Casamento e amor

por Emma Goldman*

A noção popular em torno do casamento e do amor é a de que eles são sinônimos, que eles afloram das mesmas razões e preenchem as mesmas carências humanas. Como tantas outras noções populares, também esta não repousa em fatos concretos, mas sob superstições.

Casamento e amor não possuem nada em comum; estão tão apartados como pólos; e de fato, são antagônicos entre si. Sem dúvidas, certos casamentos são resultado do amor. Entretanto, não é porque o amor só se afirma em casamento; é antes porque poucas pessoas conseguem superar completamente uma convenção. Para um grande número de homens e mulheres hoje em dia, o casamento nada é senão uma farsa, mas a ele se submetem por amor à opinião pública. Em todo caso, enquanto é verdade que certos casamentos baseiam-se no amor e enquanto é igualmente verdade que certas vezes o amor continua durante a vida conjugal, eu sustento que isso se dá independentemente do casamento e não devido a ele.

Por outro lado, é completamente falso que um casamento possa resultar em amor. Um caso milagroso se faz ouvir, em raras ocasiões, de cônjuges se apaixonarem depois de já estarem casados, mas num exame minuncioso encontraremos aí um mero ajuste ao inevitável. Certamente a habituação mútua estará bem distante da espontaneidade, da intensidade e da beatitude do amor, sem os quais a intimidade do casamento se revelaria degradante para ambos homem e mulher.

O casamento é em primeiro lugar um arranjo econômico, um contrato de seguro. Só difere do contrato comum precisamente naquilo que este tem de mais compulsório, de mais exigente. Os retornos são insignificantemente pequenos se comparados ao investimento. Quando contratamos uma apólice de seguro, pagamos por ela em dólares e centavos, mas sempre nos resta a liberdade de descontinuar o pagamento. Contudo, se o prêmio do seguro for um marido, a mulher pagará por isso com o seu nome, com a sua privacidade, com a sua auto-estima e com sua própria vida “até que a morte os separe”. Além do que, o contrato do casamento a condena a uma dependência vitalícia, ao parasitismo, a completa inutilidade individual bem como social. O homem paga também a sua parte, mas como sua esfera é maior, o casamento não o limita tanto como à mulher. Ele sente suas correntes pesarem mais num sentido econômico.

E assim o mote do Inferno de Dante se aplica ao casamento com a mesma força. “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”.

Somente alguém coompletamente estúpido negaria que o casamento é um fracasso. Basta relancear a vista sobre as estatísticas do divórcio para compreender como é verdadeiramente amargo um casamento fracassado. Tampouco o argumento filisteu estereotipado, o da lassidão das leis do divórcio e o da crescente frouxidão da mulher, dará conta do fato de que: em primeiro, cada décimo segundo casamento termina em divórcio; segundo, que desde 1870 os divórcios cresceram de 28 para 73 a cada população de cem mil; terceiro, que o adultério, desde 1867, como causa do divórcio cresceu 280.7 por cento; quarto, que a deserção aumentou em 369.8 por cento.

Somado a estes números surpreendentes, há ainda um vasto material dramático e literário melhor elucidando o assunto. Robert Herrick, em Together; Pinero, em Mid-Channel; Eugene Walter, emPaid in Full, e dezenas de outros escritores estão discutindo a aridez, a monotonia, a sordidez, e a inadequação do casamento como fator de harmonia e entendimento.

O estudioso social sério não se contentará com a superficial desculpa popular para este fenômeno. Ele terá de escavar a vida mesma dos sexos profundamente adentro para conhecer o porque de o casamento revelar-se tão desastroso.

Edward Carpenter diz que, por detrás de todo casamento, persiste uma ambiência vitalícia dos dois sexos; ambiências tão diferentes entre si que homem e mulher permanecem estranhos. Separados por uma muralha intransponível de superstição, costume, e hábito, o casamento não tem a potencialidade de desenvolver o conhecimento e o respeito mútuo, sem o que toda união está destinada ao fracasso.

Henrik Ibsen, o inimigo de toda farsa social, foi provavelmente o primeiro a conceber esta grande verdade. Nora largou o marido, não porque – como queria a crítica estúpida – estaria cansada de suas responsabilidades ou sentia a necessidade dos direitos da mulher, mas porque veio saber que, durante oito anos convivera com um estranho e agora deu a luz a uma criança sua. Pode haver qualquer coisa de mais humilhante, de mais degradante do que a proximidade vitalícia entre dois estranhos? Não é preciso que a mulher conheça nada do homem, salvo sua renda. Quanto ao conhecimento da mulher – o que há para se conhecer exceto se ela possui uma boa aparência? Não superamos ainda o mito teológico de que a mulher não possui alma, que ela é meramente um apêndice do homem, feita de sua costela apenas para sua conveniência, este que de tão forte ficara com medo da própria sombra.

Porventura da má qualidade do material, donde a mulher tornou-se responsável por sua própria inferioridade. Em todo caso, mulher não tem alma – o que há para se conhecer nela? Além do que, quanto menos alma tem uma mulher, maior seu tino para esposa, o mais prontamente irá absorver-se ao marido. É essa servil aquiescência à superioridade do homem que manteve a instituição do casamento aparentemente intacta por um tempo tão longo. Mas agora que a mulher está vindo a si, agora que ela está cada vez mais consciente de si como um ser exterior à graça do mestre, a sagrada instituição do casamento gradualmente vai sendo minada, e nenhum bocado de lamentação sentimental poderá evitá-lo.

