A falência

por Júlia Lopes de Almeida*

O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosfera. Toda a rua de S. Bento, atravancada por veículos pesadões e estrepitosos, cheirava a café cru. Era hora de trabalho.
Entre o fragor das ferragens sacudidas, o giro ameaçador das rodas e os corcovos de animais contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, compacto e esbaforido.
À porta do armazém de Francisco Teodoro era nesse dia grande o movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ajeitava as sacas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:
– Andem com isso, que às onze horas tenho de estar nas Docas!
E os carregadores vinham, sucedendo-se com uma pressa fantástica, atirar as sacas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabeludos mal cobertos pela camisa de meia enrugada de algodão sujo: outros negros, nus da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.
Ao cheiro do café misturava-se o do suor daqueles corpos agitados, cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos braços.
No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros, furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa do caminhão, todo derreado para a aniagem das sacas, respirando a poeirada que se levantava delas. Os outros respondiam com iguais impropérios, que os cocheiros dos tílburis, em esperas forçadas, ouviam rindo, mastigando o cigarro.
Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquilo, como formigas em correição, com a cabeça vergada ao peso da saca, roçando o corpo latejante nas ancas lustrosas dos burros.
Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os paralelepípedos da rua.
Aqui, ali e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em forma de touca sobre a carapinha, varriam lépidas com uma vassoura de piaçava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento peneiravam-nos logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado a prego. Era o seu negócio, que aqueles dias de abundância tornavam próspero. Enriqueciam-se com os sobejos.
Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o mesmo triunfo, gemendo com o mesmo esforço, em uma orquestra barulhenta e desarmônica.
A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se atrevia a sair de alguma fábrica de sacos com dúzias deles à cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquelas pedras, só afeitas ao peso bruto.
Dominava ali o trabalho viril, a força física, movida por músculos de aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de atletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de guerra, davam à velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a uma artéria, correndo sempre com vigor e com ímpeto.
Já de outras ruas descia aquela onda quente, arfante de trabalho, vinha da rua dos Beneditinos e vinha dos armazéns da rua Municipal, todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.
Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando um momento, com os cotovelos fincados nos joelhos erguidos, salivando o sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indiferença para aquela multidão que passava aos trancos e barrancos, na ânsia da vida, num torvelinho de pó e gritaria.
De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, surgiram nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, às gargalhadas, enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de protesto se perdiam abafados pelo ruído complexo da rua.
Dentro dos armazéns a mesma lufa-lufa.
No de Francisco Teodoro não havia paragem.
O primeiro caixeiro, seu Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.
A porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de aço e latão todas as sacas que saíam, para que se escapasse pela abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os passos nessa operação, e o café caia cantando na soleira.
Ao fundo, um rapazinho magro e amarelo, o Ribas, apontava num caderno o número de sacas que levavam, rente à escada de mão por onde os carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois pelo asfalto desgastado e denegrido do solo.
Tudo era feito numa urgência, obrigada a grande movimento.
Um sopro ardente de vida, uma lufada de incêndio bafejada por cem homens arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquele extenso porão negro, sem janelas, ladeado de sacos sobrepostos e adornado nas vigas sujas do teto por infinita quantidade de teias de aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crepe russo.
De vez em quando, um ruído de cascata rolava pelo interior do armazém. Era o café, que ensacavam na área do fundo, e que na queda das pás desprendia um pó sutil e um cheiro violento.
Fora, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no som confuso, em que
vozes humanas e rodas de veículos se amalgamavam com o estrupido das patas dos animais.
