A Tragédia da Emancipação Feminina

por Emma Goldman*

Começo com uma confissão: independentemente de todas as teorias políticas e econômicas, tratando-se das diferenças fundamentais entre os vários grupos dentro da raça humana, independentemente das distinções de classe e raça, independentemente de todas as linhas divisórias artificiais entre os direitos da mulher e os direitos do homem, acredito que há um ponto onde essas diferenças podem-se encontrar e crescer num todo perfeito.

Com isto não pretendo propor um tratado de paz. O antagonismo social que hoje tomou conta de toda a nossa vida pública, é provocado pela força de interesses opostos e contraditórios, e desmoronar-se-á quando a reorganização da nossa vida social, baseada em princípios de justiça económica, se tiver tornado realidade.

A paz e harmonia entre sexos e indivíduos não depende, necessariamente, de uma igualização superficial dos seres humanos, nem pede a eliminação dos traços e peculiaridades individuais. O problema com que actualmente somos confrontados e que está por resolver num futuro próximo é como sermos nós mesmos e, ainda assim, estarmos em união com os outros, sentirmo-nos profundamente com todos os seres humanos e manter ainda assim as nossas características próprias. Isto parece-me ser a base sobre a qual a massa e o individuo, o verdadeiro democrata e a verdadeira individualidade, homem e mulher, podem encontrar-se sem antagonismo e oposição. O mote não deveria ser: “Perdoem-se uns aos outros” mas sim “Compreendam-se uns aos outros”. A frequentemente citada afirmação de Madame de Staël: “Entender tudo significa perdoar tudo” nunca me atraiu particularmente, tem o odor da confissão, perdoar um semelhante transmite a ideia de uma superioridade hipócrita. Entender as necessidades do nosso semelhante. A admissão representa, em parte, o aspecto fundamental da minha opinião sobre a emancipação da mulher e os seus efeitos sobre todo o género.

A emancipação deveria tornar possível à mulher ser um ser humano no seu verdadeiro sentido. Tudo o que dentro dela anseia por afirmação e actividade deveria atingir a sua expressão mais completa, todas as barreiras artificiais deveriam ser quebradas e o caminho em direcção a uma maior liberdade liberto de qualquer traço de séculos de submissão e escravidão.

Tal era o objectivo original do movimento para a emancipação da mulher. Mas os resultados até agora alcançados têm isolado a mulher e roubaram-na da nascente da felicidade que lhe é tão essencial. Uma emancipação meramente externa fez da mulher moderna um ser artificial, que lembra um dos produtos da arboricultura francesa com as suas árvores e arbustos arabescos, pirâmides, rodas e grinaldas; tudo excepto as formas que poderiam ser alcançadas através da expressão das suas qualidades interiores. Estas plantas de crescimento artificial do sexo feminino são encontradas em grande número, especialmente na chamada esfera intelectual da nossa vida.

Liberdade e igualdade para a mulher! Que esperanças e aspirações foram acordadas por estas palavras quando foram proclamadas pela primeira vez por algumas das almas mais nobres e corajosas dos nossos dias. O sol, em todo o seu brilho e esplendor, deveria erguer-se sobre um novo mundo; nesse mundo a mulher deveria ser livre para traçar o seu próprio destino – um objectivo certamente digno do maior entusiasmo, coragem, perseverança e esforço incessante por parte da tremenda série de pioneiros, homens e mulheres, que apostaram tudo contra um mundo de preconceito e ignorância.

As minhas esperanças também se movem ao encontro desse objectivo, mas sustento que a emancipação da mulher, tal como interpretada e, praticamente, aplicada hoje não conseguiu alcançar o seu grande fim. Agora, a mulher é confrontada com a necessidade de se emancipar da emancipação caso aspire a ser realmente livre. Isto poderá parecer paradoxal mas é, apesar disso, apenas verdadeiro.

O que é que ela conseguiu com a sua emancipação? Igualdade de sufrágio em alguns Estados. Terá isso purificado a nossa vida política, como muitos bem-intencionados defensores previam? Certamente não. Aliás, é chegado o tempo das pessoas com uma capacidade nula de julgamento deixarem de falar sobre a corrupção na política num tom de colégio interno. A corrupção na política não tem nada a ver com a moral ou com a frouxidão da moral de várias personalidades da política. A sua causa é tão só formal. A política é o reflexo do mundo industrial e de negócios cujo mote é: “Tirar é mais abençoado do que dar”; “compra barato para vender caro”; “uma mão suja lava a outra”. Não há esperança que, mesmo a mulher, com o seudireito ao voto, alguma vez venha a purificar a política.