Quase que desde a infância, é dito às garotas comuns que o casamento é o seu objetivo final; portanto seu treino e sua educação têm de ser direcionados para esse fim. Como a besta muda na engorda, vai sendo preparada para o abate. Mas para ela, estranho dizer, é permitido conhecer muito menos sobre sua função como esposa e mãe do que para o artesão comum sobre seu ofício. Para uma garota respeitável, é indecente e imundo conhecer qualquer coisa da relação marital. Oh, pela incoerência da respeitabilidade, requerer votos de casamento para tornar algo imundo no mais puro e sagrado arranjo que ninguém ousa questionar ou criticar. Mas é exatamente esta a atitude do entusiasta comum do casamento. A futura esposa e mãe é mantida na mais completa ignorância em torno de sua única inclinação no campo competitivo — o sexo. E assim ela entra numa relação vitalícia com um homem para ver-se chocada, repelida e ultrajada além da medida por seu instinto mais saudável e natural, o sexo. É seguro dizer que uma grande percentagem da infelicidade, miséria, aflição e sofrimento físico do matrimônio se devem à ignorância criminosa em matéria de sexo que anda sendo exortada como uma grande virtude. Tampouco é de todo um exagero quando digo que devido a este fato deplorável, mais de um lar foi desfeito.

Entretanto, se a mulher for livre e grande o bastante para aprender sem a sanção do Estado ou da Igreja o mistério do sexo, será condenada como absolutamente imprópria para ser esposa de um “bom” homem, sua bondade consistindo de um cérebro vazio e uma carteira cheia. Poderia haver alguma coisa mais ultrajante do que a ideia de que uma mulher saudável, em plena idade, cheia de paixão e vida, ter de negar as exigências da natureza, ter de reprimir seu desejo mais intenso, minar sua saúde e quebrantar seu espírito, ter de aturdir sua visão e abster-se da profundidade e da glória da experiência do sexo, até que venha um “bom” homem para tomá-la como esposa? É precisamente isto o que significa o casamento. Como poderia um arranjo como este terminar exceto em fracasso? Este é apenas um fator, embora não o menos importante, que diferencia o casamento do amor.

A nossa era é prática. O tempo em que Romeu e Julieta arriscaram-se à fúria dos pais por amor, em que Gretchen expôs-se ao falatório dos vizinhos por amor, já era. Se, em raras ocasiões, pessoas jovens se permitem à luxúria do romance, em seguida os mais velhos cuidam para que, após pregados e martelados, se tornem “sensatos”.

A lição moral instilada na garota não é a de se o homem arrebatou o seu amor, mas: o “Quanto?”. O único Deus importante da vida prática americana: o homem consegue ganhar a vida? Consegue sustentar uma esposa? Esta é a única coisa que justifica o casamento. Gradualmente isto de todo satura o pensamento da garota; seus sonhos já não são de luares e beijos, risos e lágrimas; agora sonha em ir às compras e às boas pechinchas. Tal sordidez e pobreza da alma são elementos inerentes à instituição do casamento. O Estado e a Igreja aprovam esse ideal e não outro, simplesmente porque esse é o ideal que necessita que o Estado e a Igreja controle homens e mulheres.

Indubitavelmente há as pessoas que continuam considerando o amor superior a dólares e centavos. E isto é particularmente verdade para a classe daqueles cuja necessidade econômica forçou a que se auto-sustentassem. A tremenda mudança na posição da mulher operada por este poderoso fator é, de fato, fenomenal quando refletimos que há só um curto período desde o ingresso da mulher na arena industrial. Seis milhões de mulheres assalariadas; seis milhões de mulheres com direitos iguais aos homens de serem exploradas, roubadas, ir à greve, e ai, até mesmo de passar fome. Algo mais, my lord? Sim, seis milhões de trabalhadoras em todas as ocupações, desde o mais elevado trabalho intelectual até as minas e ferrovias, até mesmo detetives e policiais. Com certeza a emancipação está completa.

Apesar disso tudo, só um número muito pequeno do vasto exército das mulheres trabalhadoras enxerga o seu trabalho como situação permanente, na mesma luz que um homem o faz. Não importa quão decrépito seja este último, ele foi ensinado a ser independente, a se auto-sustentar. Oh, eu sei que ninguém é verdadeiramente independente em nossa moenda econômica; e mesmo o espécime mais miserável de homem odeia ser um parasita; ou, em todo caso, pelo menos ser reconhecido como tal.

A mulher considera transitória sua posição como trabalhadora, a ser deixada de lado pelo primeiro pretendente. É este o porque de ser infinitamente mais difícil organizar mulheres do que homens. “Porque devo me filiar a um sindicato? Vou me casar, ter um lar”. Ela desde a infância não foi ensinada a enxergar isso como sua convocação última? Ela aprende cedo o bastante que, apesar de não tão grande como a prisão de uma fábrica, o lar tem portões e grades ainda mais sólidas. Possui um guardião tão fiel que nada lhe pode escapar. A parte mais trágica, entretanto, é que o lar não a liberta da escravidão assalariada; apenas aumenta seus afazeres.

De acordo com as mais recentes estatísticas submetidas diante de um Comitê “em torno do trabalho, salários e congestão da população”, apenas em Nova York, dez por cento das trabalhadoras assalariadas são casadas, ainda que continuem no trabalho mais mal pago do mundo. Some a esta visão horrível o peso do serviço doméstico e o que resta da proteção e da glória do lar? Como matéria de fato, até a garota classe-média não pode falar sobre um lar seu no casamento, desde que é o homem que cria sua esfera. Não é importante se o marido é um bruto ou um doce. O que desejo provar é que o casamento só garante um lar à mulher pela graça do marido. Ela gira em torno do lar dele, ano após ano, até que sua visão de vida e de relações humanas se torne tão rasa, estreita, e tediosa, como seu entorno. Pouco admira se ela vir a ser resmungona, trivial, arengueira, faladeira, insuportável, e expulsando assim o homem da casa. Se ela quisesse, não poderia ir; não há lugar para onde ir. Além do que, um curto período de vida conjugal, de completa rendição de todas as faculdades, incapacita absolutamente a mulher comum para o mundo exterior. Ela se torna indiferente à aparência, desajeitada em seus movimentos, dependente em suas decisões, covarde em seu julgamento, um fardo e um aborrecimento, cuja maioria dos homens cresce para odiar e desprezar. Atmosfera maravilhosamente inspiradora para o desenrolar da vida, não?