Alguns carregadores exaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas corriam logo,
chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito trêfego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros.
– Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!
Era o seu estribilho.
E havia sempre muito que fazer naquela casa, uma das mais graúdas no comércio de café. Dirse-ia que o dinheiro aprendera sozinho o caminho dos seus cofres, correndo para eles sem interrupção.
Ao lado do armazém e comunicando com ele por uma portinha estreita, havia à esquerda o corredor e a escada, que levava ao escritório, acima, no primeiro andar.
Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra, guarda-livros, escrevia em pé, junto à escrivaninha colocado ao centro. Em outra carteira trabalhavam mais dois ajudantes, um velho, o Mota, de sorriso amável e modos submissos; e o outro, um moço bilioso de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado.
Nessa sala o trabalho era silencioso. As penas não paravam, mal dando tempo às mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas. Diziam-se frases sem se levantar os olhos da escrita, e as perguntas eram apenas respondidas por monossílabos.
A um canto, sobre uma mesinha sólida, entre uma das janelas e a parede, estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira pintada, a talha de filtro já enegrecida pelo uso. Pelas paredes, pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e cartas a responder. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada, abria-se uma janela para o negrume do armazém, sob uma clarabóia estreita, de pouca luz.
Era em um gabinete, ao lado, com uma janela para a rua e igual avareza de mobília, que o dono da casa escrevia a sua correspondência, bem repousado em uma larga cadeira de braços.
Ele ali estava, acabando de fechar uma carta.
Toda a sua pessoa ressumava fartura e a altivez de quem sai vitorioso de teimosa luta.
Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, com os olhos garços tranqüilos e os dentes
brancos e pequeninos, tinha um belo ar de burguês satisfeito.
Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos seus passos pesados.
Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a que ele respondia com paciência, indicando claramente as coisas, com minúcias, para evitar confusões.
Francisco Teodoro, à sua larga secretária de peroba, dava a face para o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas. Tinha ele por hábito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta e gorda o dinheiro e as chaves guardadas no bolso direito das calças. No começo da sua vida, dura de trabalho e de áspera economia aquilo seria feito com intenção; agora representava um ato maquinal, alheio a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse.
Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava primeiro ao escritório, servindo depois os empregados do armazém.
Os degraus já gastos da escada rangiam então ao peso de um comissário vizinho, o João Ramos, e do ensacador Lemos, da rua dos Beneditinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Inocêncio Braga, recentemente associado ao grupo. As duas horas reuniam-se sempre ali para o cafezinho, descansando o corpo e desanuviando o espírito com palestras de seu interesse e do seu gosto.
Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes apareceram.
Francisco Teodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as calças.
– Homem! vocês tardaram…
– Culpa do Lemos…
E depois:
– O senhor está com a casa repleta!
– Tenho exportado muito café!
– Felizardo! aproveite a época, que não pode ser melhor!
Corria então o ano de 1891 em que o preço do café assumira proporções extraordinárias. O movimento crescia e casas pequenas galgavam aos saltos grandes posições.
– O que eu te invejo, disse o Ramos, único que ousava tratar Teodoro por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engoma as camisas!
Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa, que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos.
– Não é má essa, regougou o Lemos, o comendador Lemos, da Beneficiência, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que nem de criança.
Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do Inocêncio, perguntando a Teodoro:
– Aqui seu vizinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o outro, hem?
– Homem, sempre é verdade aquilo?!
– Se é!… tenho provas… Afinal, eu inspirei-o um pouco no negócio…
Fixaram todos a vista no Inocêncio Braga. Era um homem pequenino, magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quase imperceptível.
– Custa-me a crer nesses milagres… ponderou Teodoro, pousando a xícara na bandeja que o Isidoro oferecia.
– Afirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazém e esperou a ocasião. O sogro ajudou-o, está claro…
– Não meditou nas conseqüências que poderiam sobrevir se desse uma baixa.
