A minha avó

por Auta de Souza*
Minh’alma vai cantar, alma sagrada!
Raio de sol dos meus primeiros dias…
Gota de luz nas regiões sombrias
De minha vida triste e amargurada.
Minh’alma vai cantar, velhinha amada!
Rio onde correm minhas alegrias…
Anjo bendito que me refugias
Nas tuas asas contra a sina irada!
Minh’alma vai cantar… Transforma o seio
N’um cofre santo de carícias cheio,
Para este livro todo o meu tesouro…
Eu quero vê-lo, em desejada calma,
No rico santuário de tu’alma…
– Hóstia guardada n’um cibório de ouro!
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* Auta de Souza (1876 – 1901) foi uma poetisa brasileira da segunda geração romântica (ultrarromântica, byroniana ou Mal do Século), autora de Horto. Escrevia poemas românticos com alguma influência simbolista, e de alto valor estético. Segundo Luís da Câmara Cascudo, é “a maior poetisa mística do Brasil”.

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A chalga do meu coração

por Roberta AR

Um dia cheguei no trabalho contando de um show do Varukers que tinha assistido no Conic (quem é de Brasília sabe que esta sempre foi uma quadra underground, um pouco menos agora que começa a ser gentrificada por hipsters, lojas de vinis e coisas do tipo). Uma colega, assustada, me disse que nunca me imaginaria num show punk, que eu tinha cara de quem gostava de Vanessa da Mata. Acho que são meus cabelos cacheados e o fato de eu ser de humanas que dão essa impressão de que eu gosto de nova mpb (ainda chamam assim?).

Mas minha vida musical nunca foi assim só underground, tem os pop que me tocam fundo, sempre gostei de Robertão (chorei horrores nos dois shows que fui) e David Bowie é ainda um grande amor da minha vida.

Quando conheci meu companheiro, nossa primeira conversa foi sobre Rammstein, ainda morro de inveja que ele foi num show e eu não. Ficamos juntos num show do Gangrena Gasosa. Tudo caminhava para sermos um casal camisa preta, quando, num belo dia, o Pedro me apresenta Azis, que conheceu nas zueiras de internet, ele é de uma geração depois da minha e conhece coisas que eu demoro um pouco mais para ter contato.

E a primeira coisa que vi do Azis foi o clipe de Hop. É difícil descrever a sensação que tive enquanto ouvia e via. Uma empolgação, comecei a rebolar discretamente na cadeira (estava no trabalho, com meus melhores amigos, os fones de ouvido), mas por dentro me senti numa noitada nA Lôca*. Vou tentar descrever aqui o que vi e ouvi.

Azis é um cantor pop da Bulgária. Ele canta chalga, que mistura ritmos tradicionais búlgaros com batidas eletrônicas, considerado brega no leste europeu. É muito popular, o vídeo de Hop, na página da Diapason Records do youtube, tem mais de doze milhões de visualizações. A primeira imagem que vemos, é uma casa de madeira coberta de neve, corata para a foice e martelo, símbolo do comunismo, num fundo preto, seguida de uma animação com o nome da música em letras brancas HOP, até agora ao som de uma sanfona, ou algum instrumento tradicional. E aí a diversão começa.

Damos de cara com o Azis ricamente maquiado em um ofurô, rodeado de lindos homens seminus numa sauna, cantando “Lover, lover / Fucker, fucker / Lover” e depois entra o trecho em búlgaro. Imagens de um dançarino folclórico se alternam com a sauna e closes de Azis em roupas mínimas, cheias de lantejoulas.


(clique e veja o clipe de Hop)

Seus hits são contagiantes, outra música que recomendo para quem quiser conhecer é Sen Trope, que, na página azisofficialmusic, tem mais de três milhões e meio de acessos.

Seu visual andrógino exageradamente elaborado pode parecer de alguém fútil, mas ele é uma personalidade política importante na Bulgária, se casou com um, agora, ex-companheiro com quem tem uma filha e não teve sua união reconhecida no país, foi vice líder do Euroma, partido ultraliberal búlgaro, e luta pela visibilidade e direito dos ciganos na Europa.

Vi poucas coisas em português sobre ele nas minhas pesquisas, mas sei que tem uma geração que o conhece por essas bandas, muito pela zueira, mas alguns foram curtindo de verdade. Apresentei para uma colega de trabalho que ficou simplesmente alucinada por ele, com planos de ir para a Bulgária e tudo e eu ainda nem sei o quanto tinha de brincadeira ou verdade nessa história toda.

Mas Azis é pra isso tudo mesmo. Delícia demais!

*boate de São Paulo

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Texto originalmente publicado do Chupa Manga Zine #3

Ilustrações de Julie de Graag

por Julie de Graag*

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Boerderij in de Sneeuw, 1918
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Zwemmende Eend, 1917
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Varken, 1917
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Eend, 1917

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Kale boom in Landschap, 1919
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Voor Elsje, 1916
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Kop van een Hond, 1920
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Twee Kinderschoentjes, 1921
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Spin in Web, 1918
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Boerenschuur, 1919
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Twee Uilen, 1921
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Bloem in Rozet, 1920
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Boerderij in de Sneeuw, 1920
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De Knop van een Zonnebloem, 1917

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*Anna Julia “Julie”de Graag (1877 – 1924) foi uma artista gráfica holandesa, ilustradora e pintora.

