumas relações no largo dos Guimarães, em Santa-Teresa, onde fora residir.

Em breve, com esperteza e felicidade, comprou D. Adozinda o pequeno hotel mais em cima, a cavaleiro da linha de bondes Carris-Carioca, onde a D. Eufrásia, uma velha pintada de sardas escuras, cozinhara durante muitos anos a sua asma terrível, conservando sempre, aliás, uma boa freguesia de enfermos crônicos, convalescentes, empregados do comércio sofrendo do estômago ou dos rins, que buscavam nessa cômoda altura, próxima da cidade, um alívio aos seus males reais ou imaginários a preços modestos. Mais doente, porém, já cansada de tanto tossir, passou essa Dona Eufrásia a sua pensão; e D. Adozinda, que a adquiriu com um faro muito vivo de negócios, ali se instalou com as filhas, atraindo logo a simpatia de todos os hóspedes com o seu gênio brincalhão, o riso fácil, uma intimidade quase maternal, que punham a gosto a rapaziada, nos princípios retraída.

Desde que amanhecia, a sua clara camisola de cassa esvoaçava pelos corredores, pelas salas e dependências; e alegre, ativa, com a sua pele branca e bem lavada, o cabelo preto enrolado em um nó sobre a nuca forte, os braços grossos sempre nus entre as mangas largas e curtas, ela penetrava familiarmente nos quartos dos hóspedes, esquecia-se a palestrar com os prediletos, aos quais levava ela própria o café com biscoitos, muitas vezes alguma rosa ainda aljofrada de orvalho matutino e colhida por suas mãos no jardim – ressoando através das portas fechadas os seus risos sonoros, não raro seguidos de inexplicáveis silêncios, até que o favorito da ocasião saía do quarto muito apressado, vermelho, a correr para apanhar o elétrico, e Dona Adozinda voltava às suas funções domésticas, com o rolo do cabelo um pouco desmanchado, mas sempre enérgica e laboriosa no exercício dos seus deveres.

Não tardou muito que o hotel, em vista dessa feição, fosse um pouco abandonado pelo elemento familiar. Algum casal que ali se hospedasse sentia logo a preferência merecida pelos rapazes solteiros e tratava de procurar outro estabelecimento; de modo que, além de duas antigas senhoras cheias de achaques e que tinham na casa o seu velho ninho, desde a D. Eufrásia, pagando aliás pontualmente a pensão por quinzenas; e de uma outra professora estafada, em busca de bons ares baratos para as férias, a clientela do hotel era composta quase que exclusivamente de homens idosos ou moços.

Havia, como efetivos, o John Gross, desenhista alemão, sempre asseado e grave que descia à cidade pela manhã e só voltava à noite. Havia o Silva, solteirão português, metido a gaiato e com um grande nariz, que dava réplica à loquacidade jovial de D. Adozinda, ao jantar, e comia como um bruto, espremendo limão em todos os pratos, por causa do fígado.

Havia o Tomé, guarda-livros, muito alto e bonito, mas tísico, nervoso, sempre enrolado em flanelas, e o Juvêncio, o Tomás, o Rodolfo, estudantes com as famílias no Amazonas e no Pará, e, enfim o Coronel Juvenato, um cearense de banhas amarelas e olhar manhoso, que não perdia missa, e o Gilberto, que fora também estudante de farmácia, mas apanhara umas febres e ali vivia agora à espera da saúde, mofino e débil, recebendo a mesada que lhe mandava de Minas um tio.

Desenvolvendo-se nesse meio, é natural que Celina, filha mais velha da D. Adozinda, tivesse os seus pequenos flirts com alguns desses rapazes, muito íntimos na casa e trazendo-lhe da cidade presentes de doces, de balas de ovo, de jornais ilustrados ou de frutas.

As irmãs mais novas iam ao colégio; ela ficava, enchendo o tempo com uns crochets vagarosos, costuras leves, a leitura dos folhetins dos jornais; e o Gilberto, que raramente, saía, andava sempre ao seu lado, muito caído por esse tipo um pouco mórbido de menina anêmica, devorando com os olhos a sua cinta fina, a graça delicada com que ela movia o pescoço franzino, o sorriso um tanto sonso dos lábios ambíguos a ler-lhe versos em que punha toda a paixão da sua voz. Ele era bonitinho, teria os seus vinte anos, muito pálido, com umas pupilas negras de árabe, ardentes, vorazes: e D. Adozinda, ao passar, quando os via juntos, demorava o andar, como inquieta, perplexa, indecisa… Muito ladina, sob a sua jovialidade vulgar, ela perguntava a si mesma o que devia fazer: consentir ou proibir?