A emancipação trouxe à mulher a igualdade económica relativamente ao homem, isto é, ela pode escolher a sua própria profissão mas, como o treino físico que obteve no passado e no presente não a equiparam com a força necessária a competir com o homem, ela é muitas vezes compelida a esgotar toda a sua energia, utilizar toda a sua vitalidade e envidar todos os esforços para alcançar o valor de mercado. Muito poucas o conseguiram, sendo um facto que às mulheres professoras, médicas, advogadas, arquitectas ou engenheiras não lhes é atribuída a mesma confiança que aos seus colegas homens, nem a mesma remuneração. E aquelas que alcançaram essa igualdade sedutora geralmente conseguiram-no à custa do seu corpo e do seu bem-estar físico. No que toca à grande massa de raparigas e mulheres trabalhadoras, que independência é ganha se a estreiteza e falta de liberdade do lar é substituído pela estreiteza e falta de liberdade da fábrica, da loja ou do escritório? Adicionalmente, há o fardo colocado em cima de muitas mulheres de cuidar do “lar, doce lar” – frio, triste, desordenado, pouco convidativo – após um árduo dia de trabalho. Gloriosa independência! Não é de admirar que centenas de raparigas estejam dispostas a aceitar a primeira proposta de casamento, cansadasda sua “independência” atrás do balcão, da máquina de costura ou de escrever. Elas estão tão preparadas para casar como as raparigas de classe média, que anseiam por deitar fora o jugo da supremacia parental. A chamada independência, que leva a ganhar apenas o suficiente para a mera subsistência não é tão atraente ou ideal para esperarmos da mulher que sacrifique tudo por ela. A nossa tão elogiada independência é, apesar de tudo, um lento processo para enfadar e sufocar a natureza da mulher, o seu instinto amoroso e maternal.

No entanto, a posição da rapariga trabalhadora é muito mais natural e humana do que a da sua irmã aparentemente mais afortunada nas esferas profissionais mais cultivadas de professores, médicos, advogados, engenheiros, etc., que têm de ter uma aparência digna e adequada, enquanto a sua vida interior cresce vazia e morta.

O limite da concepção existente da independência e emancipação da mulher, o pavor do amor por um homem que não é seu igual socialmente; o receio de que o amor a roube da sua liberdade e independência, o horror de que o amor ou a alegria da maternidade apenas venham a atrapalhá-la no pleno exercício da sua profissão – tudo isto junto fez da mulher moderna emancipada obrigatoriamente uma virgem, diante de quem a vida, com as suas grandes e clarificadoras tristezas e as suas profundas e extasiantes alegrias, vai rolando sem nunca tocar ou agarrar a sua alma.

A emancipação, como é entendida pela maioria dos seus aderentes e expoentes, é demasiado curta para permitir o amor sem limites e o êxtase contido nas emoções profundas da verdadeira mulher, amante ou mãe em liberdade.

A tragédia da mulher auto-suficiente ou economicamente livre não está nas muitas, mas sim nas muito poucas experiências. É verdade que ela ultrapassa a sua irmã das gerações passadas em conhecimento do mundo e da natureza humana, e é apenas por causa disto que ela sente profundamente a falta da sua essência vital que, sozinha, pode enriquecer a alma humana e sem a qual a maioria das mulheres se tornaram meras autómatas profissionais.

Que tenhamos chegado a tal estado foi previsto por aqueles que se aperceberam que, no domínio da ética, permaneciam muitas ruínas decadentes dos tempos da indiscutível superioridade do homem, ruínas que são ainda consideradas úteis. E, o que é mais importante, uma boa parte das emancipadas não se consegue dar bem sem elas. Cada movimento que visa a destruição das instituições existentes e a consequente substituição por algo mais avançado, mais perfeito, tem seguidoras que, em teoria, representam as ideias mais radicais mas que, no entanto, no seu dia-a-dia, são como o Filisteu médio, fingindo respeitabilidade e clamando pela opinião positiva dos seus adversários. Existem, por exemplo, socialistas e até anarquistas, que defendem a ideia de que a propriedade é um roubo mas que, apesar disso, ficarão indignadas se alguém lhes ficar a dever o valor de meia dúzia de alfinetes.

Os mesmos Filisteus podem ser encontrados no movimento pela emancipação da mulher. Jornalistas de pasquim e literatos banais imaginaram mulheres emancipadas que deixam os cabelos em pé de qualquer bom cidadão. Todos os membros do movimento pelos direitos das mulheres foram pintados como uma George Sand, no seu absoluto desprezo pela moralidade. Nada era sagrado para ela. Ela não tinha qualquer respeito pela relação ideal entre homem e mulher. Resumidamente, a emancipação serviu apenas para uma vida imprudente de luxúria e pecado, indiferente à sociedade, religião e moralidade. As expoentes dos direitos da mulher ficaram altamente indignadas com tal deturpação e, na falta de sentido de humor, gastaram toda a sua energia para provar que não eram, de todo, tão más quanto consideradas, mas sim o oposto. Claro que, enquanto a mulher permaneceu escrava do homem, ela não poderia ser boa ou pura mas, agora que é livre e independente, irá provar quão boa pode ser e que a sua influência terá um efeito purificador em todas as instituições da sociedade. É verdade, o movimento pelos direitos da mulher quebrou muitos dos antigos grilhões mas também forjou muitos outros. O grande movimento da verdadeira emancipação não se cruzou com um grande número de mulheres que poderiam olhar a liberdade de frente. A sua visão curta e puritana baniu o homem da sua vida emocional enquanto perturbador e de carácter duvidoso. O homem não deveria ser tolerado a nenhum preço a não ser, talvez, enquanto pai da criança, sendo que dificilmente a criança viria à vida sem um pai. Felizmente, as puritanas mais implacáveis nunca terão força suficiente para matar o desejo inato pela maternidade. Mas a liberdade da mulher está estritamente ligada à liberdade do homem e, muitas das minhas irmãs consideradas emancipadas, parecem ignorar o facto de que uma criança nascida em liberdade precisa do amor e devoção de cada ser humano, homem e mulher. Infelizmente, foi a concepção limitada das relações humanas que trouxe esta grande tragédia para a vida do homem e da mulher modernos.

