Poemas

por Antonio Souza* Xícara  algo absurdo sem explicação de uma realidade concretíssima. uma xícara vazia em uma mesa solitária e abandonada por especulações metafísicas . Branca objeto sem uso, contendo imponderâncias sem perguntas. Exercendo a presença diante de niguém. Branca, vazia e xicara comunicando disfunções. Aberta esquecida em uma mesa, uma xícara em desuso, sem … Continue lendo Poemas

Graphic novel de ressonâncias

por André Rafaini Lopes Na minha frente, um sujeito da produção tentava convencer o apresentador Ratinho a proibir um striptease em pleno horário nobre até ser literalmente arrancado do palco por uma gigantesca mão de macaco à King Kong. Na minha direita, vazava uma música árabe. Na esquerda, guitarras e sapateados flamencos. Levemente incomodado e … Continue lendo Graphic novel de ressonâncias

A Sete Palmos

por Michel Aleixo* "Sabe o que está faltando? Gente vomitando no palco, quebrando guitarra, os maus comportados. No fundo são todos um bando de Sandys. Tudo cai no ridículo muito cedo e é todo mundo muito bem comportadinho, muito politicamente correto. Acho isso meio sacal" Guilherme Arantes, grimório vivo do pop Não faz nem uns … Continue lendo A Sete Palmos

Este mundo da injustiça globalizada

por José Saramago* Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de … Continue lendo Este mundo da injustiça globalizada

O Tesouro

por Eça de Queirós* I Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de … Continue lendo O Tesouro

21 de Abril

por Biu* A rua ruiu, a urbs suprimiu a civitas, e o tempo parou, suspenso sobre nossas cabeças como nuvens carregadas de um temporal que nunca haverá. Estamos em Brasília, o berço esplêndido da nova civilização, que de tão nova sequer se sustenta em pé, e sobre ela deita-se eternamente, tombada. O túmulo da História, … Continue lendo 21 de Abril

Navio fantasma

Por Adriano de Almeida* Fechando a porta, ouço o violão que ressoa no quintal. Meu avô pigarreia o fim da vida. Eu quase não respiro, me concentrando em reprimir o asco. Como envolvido em plástico, protegido, passo pudicamente a palma pelos móveis, não me expando. Evito gorduras e nódoas. Há ratos no quintal, eu bem … Continue lendo Navio fantasma

Finge que Defende a Honra da Cidade e Aponto os Vícios de Seus Moradores

por Gregório de Matos* Uma cidade tão nobre, uma gente tão honrada veja-se um dia louvada desde o mais rico ao mais pobre: cada pessoa o seu cobre, mas se o diabo me atiça, que indo a fazer-lhe justiça algum saia a justiçar, não me poderão negar que por direito, e por Lei esta é … Continue lendo Finge que Defende a Honra da Cidade e Aponto os Vícios de Seus Moradores