O Gilberto não valia nada, mas quem sabe se apareceria outro, simplório e sincero como ele? E a filha, com os seus dezessete anos, começava a embaraçá-la um pouco, nesse difícil papel de virgem numa casa de pensão, cheia de rapazes. Ora, o melhor era esperar, dar tempo ao tempo… E o Gilberto e a Celina continuaram a namorar-se, ele cândido, ela dúbia; enquanto o Coronel Juvenato que deixara a mulher em Sobral para tratar de uma concessão rendosa com os políticos do Rio, ia agora monopolizando como protetor mais importante, as alegres visitas matinais da viúva, que já lhe levava sempre o café – mas sem flores colhida no jardim, ainda rociadas de orvalho, porque cearense não dava para essas coisas de poesia. Era rápido, prático, e não admitia bobagens. Por isso todos os sábados à noite, ele dizia a D. Adozinda com um tremor lúbrico nas banhas moles da face os olhinhos vivos pestanejando:

– A senhora não se esqueça que amanhã é domingo… Leve-me cedo o café, hein?… que e tenho de ir a missa…

– Pois não! pois não, Coronel! fique descansado, respondia a viúva do Ferreira, muito atenciosamente, tirando-lhe umas caspas da gola do paletó, com a mão repolhuda.

Os outros hóspedes riam-se à socapa; e no domingo o café não faltava, bem cedinho…

Foi por esse tempo que apareceu inesperada mente no hotel, a convalescer de uma hepatite, certa viúva idosa, com alguns bens, cujo filho único, o Alfredo Galvão, amanuense numa secretaria, vinha recomendá-la muito a D. Adozinda. Subiram ambos devagar os dois lances da escadaria do jardim, dividido em terraços, ela com uma lividez de marfim velho na face franzida e severa, ele amparando-a com toda a força de seu braço filial, solicito, respeitoso, carregando-lhe a maleta e os agasalhos: e mesmo assim, teve a doente de parar sob a amendoeira do centro do jardim superior, porque lhe faltava o fôlego para atingir a casa.

Minha mãe ainda está muito fraca, explicou Alfredo à dona da pensão, para desculpá-la, e agradecendo a cadeira que Celina trouxe a correr; mas acredito que estes ares logo a fortalecerão…

– Não sei se a minha modesta casa lhe convirá disse D. Adozinda, examinando com alguma inquietação a fisionomia austera da senhora..

– Ora, certamente que há de convir. Pois então?… isto aqui é bonito, é alto, saudável…

A doente interrompeu o filho, erguendo os olhos biliosos para a mulher:

– É sobretudo muito próximo da cidade, de modo que o Alfredo poderá visitar-me todas as tardes, depois de jantar. Moramos à rua das Marrecas. Fica perto do Ponto dos Carris e foi por isso que escolhi a sua casa.

D. Adozinda teve um largo riso profissional, agradecendo, e garantiu que ela se daria ali muito bem. O que convinha agora era entrar, a fim de não esfriar o corpo à sombra das árvores.

Ajudou-a a levantar-se, foi conduzindo-a para a sala, enquanto a doente indagava:

– A menina que me trouxe a cadeira é sua filha?

– É a minha mais velha; e ainda tenho outras duas que estão a chegar do colégio…

Uma sombra empanou o rosto amarelecido da senhora:

– Eu tive seis filhos!… Só me resta hoje este mais moço, o Alfredo… Isto é que é duro: têlos e perdê-los…

– Tem razão, mas afugente esses pensamentos tristes e venha ver o seu quarto… Como é mesmo o seu nome? Já esqueci…

– Margarida Galvão, viúva do Dr. Hermeto Galvão.

E com uma ponta de altivez a endireitar-lhe o busto magro sob a ampla capa de vidrilhos negros, passou à frente dessa dona de hotel que a interrogava com tão excessiva familiaridade e penetrou no aposento que Celina já abrira.

Era o melhor da casa, com duas janelas para o jardim lateral, um grande toucador e até uma cadeira de balanço para os ócios da doente.