Paisagens de Ida Gisiko-Spärck

por Ida Gisiko-Spärck*

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Coastal Landscape with Cabbage Field, Onningeby, Aaland, 1890
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Blommande Fruktträd (Blossoming Trees), 1889
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Sommarlandskap, 1892
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Blommande Träd, 1890
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Flicka Vallande Gäss vid Kustväg, s.d.
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Kustlandskap, Skagen, 1893 (?)
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I Väntan på Stranden, Blidö, s.d.
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Sommaräng vid Havet, 1889
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Kvinna med Parasoll på en Bro, 1887
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Strandbild från Skagen, 1893

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* Ida Emma Charlotta Gisiko-Spärck (1859-1940) foi uma pintora sueca que se tornou membro da colônia de artistas Önningeby nas Ilhas Åland. Ela é lembrada por suas paisagens em óleos.

Facada no Além do Muro

Anote na agenda! Em 26/8, sábado, acontece o 40º Além do Muro (ADM), um dos maiores encontros de jogos de tabuleiro de São Paulo. Promovido bimestralmente em Jundiaí, reúne jogadores de várias partes do interior paulista.

O Facada X é um dos patrocinadores do evento e traz uma novidade: o próximo ADM terá um convidado especial Jack Explicador, do Canal Meeple Maniacs, um pioneiro na produção de vídeos de regras e gameplays sobre boardgames.

JACK no ADM

A ação é uma parceria dos organizadores do ADM com All The Things, Arcano Games, BG Express, Facada x, Flick Game Studio, Kronos Games e Redbox Editora.

Relembre da nossa cobertura sobre o ADM de fevereiro!

E aí? Vamos nos encontrar lá?

Mais informações: Além do Muro

Acho que ele me chamou

por Roberta AR

Acho que ele me chamou de novo. Será que foi ele? Vou lá olhar. Está dormindo, deve ter sonhado algo. Tão bonito assim, dando risadinha sonhando.

Estou cansada, não consigo falar frases compostas mais. O pensamento não acompanha. Nunca mais uma noite com mais de cinco horas de sono consecutivas. E essas cinco horas são raras, bem raras.

Eu gosto de dormir, preciso, isso me deixa meio paranoica, isso de não dormir decentemente. Aliás, me deixa mais paranoica. Mas me dá uma satisfação ver que estou dando conta, que está crescendo saudável, fisicamente, emocionalmente, mentalmente.

Ele acorda e me chama, angustiado porque está crescendo e isso é difícil. Tentamos deixar as coisas mais fáceis para ele, mesmo que sejam pesadas para a gente, mas isso não tem nada a ver com ele.

Ah, sim, a paranoia. Eu sinto medo do abandono o tempo todo. Sinto que ele vai ser abandonado quando chora, mas não por mim, é um abandono ancestral, o que eu sinto. O abandono que eu mesma sofri. “É melhor ter pais ausentes do que nenhum”, diz a pessoa que não tem ideia do que está falando.

Eu tinha sonhos estranhos quando era criança, desde muito pequena. Um dia sonhei que uma equipe de agentes federais invadia a minha casa e me dizia que aqueles não eram meus pais, mas robôs disfarçados que me roubaram. E que iam me levar para casa, finalmente. Acordava sobressaltada, uma alegria que se dissipava assim que eu percebia que era só sonho. E foram vários do tipo, com variações dos sequestradores, que eram alienígenas, agentes soviéticos (ah, os filmes americanos…).

Uma vez sonhei que estava no quintal, era uma noite muito fria, daquelas que dava geada na madrugada, o céu bem limpo e eu pedia ajuda para alguém, qualquer um, e o vira-lata, aquela paródia do super homem que em inglês chama underdog, descia e me resgatava. A sensação de estar voando para longe, qualquer lugar, era maravilhosa. Ainda lembro direitinho.

Hoje, aqui, em casa, sinto o sobressalto do abandono quando olho para ele pequeno dormindo na cama. Medo de que ele sinta isso. Será que meu afeto basta? Será que tem afeto em mim? Sinto que secaram minha fonte lá atrás, me deixaram seca de afeto, mas sei, e isso é diferente de sentir, que não é assim. O que falta, falta para mim e daquelas pessoas. A mãe que está em mim é meio capenga e está fazendo tudo surgir do zero, reflexivamente, racionalmente, deixando brotar algo que alimente a si mesma também.

É uma oportunidade de cicatrizar, sinto que estamos nesse caminho, mas não sem ficar uma quelóide ou algo assim que poderia ilustrar o que sinto.

E ainda tem que proteger das cobranças emocionais de relações tóxicas o tempo todo, da chantagem de quem acha que afeto é um direito e não algo a ser cultivado com respeito e cuidado. Ter que ser a vilã num mundo que não está nem aí para a saúde emocional e mental de ninguém. Tem gente realmente interessada em desequilibrar a vida alheia e assistir a tudo desabando. Eu sei que isso vem de quem está em sofrimento profundo, o que torna tudo ainda mais difícil.

Quanto tempo desde que ele me chamou? Cinco minutos? Será que consigo relaxar e dormir agora ou será mais quanto tempo pensando nisso tudo de novo e de novo? Amanhã tem que lavar aquela roupa, o texto que estou devendo…

Ah, Onde Estou

por Álvaro de Campos*

Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser…

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* Álvaro de Campos é um heterônimo do poeta português Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e da Literatura Universal.