Há cerca de quinze anos atrás apareceu um trabalho pela mão da brilhante norueguesa Laura Marholm chamado “Mulher, um Estudo de Carácter”. Ela foi uma das primeiras a chamar a atenção para o quanto a concepção existente de emancipação da mulher é vazia e limitada e o seu efeito trágico sobre a vida privada da mulher. No seu trabalho, Laura Marholm fala no destino de várias mulheres talentosas e de fama internacional: a genial Eleonora Duse; a grande matemática e escritora Sonya Kovalevskaia; a artista e poetisa Marie Bashkirtzeff que morreu bastante cedo. Em cada descrição da vida destas mulheres de extraordinária mentalidade corre um trilho marcado pelo desejo não alcançado de uma vida cheia, completa e bonita, e o resultado insatisfatório e solitário da falta da mesma. Através destes esboços psicológicos magistrais não podemos deixar de reparar que, quão maior é o desenvolvimento mental da mulher, menos possível é conhecer um companheiro à altura que veja nela, não apenas sexo, mas também o ser humano, a amiga, a camarada e individualidade forte, que não pode nem deve perder qualquer um dos seus traços de caracter.

O homem médio, com a sua auto-suficiência, os seus ares ridiculamente superiores de patronato para com o sexo feminino, é uma impossibilidade para a mulher descrita no Estudo de Caracteres por Laura Marholm. Igualmente impossível para ela é o homem que não vê nada mais nada para além da sua mentalidade e génio, e que falha em despertar a sua natureza feminina.

Um intelecto rico e uma alma pura são atributos geralmente considerados necessários numa personalidade bonita e profunda. No caso da mulher moderna, esses atributos servem como impedimento para a completa afirmação do seu ser. Durante mais de cem anos a antiga forma de casamento baseado na Bíblia, “até que a morte nos separe”, foi denunciada como uma instituição que apoia a soberania do homem sobre a mulher, a completa submissão desta às vontades e comandos dele e a absoluta dependência ao seu nome e sustento. Uma e outra vez ficou provado que a antiga relação matrimonial restringe a mulher à função de serva do homem e portadora dos seus filhos. E, ainda assim, encontramos muitas mulheres emancipadas que preferem o casamento com todas as suas deficiências a uma vida restritiva sem ele: restrita e insuportável devido às amarras de preconceito moral e social que acorrentam a sua natureza.

A explicação de tamanha inconsistência por parte de tantas mulheres modernas encontra-se no facto destas nunca terem verdadeiramente entendido o significado da emancipação. Elas acreditavam que tudo aquilo que é preciso é a independência das tiranias externas; os tiranos internos, muito mais prejudiciais à vida e ao crescimento – convenções éticas e sociais – foram deixados de lado; e assim a sua preponderância cresceu. Eles parecem dar-se tão bem nas cabeças e corações dos expoentes mais activos da emancipação da mulher, como se deram nas cabeças e corações das nossas avós.

Estes tiranos internos, quer sejam na forma de opinião pública ou daquilo que a mãe, o irmão, o pai, o tio, ou um parente qualquer poderá dizer; o que a senhora Grundy, o senhor Comstock, o empregado, ou o conselho directivo da escola possam dizer? Todos estes intrometidos, detectives morais, carcereiros do espírito humano, o que dirão eles? Até que a mulher aprenda a desafiá-los a todos, a manter-se firme no seu próprio terreno e insistir na sua própria liberdade sem restrições, a ouvir a voz da sua natureza, quer esta clame pelo grande tesouro da vida, o amor por um homem, ou pelo seu privilégio mais glorioso, o direito a dar à luz uma criança, não se poderá considerar emancipada. Quantas mulheres emancipadas são suficientemente corajosas para reconhecer que a voz do amor está a chamar, a bater violentamente nos seus peitos, exigindo ser ouvida, ser satisfeita.

O escritor francês Jean Reibrach, num dos seus romances, New Beauty, tenta representar a mulher ideal, bonita e emancipada. Este ideal é personificado numa rapariga jovem, uma médica. Ela fala muito sabiamente em como alimentar crianças, é bondosa e administra medicamentos de forma gratuita a mães pobres. Ela conversa com um jovem que conhece sobre as condições sanitárias do futuro e em como os vários bacilos e germes serão exterminados pelo uso de paredes e pisos em pedra e pelo fim da utilização de tapetes e cortinas. É, naturalmente, muito prática a vestir-se, maioritariamente de negro. O jovem, que no seu primeiro encontro ficou intimidado pela sabedoria da sua amiga emancipada, gradualmente aprende a compreendê-la e, um belo dia, reconhece que a ama. Eles são jovens, ela é gentil e bonita e, embora sempre em trajes rígidos, a sua aparência é suavizada por um colarinho e punhos impecavelmente limpos e brancos. Seria de esperar que ele admitisse o seu amor, mas ele não é de cometer absurdos românticos. A poesia e o entusiasmo do amor escondem as suas faces ruborescentes perante a beleza pura da senhora. Ele silencia a voz da sua natureza e permanece correcto. Também ela é sempre exacta, sempre racional, sempre bem comportada. Temo que, caso eles tivessem formado uma união, o jovem teria arriscado morrer congelado. Confesso que não consigo ver nada de bonito nesta nova beleza que é tão fria quanto as paredes e pisos com que ela sonha. Prefiro antes ter as canções de amor de eras românticas, antes o Don Juan e a Madame Vénus, antes uma fuga em noite de luar por uma escada ou corda, seguida da maldição do pai, os lamentos da mãe e os comentários moralistas dos vizinhos, que a adequação e correcção medidas a metro. Se o amor não sabe como dar e receber sem restrições então não é amor, mas antes uma transacção que nunca cessa de insistir num mais e num menos.