– Quem fala em baixa?! Eu só lhe digo que o comércio do Rio de Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquele. Senhores, a audácia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus antepassados analfabetos. O negociante moderno age mais com o espírito do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas nobres do pensamento e do cálculo. O Torres é de bom estofo; é destes. Conheço os homens.
Olhavam. todos para o Inocêncio com um certo respeito, reconhecendo-lhe superioridade
intelectual.
– O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos.
E logo o Inocêncio acrescentou:
– Também aquele está destinado a ser o nosso Rottschild!
Teodoro contraiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais hábil, o mais forte fora
sempre o seu sonho…
Voltando-se, inquiriu dos outros explicações miúdas acerca daquele negócio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e ele meditava no assunto, alisando a barba grisalha, rente às faces gordas e macias.
O Negreiros, tendo dado volta à sala e enfiado pela porta do escritório o seu enorme nariz de cavalete, virou-se para os outros e disse a meia voz:
– Que diabo! não posso acostumar-me a ver aquele velho como ajudante de guarda-livros!
– Que quer você? murmurou Teodoro; o Matos empenhou. se por ele e afinal a aquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá boa conta do recado não penso em substituído.
É assíduo.
– Outro esquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o Joaquim… ninguém dirá que é o mesmo, lá fora…
– Muito carnavalesco e metido com as damas, hem? Que se divirta, aqui trabalha como nenhum.
É uma praça de arromba: descansa-me.
– Ouvi dizer que ele vai casar com a Delfina do Recreio…
– Histórias! o rapaz é sério.
– Tolo é que ele não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéu.
O Inocêncio despediu-se também; ia num pulo ao Torres. Os afazeres eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café.
Quando ele saiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O comendador Lemos sentenciou:
– Este Inocêncio é espertalhão! Está aqui, está diretor do banco. Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por ele… Tem uma lábia!
– E sabe encostar-se a boas árvores. O Barros tem-lhe dado boas comissões e não é à-toa que ele procura tanto agora o Torres… Mete-se sempre na melhor roda… Aquele não veio de Portugal como nós, sem bagagem e cheirando a pau de pinheiro; trouxe luvas e meias de seda… O patife!
– São os que naufragam…
– Quando não vêm à caça e não têm o jeitinho que este revela. Canta que nem um pássaro, para atrair a gente!
– E uma inteligência superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas as mãos o colete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se no sofazinho austríaco, teve uma ponta de censura para as coisas desta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado. a cidade infecta.
Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadência nem ritmo, lembrarase da maneira por que os soldados da sua pátria andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metais mais polidos, os passos iguaizinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo mais aqui, o mesmo relaxamento.
A maldita República acabaria de escangalhar o resto. Veriam.
Só no fim perguntaram pelas famílias.
– A propósito, perguntou o Ramos a Teodoro, aquela menina que vai tocar violino no concerto
dos pobres é sua filha?
– Que concerto?
– De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal…
– Pode ser… são coisas lá da mãe… a pequena tem um talentão; o próprio mestre espanta-se.
– E bonita! vi-a um destes dias, observou o Lemos.
– Não, isso não! por enquanto ainda não se pode comparar com a mãe… protestou Francisco Teodoro, com sinceridade e um certo orgulho.
Os outros sorriram.
– Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo!
Houve uma pausa.
– Realmente, insistiu Francisco Teodoro, o Gama Torres deu um cheque valente. Pois olhem, eu não dava nada por ele: um brasileirinho magro…
– E começou outro dia!
– De mais a mais, parecia acanhado… tímido…
– Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, ali do Leite Bastos. Foi sempre um atirado; ali está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou razão ao Inocêncio; aquele está talhado para ser o nosso Rottschild…
– Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada trêmula e um brilho de cobiça nos olhinhos pardos, eu quis fazer o mesmo negócio e lá o meu sócio é medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar… Está aí!
– Fez bem, foi prudente! Deixem lá falar o Inocêncio. Senhores, o comércio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu sistema, observou Teodoro.
– Sim, o Inocêncio aprecia isto de fora, por isso diz o contrário. Chama o comércio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.
– Porco?! bradaram os outros, indignados.
– Porco, confirmou o Ramos com solenidade.