Mas e a criança, como será protegida sem o casamento? Afinal de contas, não é esta a consideração mais importante a se fazer? A farsa, a hipocrisia! O casamento protegendo a criança, mas centenas de crianças abandonadas e sem lar. O casamento protegendo a criança, mas orfanatos e reformatórios lotados, a Sociedade pela Prevenção de Crueldade a Criança ocupadíssima resgatando as pequenas vítimas dos pais “amorosos”, para colocá-las sob cuidados ainda mais amorosos, como os da Gerry Society. Oh, mas que pilhéria!

Pode até ser que o casamento leve o cavalo até a água, mas conseguirá fazer com que a beba? A lei coloca o pai na detenção, veste-o com uniforme penitenciário; mas alguma vez matou a fome de seus filhos? Se o pai não tem emprego, ou se oculta sua identidade, o que faz então o casamento? Invoca a lei para levar o homem à “justiça”, colocá-lo em segurança atrás dos portões fechados; seu trabalho, no entanto, não vai para criança, mas para o Estado. A criança só recebe uma memória enferrujada das listras do pai.

Com relação à proteção da mulher — aí reside a verdadeira maldição do casamento. Ele não as protege em absoluto, e essa ideia mesma é tão revoltante quanto um ultraje e um insulto à vida, tamanha degradação ele promove à dignidade humana, que se declara para sempre esta instituição como parasitária.

Bem como aquele outro arranjo paternalista — o capitalismo. Rouba os direitos do homem, aturde seu crescimento, envenena seu corpo, o submete à ignorância, à pobreza, à dependência, e então vai e promove caridades que vingam sobre os últimos vestígios do autorrespeito humano.

A instituição do casamento faz da mulher uma parasita completa, uma dependente absoluta. Incapacita-a para a luta da vida, aniquila a sua consciência social, paralisa a sua imaginação, e então vai e concede sua graciosa proteção que na realidade é meramente uma armadilha, travestida de caráter humano.

Se a maternidade é a mais elevada realização da natureza da mulher, que outra proteção exigiria além de amor e liberdade? O casamento só contamina, ultraja, e corrompe esta realização. Não é ele que diz à mulher: somente darás à luz se me seguires? Não é ele que a degrada e a humilha quando ela se recusa a vender-se junto com seu direito à maternidade? Não é o casamento apenas uma sanção para a maternidade, até mesmo quando a criança é concebida por ódio, por compulsão? Mas quando a maternidade é fruto da livre escolha, do amor, do êxtase, da paixão desafiante, não é o casamento que vai e encrava uma coroa de espinhos numa cabeça inocente e grafa em letras de sangue o epíteto hediondo de Bastardo? Posto que o amor contivesse o casamento todas as virtudes alegadas, seus crimes contra a maternidade bastariam para excluí-lo eternamente do reino do amor.

Amor, o mais forte e mais profundo elemento de toda a vida, o anunciador da esperança, da alegria, do êxtase; amor, o desafiador de todas as leis, de todas as convenções; amor, o libérrimo, poderosíssimo modelador do destino humano; como pode uma força que a tudo compele ser sinônimo daquela pobre erva daninha gerada pela Igreja e o Estado, o casamento?

Amor livre? Como se o amor pudesse ser de outro modo que não livre! O homem comprou cérebros, mas todos os milhões de cérebros do mundo fracassaram em comprar o amor. O homem subjugou corpos, mas todo o poder na terra foi incapaz de subjugar o amor. O homem conquistou nações inteiras, mas todos os seus exércitos não conseguiram conquistar o amor. O homem agrilhoou e acorrentou e o espírito, mas é absolutamente indefeso diante do amor. Do alto dos tronos, com todo o esplendor e a pompa que o ouro pode comandar, o homem ainda é pobre e desolado se o amor não o perpassa. Mas quando o amor permanece, o casebre mais pobre irradia calor, cor e vida. E assim, o amor possui o poder mágico de tornar um mendigo em um rei. Sim, o amor é livre; não pode habitar outra atmosfera. Em liberdade se dá sem reservas, abundantemente, completamente. Todas as leis nos estatutos, todos os tribunais do universo, não podem arrancá-lo da terra, uma vez que o amor finque suas raízes. Entretanto, se o solo é estéril, como poderia o casamento fazê-lo fruir? Seria como a última luta desesperada da fugacidade da vida contra a morte.

O amor não precisa de proteção; ele é sua própria proteção. Tão logo vidas sejam geradas pelo amor, nenhuma criança é desertada, passa fome ou vontade de afeto. Que isto é verdade, eu o sei. Conheço mulheres que se tornaram mães em liberdade dos homens que amaram. Poucas crianças na relação aproveitam o cuidado, a proteção e a devoção que a maternidade livre é capaz de conceder.