O maior defeito da emancipação nos dias que correm reside na sua rigidez artificial e nas suas estritas respeitabilidades, que produzem um vazio na alma da mulher que não lhe permite beber da fonte da vida. Uma vez comentei que parece existir uma maior e mais profunda ligação entre a mãe e a dona de casa à antiga, sempre em alerta relativamente à felicidade dos seus pequenos e ao conforto daqueles que ama, e a verdadeira nova mulher, do que entre esta e a sua irmã emancipada comum. As discípulas da emancipação pura e simples declararam-me como uma pagã que mereceria a fogueira. O seu zelo cego não lhes permite ver que a minha comparação entre o velho e o novo era meramente para provar que boa parte das nossas avós tinha mais sangue a correr-lhes nas veias, muito mais humor e perspicácia, e claramente uma dose muito maior de naturalidade, bondade e simplicidade, do que a maior parte das nossas mulheres profissionais emancipadas que enchem as faculdades, salas de ensino e escritórios vários. Isto não significa um desejo de regresso ao passado, nem condena a mulher à sua esfera antiga, a cozinha e o berçário.

A salvação reside numa marcha enérgica rumo a um futuro mais brilhante e mais claro. Estamos a necessitar de um crescimento sem entraves para fora das tradições e hábitos antigos. O movimento para a emancipação da mulher apenas deu, até agora, o primeiro passo nesse sentido. É desejável que reúna forças para dar mais um. O direito ao voto ou direitos civis iguais podem ser boas exigências, mas a verdadeira emancipação não começa nem nas urnas nem nos tribunais. Começa na alma da mulher. A História diz-nos que todas as classes oprimidas conquistaram a verdadeira libertação dos seus senhores através dos seus próprios esforços. É necessário que a mulher aprenda esta lição, que perceba que a sua liberdade chegará tão longe quanto o seu esforço para a conseguir. Assim, é muito mais importante para ela começar com a sua regeneração interior, libertar-se do peso dos preconceitos, tradições e costumes. A exigência por direitos iguais em todas as vocações da vida é justa e razoável mas, afinal de contas, o direito mais vital é o direito de amar e ser amada. De facto, se a emancipação parcial se transformar numa emancipação verdadeira e completa, terá de acabar com a ridícula noção de que ser amada, ser amante e mãe é sinónimo de ser escrava ou subordinada. Terá de acabar com a ideia absurda da dualidade de sexos, ou de que homem e mulher representam dois mundos antagónicos. A pequenez separa, a amplitude une. Sejamos abertas e grandes. Não vamos menosprezar o que importa devido a todas aquelas pequenas coisas com que nos confrontamos. Uma verdadeira concepção da relação entre os sexos não vai admitir conquistador e conquistado, conhece apenas e tão só uma grande coisa: dar de si mesmo sem limites a fim de se encontrar a si mesmo mais rico, mais profundo, melhor. Tal, por si só, pode preencher o vazio e transformar a tragédia da emancipação da mulher em alegria, uma alegria sem fim.

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*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

O Fracasso do cristianismo

por Emma Goldman*

Os falsificadores e envenenadores de ideias, na tentativa de obscurecer o limite entre a verdade e a falsidade, acham um valioso aliado no conservadorismo da linguagem.

Concepções e palavras que há muito perderam seu significado original continuam, por séculos, a dominar o gênero humano. Especialmente se estas concepções se tornarão um lugar comum,se elas foram incutidas em osso ser desde nossa infância como grandes e irrefutáveis verdades. As mentes comuns são facilmente contentadas com coisas herdadas e adquiridas ou como que dita os pais e professores, porque é muito mais fácil imitar do que criar.

Nossa era deu à luz dois gigantes intelectuais que empreenderam uma transvaloração dos valores sociais e morais mortos do passado, especialmente aqueles contidos no cristianismo. Friedrich Nietzsche e Max Stirner lançaram sobro contra os portais do cristianismo, porque viram nele uma moralidade escravizante perniciosa, a negação da vida, o destruidor de todos os elementos que compõem a força e o Caráter. Enfim, Nietzsche opôs-se á ideia da moralidade escravizante inerente ao cristianismo em favor de uma moral de mestre para poucos privilegiados. Mas eu arrisco sugerir que a ideia de mestre não teve nada a ver com a vulgaridade de categoria, casta ou riqueza. Ao contrario, ela significa a potência nas possibilidades humanas, a tradições e valores exauridos,de forma que ela possa aprender a se tornar o criador de coisas novas e belas.