– Tudo mais aceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o Lemos, o anafado.
Ramos sentiu saltar-lhe na língua esta resposta: “porque os animais da mesma espécie não se devoram entre si”. Ele confessava-se seduzido pelas exposições de Inocêncio. Que talento!
– Mas, afinal de contas, que quer o Inocêncio?! perguntou Teodoro de pé, cruzando os braços
sobre o fustão alvo do colete.
– Queria… pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida, maiores transações, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo.
Não o ouviu?
– Com que diabo quereria ele que trabalhássemos?
– Com a inteligência. Está claro. E ele explicou a coisa bem. O nosso comércio é formado por gente sem escola, vinda de arraiais… Eu por mim, confesso, mal tive uns meses magros de colégio! Apanhei muito e não aprendi nada.
Houve um curto silêncio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa visão de uma escola rudimentar, em um recanto plácido de aldeia.
Depois de um suspiro, Teodoro concluiu:
– Que venham para cá os doutores com teorias e modernismos, e veremos o tombo que isto leva!
Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos eles um soberano desprezo pelas classes intelectuais. Dai um sorrizinho de expressiva intenção.
Mais um pouco de palestra sobre câmbio, transações da bolsa e assuntos lidos no Jornal do Comércio do dia encheram um quarto de hora, que passou depressa. Por fim saíram, falando alto, dizendo que aquela casa cheirava a dinheiro.
Francisco Teodoro foi dar o seu giro pelo armazém. Vendo-o em baixo, seu Joaquim acudiu logo, limpando com a língua o bigode molhado de café, a dar informações.
– Estamos esperando o café do Simas.
O caminhão já está ai perto, mas ficou entalado entre os carroções do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquele armazém tem engolido.
– Já sei disso… bem. Mandou as contas para cima?
O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu: – sim, senhor; depois gritou para o fundo:
– Seu Ribas!
O Ribas cruzou-se com Francisco Teodoro, que seguiu até a área, a ver ensacar o café.
A gente do armazém tinha quizília à do escritório: fazia valer os seus serviços, deprimindo os alheios. Seu Joaquim considerava-se o melhor empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigências. Os caixeiros temiam-no; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que ele não perdoava.
O velho Mota, ajudante de guarda-livros, ainda era o único que lhe dispensava amabilidades e cortesias; mas, mesmo nisso, seu Joaquim lia uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha, que mirrava os seus trinta anos em um sobradinho da rua Funda.
Francisco Teodoro demorou-se um bocado na área vendo ensacar. Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena triste, de africanos. Era mais bonito.
As pás iam e vinham cantando, num compasso bem ritmado, sempre seguido da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E ainda acham que as coisas se alteram devagar!
Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na atmosfera carregada mal se podia respirar. Francisco Teodoro voltou. O caminhão estava já à porta e os carregadores andavam nas suas corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a freguesia, acrescentando para o estimular:
– Agora mesmo venho ali do seu vizinho, o Gama Torres, que me tem mandado lá para o
trapiche um número assombroso de sacas!
O movimento do armazém interrompia-os de instante a instante. Francisco Teodoro mal respondia, com as idéias desviadas para outro sentido.
Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe falava com elogio e pasmo. Aquele está destinado a ser o primeiro homem da praça dissera-lhe o Inocêncio, e o Inocêncio era homem de bom faro e de êxito seguro em todas as suas previsões… Mas esse papel, de financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fora o ideal de toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria justo que o outro, de um pulo, erigisse edifício mais alto e glorioso do que o seu, cimentado com lágrimas, com sacrifícios, com tantos anos de esforço e de labor?
Francisco Teodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a mão frouxamente, e subiu para o escritório. Na escada encontrou o mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão.
– Cuidado!… não me tirem as teias de aranha do armazém…
– Não, senhor! Eu bem sei que aquilo dá felicidade…
Francisco Teodoro deteve-se um momento no escritório e entrou depois para o seu gabinete.
Fora, o sol avermelhava as fachadas feias e desiguais das casas fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça, guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um hálito ardente de verão bafejava toda a rua febril.
Os armazéns, pelas bocas negras das suas portas escancaradas, vomitavam ainda sacas e sacas de café, que as locomotoras e as carroças levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó, que espalhavam no ar cintilação de ouro.

