por Antonio Souza* Xícara algo absurdo sem explicação de uma realidade concretíssima. uma xícara vazia em uma mesa solitária e abandonada por especulações metafísicas . Branca objeto sem uso, contendo imponderâncias sem perguntas. Exercendo a presença diante de niguém. Branca, vazia e xicara comunicando disfunções. Aberta esquecida em uma mesa, uma xícara em desuso, sem … Continue lendo Poemas
Categoria: TEXTO
O seu nome infeliz
por Adriano de Almeida* Dieguinho de cara vincada, solitário mas ria. De muito. Aos doze, prensou-me na sala de aula – mais alto, mais forte, mais velho que eu. Eu era maluco e enfezado e cuspi como um bicho e ele foi pro seu canto. Amigo? Jamais. Na verdade eu sentia era medo. Teve jogo … Continue lendo O seu nome infeliz
O colecionador de lustres
por André Rafaini Lopes e Roberta AR Antes de entrar em casa, cumpriu o ritual. Arrastou os pés pesadamente no carpete do elevador e bateu no paletó para tirar o pó da rua. Subiu. Em frente à porta, passou o dedo no batente, exatamente sobre uma mancha já gasta do verniz. Tirou do bolso um saquinho … Continue lendo O colecionador de lustres
Graphic novel de ressonâncias
por André Rafaini Lopes Na minha frente, um sujeito da produção tentava convencer o apresentador Ratinho a proibir um striptease em pleno horário nobre até ser literalmente arrancado do palco por uma gigantesca mão de macaco à King Kong. Na minha direita, vazava uma música árabe. Na esquerda, guitarras e sapateados flamencos. Levemente incomodado e … Continue lendo Graphic novel de ressonâncias
A Sete Palmos
por Michel Aleixo* "Sabe o que está faltando? Gente vomitando no palco, quebrando guitarra, os maus comportados. No fundo são todos um bando de Sandys. Tudo cai no ridículo muito cedo e é todo mundo muito bem comportadinho, muito politicamente correto. Acho isso meio sacal" Guilherme Arantes, grimório vivo do pop Não faz nem uns … Continue lendo A Sete Palmos
Este mundo da injustiça globalizada
por José Saramago* Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de … Continue lendo Este mundo da injustiça globalizada
O anticristo
por Friedrich Nietzsche* VI Um doloroso e trágico espetáculo surge diante de mim: retirei a cortina da corrupção do homem. Essa palavra, em minha boca, é isenta de pelo menos uma suspeita: a de que envolve uma acusação moral contra a humanidade. A entendo – e desejo enfatizar novamente – livre de qualquer valor moral: … Continue lendo O anticristo
O Tesouro
por Eça de Queirós* I Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de … Continue lendo O Tesouro
O limite da vida
por Mauro Castro* Chego ao meu ponto de táxi antes de amanhecer. O lugar está vazio e o telefone está tocando. Corro para atender. Uma mulher com voz preocupada passa o endereço e pede que eu tenha pressa. Ela diz que está acudindo uma vizinha, precisa de um táxi para levá-la ao hospital. Chegando ao … Continue lendo O limite da vida
Bons dias! – Crônica 1
por Machado de Assis* 5 de abril - 1888 Hão de reconhecer que sou bem criado. Podia entrar aqui, chapéu à banda, e ir logo dizendo o que me parecesse; depois ia-me embora, para voltar na outra semana. Mas, não senhor; chego à porta, e o meu primeiro cuidado é dar-lhe os bons dias. Agora, … Continue lendo Bons dias! – Crônica 1
21 de Abril
por Biu* A rua ruiu, a urbs suprimiu a civitas, e o tempo parou, suspenso sobre nossas cabeças como nuvens carregadas de um temporal que nunca haverá. Estamos em Brasília, o berço esplêndido da nova civilização, que de tão nova sequer se sustenta em pé, e sobre ela deita-se eternamente, tombada. O túmulo da História, … Continue lendo 21 de Abril
Navio fantasma
Por Adriano de Almeida* Fechando a porta, ouço o violão que ressoa no quintal. Meu avô pigarreia o fim da vida. Eu quase não respiro, me concentrando em reprimir o asco. Como envolvido em plástico, protegido, passo pudicamente a palma pelos móveis, não me expando. Evito gorduras e nódoas. Há ratos no quintal, eu bem … Continue lendo Navio fantasma
Finge que Defende a Honra da Cidade e Aponto os Vícios de Seus Moradores
por Gregório de Matos* Uma cidade tão nobre, uma gente tão honrada veja-se um dia louvada desde o mais rico ao mais pobre: cada pessoa o seu cobre, mas se o diabo me atiça, que indo a fazer-lhe justiça algum saia a justiçar, não me poderão negar que por direito, e por Lei esta é … Continue lendo Finge que Defende a Honra da Cidade e Aponto os Vícios de Seus Moradores