Nietzsche e Stirner viram no cristianismo o nivelador do gênero humano, o destruidor do desejo do homem de ousar e fazer. Eles viram em todo movimento construído sob ética e a moralidade cristã tentativas não de emancipação da escravidão, mas de sua perpetuação. Consequentemente eles se opuseram a estes movimentos com toda força.

Quer concorde ou não completamente com estes iconoclastas, eu acredito, como eles,que o cristianismo é admiravelmente adaptado para o treinamento de escravos, para a perpetuação de uma sociedade de escravos; em resumo, para as mesmas condições que confrontamos hoje. Na verdade, nunca poderia uma sociedade ter se degenerado a essa apavorante fase atual, se não pela ajuda do cristianismo. Os governadores da terra perceberam há muito tempo o poderoso veneno inerente à religião cristã. Essa é a razão porque eles a nutrem; esse é o motivo porque eles não deixam nada por fazer para incutir isso no sangue das pessoas. Eles sabem mito bem que o mais penetrante dos ensinamentos cristãos é uma mais poderosa proteção contra a rebelião e o descontentamento do que a ordem ou a arma.

Sem dívida ou diria que, apesar da religião ser um veneno e o cristianismo institucionalizado o maior inimigo do progresso e da liberdade, há algum bem no cristianismo “ele mesmo”. Sobre os ensinamentos de Cristo e do cristianismo primitivo eu poderia ser questionada: eles não representam o espírito da humanidade, do direito e da justiça?

É justamente essa afirmação frequente essa afirmação frequentemente repetida que me induziu a escolher este assunto, me permitiu demonstrar que os abusos do cristianismo, assim como os do governo, são condicionados por si mesmos, e não devem ser transferidos aos representantes do credo. Cristo e seus ensinamentos são a inércia, da negação da vida, consequentemente, é responsável pelas coisas feitas em seu nome.

Eu não estou interessado no Cristo teológico. Mentes brilhantes como Bauer, Strauss, Renan, Thomas Paine, e outros refutaram esse mito há muito tempo. Eu estou até mesmo pronta a admitir que o Cristo teológico não representa nem a metade do perigo que Cristo ético e social. Na proporção em que a ciência toma o lugar da fé cega, a teologia perde sua influência. Mas o Cristo-mito ético e poético está tão fartamente presente em nossas vidas que até mesmo algumas das mentes mais avançadas acham difícil se emancipar de seu jugo. Eles livram-se das epístolas, mas retém o espírito; contudo é o espírito que está por trás de todos os crimes e horrores cometidos pelo cristianismo ortodoxo. Os padres da igreja podem se ar ao luxo de bem orar o evangelho de cristo. Ele não contém nada de perigo para o regime da autoridade e da riqueza; ele representa abnegação, penitência e arrependimento, e é absolutamente inerte frente a toda (in)dignidade, a toda afronta ao gênero humano.

Aqui eu devo voltar aos falsificadores de e palavras. Muitos sérios opositores da escravidão e da injustiça confundem da maneira mais infeliz, os ensinamentos de Cristo com as grandes lutas para emancipação social e econômica. Os dois serão sempre irrevogavelmente opostos um ao outro. Um necessita coragem, ousadia, desafio e força. O outro prega o evangélico da não resistência, da aquiescência servil do desejo dos outros; é o descuido completo do caráter e da autoconfiança, é, portanto, o destruidor da liberdade e do bem estar. Quem anseia sinceramente por uma mudança radical as sociedade, quem se esforça para livrar a humanidade do açoite da dependência e da miséria, tem que dar as costas ao cristianismo, tanto ao antigo como também á sua forma presente.

Em todos os lugares e sempre, desde seu mais remoto passado o cristianismo transformou a terra em um vale de lagrimas; sempre fez da vida uma coisa fraca, doente, sempre instalou medo no homem e o transformou em um ser dual cujas energias de vida são gastas na luta entre o corpo e a alma. Depreciando o corpo com algo mal, a carne como tentadora para tudo o que é pecado, o homem tem multilado seu ser na tentativa vã de manter sua alma pura, enquanto seu corpo apodrece longe das injúrias e torturas infligidas sobre ela.

A moralidade e a religião cristã exaltam a gloria do além-vida, no entanto permanecem indiferentes aos horrores na terra.

Realmente, a ideia de abnegação e de tudo aquilo que traz dor e tristeza é o teste do valor humano, é seu passaporte para entrar no céu.

O pobre é possuidor do céu e o rico irá ser para o inferno. Isso talvez explique os esforços desesperados do rico fazer feno enquanto o sol brilha, de tirar o Maximo que podem da terra: nadar em riqueza e superfluidade, apertar os grilhões dos escravos abençoados, os roubar dos direitos inatos, os degradar e ultrajar todos os minutos do dia. Quem Poe culpar os ricos se eles se vingam-se através do pobre, se agora é o tempo deles e só o deus cristão misericordioso sabe como o rico esta fazendo isso de forma completa e competente.

E o pobre? Eles agarram-se à promessa do céu cristão, como a casa para os velhos, o sanatório para os corpos incapacitados e mentes fracas. Eles suportam e se submetem, eles sofrem e esperam, até que todo pedaço de seu auto-respeito seja banido, até seus corpos se tornarem-se magros e murchos, e o espírito destroçado pela espera, a infinita pelo céu cristão.