Os defensores da autoridade temem o advento da maternidade livre, com receio de que ela roube suas vítimas. Quem combateria nas guerras? Quem geraria a riqueza? Quem faria o papel do policial, do carcereiro, se a mulher se recusasse à reprodução indiscriminada de crianças? A raça, a raça! – grita o rei, o presidente, o capitalista, o padre. A raça deve ser preservada, embora a mulher degradada à mera máquina reprodutora — e a instituição do casamento é a nossa única válvula de segurança contra o pernicioso despertar sexual da mulher. Mas em vão todos estes esforços frenéticos para perpetuar um estado de sujeição. Em vão, também todos os éditos da Igreja, o enlouquecido ataque dos governantes, em vão, até mesmo os braços da lei. A mulher já não quer mais tomar parte na reprodução de uma raça de seres humanos doentis, débeis, decrépitos, miseráveis, que não possuem nem a coragem nem a força moral para se libertarem de seus fardos de pobreza e escravidão. Pelo contrário, ela deseja ter poucas crianças, mas crianças superiores, geradas e criadas no amor e pela livre escolha; não por compulsão, como imputa o casamento. Nossos falsos-moralistas ainda têm de aprender o profundo senso de responsabilidade com a criança que o amor em liberdade despertou no seio da mulher. Seria melhor renunciar para sempre a glória da maternidade do que dar à luz numa atmosfera onde só se pode respirar destruição e morte. E se ela se torna mãe, é para dar à criança o mais profundo e o melhor que seu ser pode oferecer. Crescer com a criança é seu mote; e ela sabe que somente desse modo é que pode ajudar a construir a verdadeira masculinidade e feminilidade.

Ibsen deve ter vislumbrado uma mãe livre, quando, num golpe de mestre, retratou Ms. Alving. Ela foi uma mãe ideal por superar o casamento e todos os seus horrores, por romper suas correntes, e libertar o espírito para voar, até que uma personalidade, regenerada e forte, lhe retornasse. Ai! Foi demasiado tarde para recuperar sua alegria de viver, seu Oswald; mas não demasiado tarde para compreender que o amor em liberdade é a única condição para uma vida bela. Aquelas que, feito Ms. Alving, que pagaram com sangue e lágrimas por seu despertar espiritual, repudiam o casamento como uma imposição e uma pilhéria sem graça, de baixo nível. Elas sabem que apenas o amor, quer dure apenas um breve espaço de tempo ou dure pela eternidade, é a única base criativa, inspiradora e elevada para uma nova raça e para um novo mundo.

Em nosso presente estado pigmeu, para a maioria das pessoas, o amor é, de fato, um estranho. Incompreendido e evitado, raramente finca suas raízes, e quando o faz, tão logo seca e morre. Suas fibras delicadas não suportam o stress e a tensão do cotidiano maçante. Sua alma é complexa demais para ajustar-se à trama viscosa de nosso tecido social. O amor lamenta, sofre e chora por aqueles que dele precisam, mas carecem da capacidade de elevar-se aos seus cumes mais altos.

Um dia, um dia homens e mulheres se elevarão, eles alcançarão o pico da montanha, se encontrarão grandes e fortes e livres, prontos para receber, partilhar, e refestelar-se nos raios dourados do amor. Que fantasia, que imaginação, que gênio poético pode entrever, ainda que aproximadamente, as potencialidades de tal força na vida dos homens e mulheres. Se o mundo alguma vez dará à luz a verdadeira união e companheirismo, não será o casamento, mas o amor a concebê-lo.

Texto originalmente compartilhado por anarquistas.net neste link

.

*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

Minorias versus maiorias

por Emma Goldman*

Se eu fosse resumir a tendência de nossos tempo seu diria: quantidade. A multidão, o espírito de massa,domina tudo, destruindo a qualidade. Nossa vida toda —produção, políticas e educação —, baseia-se em quantidade, em números. O trabalhador, que antes se orgulhava da qualidade e da minúcia de seu trabalho, é substituído por autômatos incompetentes e descerebrados,que despejam enormes quantidades de coisas, sem qualquer valor para eles, e geralmente prejudiciais para o resto da humanidade. Deste modo, ao invés de trazer paz e conforto para a vida, a quantidade apenas ampliou o fardo do homem.

Na política, somente a quantidade importa. Proporcionalmente a esse aumento, porém, os princípios, os ideais, a justiça e a honradez são engolidos por um mar de números. Na luta pela supremacia, os vários partidos se superam em mentiras, fraudes, astúcias e tramas duvidosas, seguros de que, aquele que obtiver êxito será aclamado pela maioria como o vencedor. Este é seu único deus, — o Sucesso. Às expensas do quê? A qual terrível custo do caráter? Esse é o ponto crucial. Não é preciso ir muito longe para comprovar esse triste fato.

Nunca antes a corrupção, a completa podridão de nosso governo, se expôs tão claramente; jamais foi tão explícito ao povo americano o caráter pérfido do corpo político, o qual por anos reivindicou estar acima de qualquer acusação, ser a base de nossas instituições e o verdadeiro protetor dos direitos e liberdades do povo.

Contudo, quando os crimes deste grupo se tornaram tão descarados que até um cego poderia enxergá-los, foi preciso apenas que se convocassem seus agentes para assegurar a sua supremacia. Assim, as vítimas, enganadas, traídas e ultrajadas uma centena de vezes, se colocaram, não contra, mas a favor do vencedor. Perplexos, alguns questionaram: como a maioria pôde trair as tradições da liberdade americana? Qual o critério, qual a lógica? Mas é exatamente isso, a maioria não pode justificar, não há discernimento. Sem qualquer originalidade e valor moral, a maioria sempre colocou o seu destino nas mãos de outros. Incapazes de assumir responsabilidades, preferiram seguir seus líderes ainda que para a destruição. Dr. Stockmann estava certo: “Os inimigos mais perigosos da justiça e da verdade em nosso meio são as maiorias compactas, as malditas maiorias compactas.” Sem ambição ou iniciativa, a massa compacta odeia a inovação mais do que tudo. Sempre se opôs, condenou e desprezou qualquer um que inovasse, que sugerisse uma nova verdade.