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*Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (1862 – 1934) foi uma escritora e abolicionista brasileira.

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Livro das donas e donzelas

por Júlia Lopes de Almeida*

Minhas amigas

Mês das cigarras e das flores de flamboyant, como diria Fradique Mendes se tivesse de datar em Dezembro uma carta no Rio de Janeiro. Prescindo, como ele, da enumeração do dia. Datas são algarismos sem forças para fazer sentir o violento azul do nosso céu, nem os ramalhões purpurinos das nossas árvores, nem este chiar incessante das cigarras entontecidas de luz, anunciando o calor.

Este lindo mês, em que o ano morre engalanado de cores e de sons, obriga-nos a volver o olhar para o passado, numa inquirição pensativa e saudosa… e logo a querer sondar o futuro impenetrável com a frouxa luz de uma esperança. Nada se descortina bem, visto de longe; e é melhor assim…

O que torna a vida encantadora é o imprevisto; e a prova é que ninguém desejaria recomeçá-la da mesma forma porque a já viveu; nem creio mesmo que, se tal milagre se pudesse cumprir, houvesse alguém, por mais venturosa que lhe houvesse corrido a curta vida, que tivesse coragem de a recomeçar!

Cerre alguém os olhos, pense, siga o curso da sua existência, e ficará convencido de que só alguns dias lhe mereceram o desejo de serem revividos. Dias? Nada mais que momentos, de inolvidável doçura…

Para a gente moça o maior encanto da vida está no que há de vir, no que se ignora; para que transpõe o cabo dos quarenta, está no presente, que passa ligeiro, ligeiro, como a corrente de um rio caudaloso…

Minhas boas amigas, donas e donzelas, velhas e meninas, perdi o endereço de algumas de vós; outras… rezemos-lhes por alma, estão mortas; de sorte que esta carta, de incerta direção, pretende ir até as portas do céu, na ondulação do acaso e da saudade.

Nós, as mulheres, não temos sempre facilidade de bem exprimir os sentimentos por palavras; eles parecem-nos por demais sutis e complexos; elas insuficientes e fraquíssimas. Dizem que há para todas as coisas expressões precisas, de inquestionável exatidão; a língua modula no som, e inalterada, a essência da mais rara alegria ou do mais terrível desespero. Mas essa é a interpretação dos fortes; a nossa dilui-se, numa gota incolor e inodora, que é como um chuvisqueiro em uma rosa, se nasce da alegria; ou, se vem da dor, como um floco de neve em uma brasa, que apaga a luz e deixa a nu o carvão.

Lembranças de amizade não são como lembranças de amor, que pungem e deliciam; têm outra suavidade, um perfume indistinto, e por isso são mais difíceis de descriminar nas meias tintas do passado; todavia, quanta comoção elas nos trazem na sua nevoenta aparição!

Minhas amigas de outros tempos, supondo que eu enfeixo as graças e virtudes de vós todas em uma só figura, que podereis chamar de Mocidade, ou de Primavera, como vos aprouver.

Para ser suprema a sua formosura ela terá os teus doces olhos azuis, tão cedo fechados, Elvira; e o teu riso alegre, Maria Laura; e a tua voz, Janan; e a tua bondade adorável, Marie; e as linhas do teu corpo, Alice; e a doçura da tua tez, Carlota! Terá da negra Josefa, tão triste por não ser branca, a branca inocência; e de vós todas, com que topei na minha infância, a garrula alegria e a trêfega imaginação.

Não sacudo a uma esfinge o meu lenço saudoso, mas a uma figura tangível, feita de perfeições e que permanece, imutável e risonha, no horizonte que me foge.

De algumas de vós não sei, amigas da meninice; outras vieram depois, na idade das confidências, e ainda hoje eu sinto o calor de simpatias moças que vem vindo como aves anunciadoras do bom tempo, para me dizerem que floresce ainda na Terra a sagrada planta da amizade.

Entre todas, não sois vós, amigas desconhecidas e minhas leitoras, cujo influxo tantas vezes me alento, a quem menos se lança o meu pensamento de mulher, num desejo de felicidade perfeita…

*

* *

Nesta noite, uma das últimas do fim do ano, que de lembranças suaves me esvoaçam pelo espírito!

Crede, esta carta é um desabafo. Não só vós, minhas queridas, voltejais na minha memória, como nas rondas do colégio; há outros amigos adorados, invisíveis, de poderosa influência, a que me lanço com significativa gratidão: – os autores. O primeiro livro lido; as páginas mais vezes relidas; as músicas que melhor interpretei; os versos que me fizeram estremecer ou sonhar; singulares sensibilidades, acordadas por estranhos que amei como amo o sol que me aquece, ou a flor que me inebria, – tudo renasce e passa pelo meu pensamento, numa irradiação puríssima, de devaneio…

Nestas horas vertiginosas e perturbadoras reconheço todos os meus sonhos e desejos antigos, roçando por mim as suas asas, com tanto arrojo abertas e tão cedo enfraquecidas…

Mas isso que vos importa?

Valerá pena pensar no tempo que passou, bem ou mal?

O ano em que parte da nossa vida discorreu, acaba? Deixa-a acabar! O outro que vier terá as mesmas quatro estações; o sol inflamará a terra no verão, o vento fará cair as folhas no outono, as neves caracterizarão o inverno, e as boninas esmaltarão os campos na primavera…

Assim como o tempo, fosco ou luminoso, os homens serão maus ou serão bons e a vida fará o seu giro imperturbável, desfazendo e criando entre declínios e triunfos.

Para o mundo será assim, mas para nós, queridas?

Para ler na íntegra, clique aqui.

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*Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (1862 – 1934) foi uma escritora e abolicionista brasileira.