Cristo fez a sua aparição como líder do povo, o redentor dos judeus do domínio romano, mas no momento em que ele começou seu trabalho, provou que não tinha nenhum interesse na terra, nas necessidades imediatas urgentes dos pobres e deserdados do seu tempo. O que ele pregou foi um misticismo sentimental e obscuro, ideias confusas carentes de originalidades e vigor.

Quando os judeus, de acordo como os evangélicos se retirarão de Jesus, quando eles o levaram para crus, podem talvez ter se desapontado amargamente com quem os prometeu tanto e lhes deu tão pouco. Ele prometeu alegria e felicidade em outro mundo enquanto as pessoas estavam passando fome, sofrendo e padecendo diante dos seus próprios olhos. Pode ser, talvez, que a condolência dos romanos, especialmente de Pilatos, tenha sido dada a Cristo porque eles o considerarão como perfeitamente inofensivo ao seu poder e dominação. O filósofo Pilatos pode ter considerado as “verdades” eternas de Cristo como anêmicas e sem vida se comparadas ao aparato de força que eles tentaram combater. Os romanos, fortes como eles eram, devem ter rido à custas do homem que falava arrependida e pacientemente, em vez de chamar seu povo a se armar contra seus despojadores e opressores.

A carreira pública de Cristo começa com o édito: “arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”.

Por que se arrepender, por que lamentar, em face de algo que supostamente trazia libertação? As pessoas já não sofreram e suportaram o bastante: elas não tinham ganhado o direito à libertação pelo seu sofrimento? Pegue o Sermão da Montanha, por exemplo. O que é senão um elogio à submissão ao destino, à inevitabilidade as coisas?

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”.

O céu deve ter um lugar muito estúpido e triste se os pobres de espírito vivem lá. Como pode qualquer coisa criativa, qualquer coisa vital, útil e bonita vir dos pobres de espírito? A ideia contida o Sermão da Montanha é a maior acusação contra os ensinos de Cristo, porque ele vê a pobreza da mente e do corpo uma virtude, e porque busca manter esta virtude através e recompensa e castigo. Todo ser inteligente percebe que nossa pior maldição é a pobreza do espírito; que isso é o produtor de todo mal e miséria, de toda injustiça e crimes no mundo. Toda pessoa sabe que nada bom jamais veio ou pode vir do pobre de espírito; com certeza, nunca liberdade, justiça ou igualdade.

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”.

Que noção ridícula! Que incentivo à escravidão, inatividade e parasitismo! Além disso, não é verdade que o submisso possa herdar qualquer coisa. Só porque a humanidade foi submissa é que a terra lhe foi roubada.

Mansidão tem sido o chicote que o capitalismo e os governos têm usado para forçar o homem á dependência, na sua posição de escravo. Os criados mais fies do estado, da riqueza, dos privilégios conveniente que Cristo, o “redentor” dos povos.

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”.

Mas o Cristo excluiu a possibilidade de justiça quando disse “os pobres sempre os tendes convosco”? Mas então cristo era grande em pronunciamentos, não importa se o que ele dizia fossem coisas completamente opostas uma à outra Isto é demonstrado tão notavelmente no comando “daí a Césas o que é de César, e a deus o que é de deus”.

Os intérpretes afirmam que Cristo teve que fazer estas concessões aos poderes de seu tempo. Se isso é verdade, este simples compromisso foi suficiente para atestar, até os dias de hoje, a mais impiedosa arma nas mãos do opressor, uma horrível chicotada e um inexorável coletor de imposto para o empobrecimento, a escravização e a degradação das mesmas pessoas por quem Cristo supostamente morreu. E quando nós estamos seguros que “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”, nos é dito “como”? Como? Cristo nunca se preocupou em explicar isso Justiça não vem das estrelas, nem porque Cristo a desejou. Justiça surge da Liberdade, de oportunidade e igualdade social e econômica. Mas como pode o manso e o pobre de espírito estabelecer tal estado de coisas?

“Bem-aventurados sois vós, quando injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus”.

A recompensa no céu é uma isca perpétua, uma isca que tem apanhado o homem em uma rede de ferro, numa camisa de força que não deixe expandir ou crescer. Todos pioneiros da verdade foram e ainda são ultrajados; todos pioneiros da verdade foram e ainda são ultrajados; eles foram, e ainda são perseguidos. Mas eles pediram para a humanidade pagar o preço? Eles buscaram subornar o gênero humano para aceitar suas ideias? Eles souberam muito bem aquele que trocará por uma oferta mais alta.

Bem e mal, castigo e recompensa, pecado e penitência, céu e inferno, é como o espírito móvel do Cristo- evangélico tem sido o empecilho na situação do mundo. Ele retém tudo através de ordens e comandos, mais ignora completamente as muitas coisas que nós mais precisamos.

O trabalhador que conhece a causa de sua miséria que entende a maquiagem de nosso sistema social e industrial injusto pode fazer mais, por si e pelos seus, que Cristo e seus seguidores já fizeram para a humanidade; certamente podem fazer mais do que paciência, ignorância e submissão.