O slogan mais repetido em nossos tempos, entre todos os políticos, incluindo os socialistas, é que vivemos numa era de individualismo, de minorias. Apenas aqueles que não se preocupam em sondar nada além da superfície, poderiam concordar com tal ideia. Não é na mão de poucos que está a riqueza do mundo? Não são eles os mestres, reis absolutos da situação? Seu sucesso, entretanto, não é devido ao individualismo, mas à inércia, à covardia, à absoluta submissão da massa. Esta quer ser dominada, liderada e coagida. Quanto ao individualismo, em nenhum momento da história da humanidade, este teve tão poucas chances e oportunidades de se expressar e se afirmar de maneira normal e saudável.

O educador individual permeado pela honestidade de seu propósito, o artista ou escritor de ideias originais, o explorador ou cientista independente, os pioneiros das mudanças sociais descomprometidas, são diariamente colocados na parede por aqueles cujo aprendizado e habilidades criativas foram definhando com o passar dos anos.

Educadores como Ferrer não são tolerados em parte alguma, enquanto que dietistas de comida pré-digerida, à la professores Eliot e Butler, são os bem-sucedidos perpetuadores de uma época de autômatos e nulidades. No mundo do drama e da literatura, Humphrey Wards e Clyde Fitches são os ídolos da massa, enquanto que apenas alguns apreciam ou conhecem a beleza e o gênio de Emerson, Thoreau, Whitman; um Ibsen, um Hauptmann ,um Butler Yeats, ou um Stephen Philips. Estes são como estrelas solitárias, para além do horizonte da multidão.

Editores, gerentes teatrais e críticos, não se perguntam sobre a qualidade inerente à arte, mas se terá uma boa vendagem. Servirá ao paladar do povo? Ah! Esse paladar é um depósito de lixo; saboreia-se qualquer coisa que não exija esforço mental. Como resultado, o medíocre, o banal, o lugar-comum estabelecem a maior parte da produção literária.

Preciso dizer que o mesmo ocorre com as artes plásticas? Basta observar os parques e vias públicas para perceber o horror e a vulgaridade da arte industrializada. Certamente somente o gosto da maioria poderia suportar tamanho insulto à arte. Falso em sua concepção e primitivo em sua execução, os monumentos que infestam as cidades americanas têm com a arte, a mesma relação de um totem com Michelangelo. Não obstante, é a única arte que tem algum reconhecimento. O verdadeiro gênio artístico, aquele que não sustenta as noções estabelecidas, que exercita sua originalidade e se preocupa em ser verdadeiro diante da vida, segue uma existência obscura e miserável. Talvez algum dia seu trabalho caia no gosto da multidão, mas não antes que se tenha esgotado o sangue em suas veias; que tenha cessado o seu espírito desbravador, e um amontoado de gente sem visão nem ideais tenha matado a herança do mestre.

Diz-se que o artista de hoje não pode criar pois é um Prometeu acorrentado à pedra da necessidade econômica. Isso, porém, sempre ocorreu em todas as épocas. Michelangelo era dependente de seu mecenas tanto quanto um pintor ou escultor hoje em dia. A diferença é que os peritos em arte daquela época estavam longe da massa confusa. Sentiam-se honrados em poder reverenciar o altar do mestre.

O mecenas de nosso tempo conhece apenas um critério, um valor, o dólar. Não está preocupado com a qualidade de nenhum grande trabalho, mas apenas na quantidade de dólares que sua transação pode lhe render. Assim, como o homem das finanças, em Les Affairessont les Affaires, de Mirbeau, aponta para alguns arranjos de cores borradas dizendo: “Veja como é maravilhoso; custa 50.000 francos.” Exatamente como nossos novos-ricos. As quantias exorbitantes que pagam por suas descobertas artísticas pretendem compensar a pobreza do seu gosto.

O pecado mais imperdoável na sociedade é a independência do pensamento. Que isso possa ser tão evidente em um país cujo símbolo é a democracia, é muito significativo do tremendo poder da maioria.

Wendell Phillips disse cinquenta anos atrás: “Em nosso país de absoluta igualdade democrática, a opinião pública não é somente onipotente, mas também onipresente. Não há refúgio para sua tirania, não há como se esconder de seus objetivos, e o resultado é que se for usada a velha lanterna grega para procurar entre a multidão, não se encontrará um só americano que não tenha, ou não tenha imaginado ao menos, algo a ganhar ou perder, seja em sua ambição, vida social, ou negócios, da boa opinião e dos votos daqueles ao seu redor. A consequência é que, ao invés de ser uma massa de indivíduos, em que cada um fala de suas convicções sem medo e sem hesitação, somos na verdade, uma massa de covardes se comparados a outras nações. Mais do que qualquer um, temos medo uns dos outros.” Evidentemente não avançamos muito longe desta condição enfrentada por Wendell Phillips.

Hoje, como antes, a opinião pública é o tirano onipresente; hoje, como antes, a maioria representa uma massa de covardes ansiosa para aceitar aquele que espelhe a miséria de sua própria mente e alma. Isso ex-plica a ascensão sem precedentes de um homem como Roosevelt. Ele encarna o pior elemento da psicologia do populacho. Como político, ele sabe que para a maioria pouco importam ideais ou integridade. O que ela exige é o espetáculo. Não importa se é uma exposição de cães, uma luta por prêmios, o linchamento de um “criolo”, o cerco a algum infrator insignificante, o casamento de alguma herdeira, ou as palhaçadas de algum ex-presidente. Quanto mais abominável a contorção mental, melhor o deleite e aplausos da massa. Assim, ainda que de pobres ideais e alma vulgar, Roosevelt continua a ser o homem da vez.

Por outro lado, os homens que se elevam sobre os pigmeus da política, homens de refinamento, cultura, habilidade são ridicularizados como efeminados e assim, silenciados. É absurdo dizer que a nossa é uma era de individualismo. A nossa é apenas a mais pura repetição de um fenômeno da história: todo esforço para o progresso, para o esclarecimento, para a ciência, para a religião, liberdade econômica e política, tudo isso emanada minoria, e não da massa. Hoje, como sempre, estes poucos são mal compreendidos, desprezados, aprisionados, torturados e mortos.