– Minha mãe ficará aqui perfeitamente! dizia o Alfredo, sorrindo, apalpando as molas do enxergão de arame do leito asseado, dando a tudo um olhar cuidadoso de filho. Repare que vista!…

E despediu-se com mil recomendações, beijando a mão emagrecida da velha, voltando-se ainda da porta para lembrar a dieta, os perigos do sereno, mil coisas. No corredor, porém, esbarrou com Celina, que o escutava com um leve riso de zombaria à flor dos lábios, e teve um minuto de confusão, sentiu-se infantil, deixou cair o chapéu, só sossegando a meio das escadas do jardim, que desceu um pouco trôpego, intimado, a pensar:

– Diabo de pequena!… que modo de rir! Mas, é bonitinha, muito bonitinha!

Parou para colher um cacho de glicínias que pendia da grade, e ainda murmurou:

– Que olhos!…

A mãe de Celina é que caiu menos no agrado dos dois – sobretudo no de D. Margarida, que não se podia habituar com a alegria um tanto vulgar da viúva, as suas gargalhadas sonoras, os roupões decotados a voarem pelos corredores, essa mania de trazer sempre nus os braços grossos e roliços e de rebolar os quadris, quando andava. Conservou-se desconfiada muitos dias, estudando o procedimento de D. Adozinda nessa casa de hóspedes que ela enchia com o rumor da sua familiaridade jovial. Mas, como o Coronel Juvenato só aparecia agora ao jantar, casmurro e tranqüilo, mastigando numa absorção de todos os outros sentidos, com a papeira flácida a tremer; como o Silva coibia mais as suas pilhérias lusitanas de pândego narigudo, peado pela reserva de D. Margarida; como, em suma, tudo se passava regularmente e, durante o dia, a viúva era sempre encontrada a coser, como boa mãe de família, uma cesta de roupa por cerzir sobre a mesa, ao seu lado – a velha mãe do Alfredo Galvão acabou por sossegar. A mulher era mal-educada, lá isso era; não se podia, porém, acusá-la de proceder incorretamente. E, nessa distensão das suas desconfianças, D. Margarida foi aceitando as amabilidades um pouco tímidas da filha, essa esbelta Celina, de poucas falas, que lhe floria o quarto todas as manhãs com uma graça discreta de gestos e passos. Chamou-a um dia, em que mais lindo apareceu o ramo de rosas brancas, amarelas e rubras, túmidas de seiva, ainda orvalhadas de sereno, embalsamando todo o aposento; mostrou-lhe a cadeira junto da sua, fê-la sentar e perguntou-lhe, sorrindo:

– Diga-me, onde aprendeu a fazer esses ramalhetes tão bonitos, tão artísticos?

A pequena encolheu os ombros franzinos com faceirice, mostrando os dentinhos brancos no seu riso sempre ambíguo, um pouco ironia, um pouco mistério:

– Não sei! faço-os sem pensar…

E D. Margarida envolveu-a num longo olhar penetrante, que gradativamente se adoçou úmido, compassivo, como se ela sondasse com tristeza os segredos desse humilde destino de virgem mal guardada por uma mãe leviana e espalhafatosa.

Indagou por fim, com uma simpatia a vibrar-lhe na voz de ordinário fria:

– Deve custar-lhe a viver assim numa pensão cheia de gente desconhecida, entre rapazes que tomam liberdade, não é?…

Celina requebrou dolorosamente os olhos.

– Ah! muito… A senhora nem imagina!…

E, como arrastada, mais sincera, um leve rubor nas faces anêmicas, prosseguiu:

– Estou cansada desta vida, mas mamãe não pode ainda deixar o hotel… Então, que fazer?!… No dia, porém, em que eu puder sair daqui para morar sozinha com minha família, na cidade, ah! que alegria!…

– Há também outro meio: pode casar-se…

– Casar-me, eu?… Com quem? Onde o noivo?

E Celina esfuziou uma gargalhada fina e nervosa, um pouco forçada. Os olhares de ambas cruzaram-se, enigmáticos, logo desviados; e a convalescente ergueu-se com certa vivacidade, dizendo:

– Bem. A menina tem naturalmente as suas ocupações lá dentro e eu vou dar o meu giro higiênico ao sol. Até logo, sim? Não precisa acompanhar-me.

Separaram-se.

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* Carmen Dolores, pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, (Rio de Janeiro, 11 de março de 1852 — 16 de agosto de 1910), foi uma escritora brasileira.