Quanto mais exalto, mais benéfico é o individualismo extremo de Stirner e Nietzsche ao invés da atmosfera de confinamento de doentes da fé cristã. Se eles repudiam o altruísmo como um mal, é por causa do exemplo contido no cristianismo, que fixa um prêmio ao parasitismo e a inércia, que dá à luz a todas as formas de desordens sociais que serão curadas com a pregação de amor condolência.

Personalidades orgulhosas e autoconfiantes preferem o ódio que o tal adoecido amor artificial. Não é por causa de alguma recompensa que um espírito livre decide por uma grande verdade, nem é do tipo que se afugenta por medo de castigo.

“Não cuides que vim destruir a lei ou os profetas não vim ab-rogar, mais cumprir”.

Justamente, Cristo era um reformador, sempre pronto para remendar, cumprir, continuar a velha ordem das coisas; nunca destruir e reconstruir. Isso pode explicar a simpatia que todos reformadores têm por ele.

Realmente, toda a historia do estado, do capitalismo e da igreja prova que eles se perpetuaram por causa da ideia de que “ eu não vim destruir a lei”. Esta é a chave da autoridade e da opressão. Então, naturalmente, Cristo não elogiou a pobreza como uma virtude; ele propagou a não resistência ao mal? Por que a pobreza e o mal não poderiam continuar dominando o mundo?

Muitos como eu opostos a toda religião, muitos como eu acham-na uma imposição sobre e um crime contra a razão e o progresso. Eu, contudo, sinto que nenhuma outra religião tem feito ou ajudado tanto na escravização de homem como a religião de Cristo.

Testemunhe Cristo antes de seus acusadores. Que falta de dignidade, que falta de fé nele e nas suas próprias ideias! Tão fraco e impotente era este “salvador dos homens” que precisa que toda a família humana pague por ele, por toda a eternidade, porque ele “morreu por nós”. Redenção pela cruz é pior do que a danação, por causa do fardo terrível imposto sobre a humanidade, pelo efeito que tem na alma humana, acorrenta e paralisa com o peso do fardo cobrado pela morte de Cristo.

Milhares de mártires pereceram, contudo, algum sequer se demonstrou tão importante como o grande deus cristão. Milhares têm ido para a morte profunda nas suas ideias que Nazareno. Eles não esperam gratidão eterna dos seus próximos por causa do que eles suportaram por eles.

Comparado com Sócrates e Bruno, com os grandes Mártires da Rússia, com os anarquistas de Chicago, Francisco Ferrer e inumeráveis outros, Cristo terna-se uma figura realmente pobre. Comparado com a delicada e frágil Spiridonova, que sofreu as mais terríveis torturas, as indignidades mais horríveis, sem perder a fé em si mesma ou em sua causa, Jesus é uma verdadeira nulidade. Eles mantiveram-se firmes e encararam seus executores com firme determinação e, entretanto, eles, que também morreram pelas pessoas, não pediram nada em troca do seu grande sacrifício.

Na verdade, nós precisamos de redenção da escravidão, da fraqueza e da dependência humilhante da moralidade cristã.

Os ensinos de Cristo e dos seus seguidores falharam porque faltou a vitalidade para tirar o peso dos ombros da raça; eles falharam porque a essência daquela doutrina é contraria ao espírito de vida, exposto através as manifestações da natureza, a força e beleza da paixão.

Nunca poderá o cristianismo, debaixo de qualquer máscara que apareça – seja neoliberalismo, espiritualismo, ciência cristã, pensamento novo, ou mil e uma outras formas de histeria e neurastenia – trazer alívio da pressão terrível de condições, do peso, da pobreza, dos horrores de nosso sistema injusto. O cristianismo é a conspiração da ignorância contra a razão, da escuridão contra a luz, da submissão e escravidão contra a independência e a liberdade; a negação da força e da beleza, contra a afirmação da alegria e da glória da vida.

Texto em pdf no site anarkio.net.

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*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

O indivíduo, a sociedade e o estado

por Emma Goldman*

A dúvida reina no espírito dos homens, pois nossa civilização treme em suas bases. As instituições atuais não mais inspiram confiança e os mais inteligentes compreendem que a industrialização capitalista vai contra os próprios objetivos que diz perseguir.

O mundo não sabe como sair disso. O parlamentarismo e a democracia periclitam e alguns creem encontrar salvação optando pelo fascismo ou outras formas de governos “fortes”.

Do combate ideológico mundial sairão soluções para os problemas sociais urgentes que se apresentam atualmente: crises econômicas, desemprego, guerra, desarmamento, relações internacionais, etc. Ora, é dessas soluções que dependem o bem-estar do indivíduo e o destino da sociedade humana.

O Estado, o governo com suas funções e seus poderes, torna-se, assim, o centro de interesse do homem que raciocina. Os desenvolvimentos políticos que ocorreram em todas as nações civilizadas levam-nos a fazer essas perguntas: desejamos um governo forte? Devemos preferir a democracia e o parlamentarismo? O fascismo, sob uma ou outra forma, a ditadura, quer seja monárquica, burguesa ou do proletariado, oferecem soluções aos males ou às dificuldades que atormentam nossa sociedade?

Em outros termos, conseguiremos apagar as taras da democracia com a ajuda de um sistema ainda mais democrático, ou devemos cortar o nó górdio do governo popular com a espada da ditadura?