O princípio da fraternidade, exposto pelo agitador de Nazaré, preservou o germe da vida, de justiça e liberdade, enquanto este era o farol luminoso para uma minoria. No momento em que a maioria tomou posse, este grande princípio passou a ser uma senha e um estandarte de sangue e fogo, espalhando sofrimento e desastre. O ataque à onipotência de Roma, liderado pelas figuras colossais de Huss, Calvino e Lutero, foi, por um instante um raio de luz na escuridão. Mas tão logo Calvino e Lutero se tornaram políticos e começaram a abastecer os pequenos potentados, a nobreza e o espírito popular, comprometeram as grandes possibilidades de Reforma. Eles ganharam prestígio e conquistaram a maioria, mas esta maioria se mostrou tão ou mais cruel e sanguinária na perseguição do pensamento e da razão como fora o monstro Católico. Infortúnio dos hereges, da minoria que não se curvou às suas ordens. Após tanto empenho, resignação e sacrifício, a mente humana se vê, ao menos, livre do fantasma da religião; a minoria segue em busca de novas conquistas, enquanto a maioria se arrasta incapacitada pela verdade que se torna falsa com o tempo.

De uma perspectiva política, se não fosse por John Balls, Wat Tylers, os Tells e outros incontáveis indivíduos excepcionais, que brigaram passo a passo contra o poder dos reis e tiranos, a raça humana ainda estaria na mais absoluta escravidão. Se não fosse por estes desbravadores, o mundo não teria sentido o abalo da Revolução Francesa. Grandes acontecimentos são geralmente precedidos de coisas aparentemente pequenas. Desta forma, a eloquência e o fogo de Camille Desmoulins foi como a trombeta diante de Jericó, arrasando as terras que simbolizavam a tortura, o abuso e o horror: a Bastilha.

Sempre, em todos os tempos, as minorias foram responsáveis por sustentar uma grande ideia, de forças liberadoras. Por outro lado, as massas foram sempre o peso morto que não permitia o movimento. Na Rússia isso ficou mais claro que em qualquer outro lugar. Milhares de vidas foram consumidas por aquele regime sanguinário, e, no entanto, o monstro no trono ainda não ficou satisfeito. Como é possível que tal atrocidade aconteça quando as ideias, a cultura, a literatura, as emoções mais delicadas e profundas fervem em baixo de uma mão de ferro? A maioria, esta massa compacta, imóvel, adormecida, o campesinato Russo, após um século de lutas, de sacrifícios, de misérias inenarráveis, continua a acreditar que a corda que estrangula “o homem das mãos brancas” traz sorte.

Na luta americana pela liberdade, a maioria não foi nada mais do que um bloco hesitante. A partir daí as ideias de Jefferson, Patrick Henry, Thomas Paine, foram negadas e traídas pela posteridade. A massa não quer nada deles. A grandiosidade e coragem admiradas em Lincoln, foram esquecidas nos homens que criaram a base para o panorama daquele tempo. Os verdadeiros santos protetores dos negros estavam representados por alguns poucos guerreiros de Boston, por Lloyd Garrison, Wendell Phillips, Thoreau, Margaret Fuller e Theodore Parker, cuja coragem e vigor culminaram neste gigante sombrio que foi John Brown. Seu incansável cuidado, sua eloquência e perseveança abalaram a fortaleza dos senhores sulistas. Lincoln e seus partidários prosseguiram apenas quando a abolição já se tornara uma prática habitual.

Há mais ou menos 50 anos, uma ideia meteórica apareceu no horizonte social do mundo, uma ideia tão distante, tão revolucionária, e que foi acolhida por todos para terror dos tiranos em toda a parte. Por outro lado, a ideia era um anúncio de alegria, celebração e esperança para milhões. Seus precursores sabiam dos obstáculos de seu caminho, sabiam das resistências, perseguições, das dificuldades que enfrentariam, mas orgulhosos e destemidos, começaram sua marcha adiante, sempre adiante. Agora aquela ideia se tornou um mote popular. Quase todos são socialistas hoje: tanto o rico, quanto sua pobre vítima; os defensores da lei e da ordem, e seus criminosos desafortunados; os livre-pensadores, assim como os perpetuadores de mentiras religiosas; a senhora elegante, e a garota mal vestida. Por que não? Agora que a verdade de cinquenta anos atrás se tornou uma mentira, agora que foi apartada de sua vigorosa imaginação e despojada de seu entusiasmo, de sua força, de seu ideal revolucionário, por que não? Agora que não é mais uma bela visão, mas “um esquema prático e funcional”, pautado pela vontade da maioria, por quê não? As artimanhas políticas sempre fazem uma apologia à massa: a pobre maioria, ultrajada, violentada, a gigantesca maioria, se ao menos pudessem nos seguir.

Quem não ouviu esta ladainha antes? Quem não conhece este refrão repetitivo de todo político? Que a massa sofre, que vem sendo extorquida e explorada, isso eu conheço tanto quanto os engodos do voto. Mas insisto que não é um punhado de parasitas, e sim a própria massa que é responsável por esta situação horrível. Prendem-se aos seus mestres, amam a chibata, e são os primeiros a clamar Crucifiquem! no momento em que surge uma voz contra a sagrada autoridade capitalista ou qualquer outra instituição decadente. Não obstante, quanto tempo mais poderia se manter a autoridade e a propriedade privada, se não fossem a vontade e disposição da massa de se tornarem soldados, policiais, carcereiros e algozes. A demagogia socialista sabe disso tanto quanto eu, mas mantém o mito da virtude da maioria pois seu projeto de vida está fundado na perpetuação do poder. E como essa perpetuação pode ser alcançada sem números? Sim, autoridade, coerção e a dependência se pautam na massa, mas nunca na liberdade ou na livre determinação do indivíduo, nunca no nascimento de uma sociedade livre.