Minha resposta é: nem um, nem outro. Sou contra a ditadura e o fascismo, e oponho-me aos regimes parlamentares e às pretensas democracias populares.

É com razão que se falou do nazismo como de um ataque contra a civilização. A mesma coisa se poderia dizer de todas as formas de ditadura, opressão e coerção, pois o que é a civilização? Todo o progresso foi essencialmente marcado pela extensão das liberdades do indivíduo em detrimento da autoridade exterior, tanto no que concerne à sua existência física quanto à política ou econômica. No mundo físico, o homem progrediu até controlar as forças da natureza e utilizá-las em seu próprio proveito. O homem primitivo realiza seus primeiros passos na estrada do progresso quando logra produzir fogo, triunfando assim sobre o próprio homem, e reter vento e captar água.

Que papel a autoridade ou o governo desempenharam nesse esforço de melhoria, invenção e descoberta? Nenhum, ou melhor, nenhum positivo. É sempre o indivíduo quem realiza o milagre, geralmente a despeito das proibições, das perseguições e da intervenção da autoridade, tanto humana quanto divina.

Da mesma forma, no campo político, o progresso consiste em afastar-se cada vez mais da autoridade do chefe de tribo, de clã, do príncipe e do rei, do governo e do Estado. Economicamente, o progresso significa mais bem-estar para um número de pessoas incessantemente crescente. E, culturalmente, ele é o resultado de tudo o que se realiza algures: independência política, intelectual e psiquica cada vez maior.

Nessa perspectiva, os problemas de relação entre o homem e o Estado revestem uma significação completamente nova. Não é mais questão de saber se a ditadura é preferível à democracia, se o fascismo italiano é superior ou não ao hitlerismo. Uma questão muito mais vital se nos apresenta: o governo político, o Estado, é proveitoso para a humanidade? Qual é sua influência sobre o indivíduo?

O indivíduo é a verdadeira realidade da vida, um universo em si. Ele não existe em função do Estado, ou dessa abstração denominada “sociedade” ou “nação”, que não é senão um ajuntamento de indivíduos. O homem sempre foi e é – necessariamente – a única fonte, o único motor de evolução e progresso. A civilização é o resultado de um combate contínuo do indivíduo ou dos grupamentos de indivíduos contra o Estado, e até mesmo contra a “sociedade”, quer dizer, contra a maioria hipnotizada pelo Estado e submetida a seu culto. As maiores batalhas já travadas pelo homem foram contra obstáculos e prejuízos artificiais que ele próprio se impôs e que paralisam seu desenvolvimento. O pensamento humano sempre foi falseado pelas tradições, pelos costumes, pela educação enganadora e iníqua, dispensada para servir os interesses daqueles que detém o poder e gozam de privilégios; ou seja, pelo Estado e palas classes proprietárias. Esse conflito incessante dominou a história da humanidade.

Podemos dizer que a individualidade é a consciência do indivíduo de ser o que é, e de viver essa diferença. É um aspecto inerente a todo ser humano e um fator de dese volvimento. Estado e as instituições sociais fazem-se e desfazem-se, enquanto a individualidade permanece e persiste. A própria essência da individualidade é a expressão, o sentido da dignidade e da independência – eis seu terreno de predileção. A individualidade não é esse conjunto de reflexos impessoais e maquinais que o Estado considera como um “indivíduo”. O indivíduo não é apenas o resultado da hereditariedade e do meio, da causa e do efeito. É isso e muito mais. O homem vivo não pode ser definido: ele é fonte de a vida e de todos os valores; ele não é uma parte disso ou daquilo: é um todo, um todo individual, um todo que evolui e se desenvolve, mas que permanece, contudo, um todo constante.

A individualidade assim descrita nada tem em comum com as diversas concepções do individualismo e, sobretudo, com aquele que denominarei “individualismo de direita, à americana”, que é tão somente uma tentativa disfarçada de coagir e vencer o indivíduo em sua singularidade. Esse pretenso individualismo, que sugere fórmulas como “livre empresa”, “american way of life”, arrivismo e sociedade liberal, é o laisser-faire econômico e social: a exploração das massas pelas classes dominantes com a ajuda da velhacaria legal; a degradação espiritual e o doutrinamento sistemático do espírito servil, processo conhecido sob o nome de “educação”. Essa forma de “individualismo” corrompido e viciado, verdadeira camisa de força da individualidade, reduz a vida a uma corrida degradante aos bens materiais, ao prestígio social; sua sabedoria suprema exprime-se numa frase: “Cada um por sie maldito seja o último”.

Inevitavelmente, o “individualismo” de direita desemboca na escravidão moderna, nas distinções sociais aberrantes, e conduz milhões de pessoas à sopa dos pobres. Esse “individualismo” em questão é o dos senhores, enquanto que o povo é arregimentado numa casta de escravos para servir a um punhado de “super-homens” egocêntricos. Os Estados Unidos são, sem dúvida, o melhor exemplo dessa forma de individualismo, em nome do qual a tirania política e a opressão social são elevadas à posição de virtudes, enquanto que a menor aspiração, a menor tentativa de vida mais leve e mais digna será imediatamente considerada como antiamericanismo intolerável e condenada, sempre em nome desse mesmo individualismo.

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*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.