Não porque eu não sinta como os oprimidos, como os deserdados da terra; não porque não saiba a vergonha, o horror, a indignidade da vida levada pelo povo, que eu repudio a maioria como força criativa. Oh, não, não! Mas porque eu sei que a massa compacta nunca lutou por justiça e igualdade. Ela suprimiu a voz dos homens, subjugou o espírito humano, acorrentou o corpo humano.

Como massa, seu objetivo foi sempre uma vida mais uniforme, cinzenta e monótona, como o deserto. Como massa, será sempre o exterminador da individualidade, da livre iniciativa, da originalidade. Assim como Emerson, acredito que “as massas são grosseiras, coxas, perniciosas em suas demandas e influências, e não precisam ser elogiadas, mas educadas. Eu desejaria não ter que conceder nada a elas, mas ensinar, dividir, quebrá-las e transformá-las em indivíduos. Massas! A calamidade são as massas. Eu não desejo massa alguma, mas apenas homens honestos, e mulheres doces, amáveis e completas.”

Em outras palavras, a verdade viva e vital do bem-estar econômico e social só se tornará realidade diante o zelo, coragem, determinação sem obrigações, de minorias inteligentes, e não por meio da massa.

Texto originalmente compartilhado por anarquistas.net neste link

.

*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

A Tragédia da Emancipação Feminina

por Emma Goldman*

Começo com uma confissão: independentemente de todas as teorias políticas e econômicas, tratando-se das diferenças fundamentais entre os vários grupos dentro da raça humana, independentemente das distinções de classe e raça, independentemente de todas as linhas divisórias artificiais entre os direitos da mulher e os direitos do homem, acredito que há um ponto onde essas diferenças podem-se encontrar e crescer num todo perfeito.

Com isto não pretendo propor um tratado de paz. O antagonismo social que hoje tomou conta de toda a nossa vida pública, é provocado pela força de interesses opostos e contraditórios, e desmoronar-se-á quando a reorganização da nossa vida social, baseada em princípios de justiça económica, se tiver tornado realidade.

A paz e harmonia entre sexos e indivíduos não depende, necessariamente, de uma igualização superficial dos seres humanos, nem pede a eliminação dos traços e peculiaridades individuais. O problema com que actualmente somos confrontados e que está por resolver num futuro próximo é como sermos nós mesmos e, ainda assim, estarmos em união com os outros, sentirmo-nos profundamente com todos os seres humanos e manter ainda assim as nossas características próprias. Isto parece-me ser a base sobre a qual a massa e o individuo, o verdadeiro democrata e a verdadeira individualidade, homem e mulher, podem encontrar-se sem antagonismo e oposição. O mote não deveria ser: “Perdoem-se uns aos outros” mas sim “Compreendam-se uns aos outros”. A frequentemente citada afirmação de Madame de Staël: “Entender tudo significa perdoar tudo” nunca me atraiu particularmente, tem o odor da confissão, perdoar um semelhante transmite a ideia de uma superioridade hipócrita. Entender as necessidades do nosso semelhante. A admissão representa, em parte, o aspecto fundamental da minha opinião sobre a emancipação da mulher e os seus efeitos sobre todo o género.

A emancipação deveria tornar possível à mulher ser um ser humano no seu verdadeiro sentido. Tudo o que dentro dela anseia por afirmação e actividade deveria atingir a sua expressão mais completa, todas as barreiras artificiais deveriam ser quebradas e o caminho em direcção a uma maior liberdade liberto de qualquer traço de séculos de submissão e escravidão.

Tal era o objectivo original do movimento para a emancipação da mulher. Mas os resultados até agora alcançados têm isolado a mulher e roubaram-na da nascente da felicidade que lhe é tão essencial. Uma emancipação meramente externa fez da mulher moderna um ser artificial, que lembra um dos produtos da arboricultura francesa com as suas árvores e arbustos arabescos, pirâmides, rodas e grinaldas; tudo excepto as formas que poderiam ser alcançadas através da expressão das suas qualidades interiores. Estas plantas de crescimento artificial do sexo feminino são encontradas em grande número, especialmente na chamada esfera intelectual da nossa vida.

Liberdade e igualdade para a mulher! Que esperanças e aspirações foram acordadas por estas palavras quando foram proclamadas pela primeira vez por algumas das almas mais nobres e corajosas dos nossos dias. O sol, em todo o seu brilho e esplendor, deveria erguer-se sobre um novo mundo; nesse mundo a mulher deveria ser livre para traçar o seu próprio destino – um objectivo certamente digno do maior entusiasmo, coragem, perseverança e esforço incessante por parte da tremenda série de pioneiros, homens e mulheres, que apostaram tudo contra um mundo de preconceito e ignorância.

As minhas esperanças também se movem ao encontro desse objectivo, mas sustento que a emancipação da mulher, tal como interpretada e, praticamente, aplicada hoje não conseguiu alcançar o seu grande fim. Agora, a mulher é confrontada com a necessidade de se emancipar da emancipação caso aspire a ser realmente livre. Isto poderá parecer paradoxal mas é, apesar disso, apenas verdadeiro.

O que é que ela conseguiu com a sua emancipação? Igualdade de sufrágio em alguns Estados. Terá isso purificado a nossa vida política, como muitos bem-intencionados defensores previam? Certamente não. Aliás, é chegado o tempo das pessoas com uma capacidade nula de julgamento deixarem de falar sobre a corrupção na política num tom de colégio interno. A corrupção na política não tem nada a ver com a moral ou com a frouxidão da moral de várias personalidades da política. A sua causa é tão só formal. A política é o reflexo do mundo industrial e de negócios cujo mote é: “Tirar é mais abençoado do que dar”; “compra barato para vender caro”; “uma mão suja lava a outra”. Não há esperança que, mesmo a mulher, com o seudireito ao voto, alguma vez venha a purificar a política.

A emancipação trouxe à mulher a igualdade económica relativamente ao homem, isto é, ela pode escolher a sua própria profissão mas, como o treino físico que obteve no passado e no presente não a equiparam com a força necessária a competir com o homem, ela é muitas vezes compelida a esgotar toda a sua energia, utilizar toda a sua vitalidade e envidar todos os esforços para alcançar o valor de mercado. Muito poucas o conseguiram, sendo um facto que às mulheres professoras, médicas, advogadas, arquitectas ou engenheiras não lhes é atribuída a mesma confiança que aos seus colegas homens, nem a mesma remuneração. E aquelas que alcançaram essa igualdade sedutora geralmente conseguiram-no à custa do seu corpo e do seu bem-estar físico. No que toca à grande massa de raparigas e mulheres trabalhadoras, que independência é ganha se a estreiteza e falta de liberdade do lar é substituído pela estreiteza e falta de liberdade da fábrica, da loja ou do escritório? Adicionalmente, há o fardo colocado em cima de muitas mulheres de cuidar do “lar, doce lar” – frio, triste, desordenado, pouco convidativo – após um árduo dia de trabalho. Gloriosa independência! Não é de admirar que centenas de raparigas estejam dispostas a aceitar a primeira proposta de casamento, cansadasda sua “independência” atrás do balcão, da máquina de costura ou de escrever. Elas estão tão preparadas para casar como as raparigas de classe média, que anseiam por deitar fora o jugo da supremacia parental. A chamada independência, que leva a ganhar apenas o suficiente para a mera subsistência não é tão atraente ou ideal para esperarmos da mulher que sacrifique tudo por ela. A nossa tão elogiada independência é, apesar de tudo, um lento processo para enfadar e sufocar a natureza da mulher, o seu instinto amoroso e maternal.

No entanto, a posição da rapariga trabalhadora é muito mais natural e humana do que a da sua irmã aparentemente mais afortunada nas esferas profissionais mais cultivadas de professores, médicos, advogados, engenheiros, etc., que têm de ter uma aparência digna e adequada, enquanto a sua vida interior cresce vazia e morta.

O limite da concepção existente da independência e emancipação da mulher, o pavor do amor por um homem que não é seu igual socialmente; o receio de que o amor a roube da sua liberdade e independência, o horror de que o amor ou a alegria da maternidade apenas venham a atrapalhá-la no pleno exercício da sua profissão – tudo isto junto fez da mulher moderna emancipada obrigatoriamente uma virgem, diante de quem a vida, com as suas grandes e clarificadoras tristezas e as suas profundas e extasiantes alegrias, vai rolando sem nunca tocar ou agarrar a sua alma.

A emancipação, como é entendida pela maioria dos seus aderentes e expoentes, é demasiado curta para permitir o amor sem limites e o êxtase contido nas emoções profundas da verdadeira mulher, amante ou mãe em liberdade.

A tragédia da mulher auto-suficiente ou economicamente livre não está nas muitas, mas sim nas muito poucas experiências. É verdade que ela ultrapassa a sua irmã das gerações passadas em conhecimento do mundo e da natureza humana, e é apenas por causa disto que ela sente profundamente a falta da sua essência vital que, sozinha, pode enriquecer a alma humana e sem a qual a maioria das mulheres se tornaram meras autómatas profissionais.

Que tenhamos chegado a tal estado foi previsto por aqueles que se aperceberam que, no domínio da ética, permaneciam muitas ruínas decadentes dos tempos da indiscutível superioridade do homem, ruínas que são ainda consideradas úteis. E, o que é mais importante, uma boa parte das emancipadas não se consegue dar bem sem elas. Cada movimento que visa a destruição das instituições existentes e a consequente substituição por algo mais avançado, mais perfeito, tem seguidoras que, em teoria, representam as ideias mais radicais mas que, no entanto, no seu dia-a-dia, são como o Filisteu médio, fingindo respeitabilidade e clamando pela opinião positiva dos seus adversários. Existem, por exemplo, socialistas e até anarquistas, que defendem a ideia de que a propriedade é um roubo mas que, apesar disso, ficarão indignadas se alguém lhes ficar a dever o valor de meia dúzia de alfinetes.

Os mesmos Filisteus podem ser encontrados no movimento pela emancipação da mulher. Jornalistas de pasquim e literatos banais imaginaram mulheres emancipadas que deixam os cabelos em pé de qualquer bom cidadão. Todos os membros do movimento pelos direitos das mulheres foram pintados como uma George Sand, no seu absoluto desprezo pela moralidade. Nada era sagrado para ela. Ela não tinha qualquer respeito pela relação ideal entre homem e mulher. Resumidamente, a emancipação serviu apenas para uma vida imprudente de luxúria e pecado, indiferente à sociedade, religião e moralidade. As expoentes dos direitos da mulher ficaram altamente indignadas com tal deturpação e, na falta de sentido de humor, gastaram toda a sua energia para provar que não eram, de todo, tão más quanto consideradas, mas sim o oposto. Claro que, enquanto a mulher permaneceu escrava do homem, ela não poderia ser boa ou pura mas, agora que é livre e independente, irá provar quão boa pode ser e que a sua influência terá um efeito purificador em todas as instituições da sociedade. É verdade, o movimento pelos direitos da mulher quebrou muitos dos antigos grilhões mas também forjou muitos outros. O grande movimento da verdadeira emancipação não se cruzou com um grande número de mulheres que poderiam olhar a liberdade de frente. A sua visão curta e puritana baniu o homem da sua vida emocional enquanto perturbador e de carácter duvidoso. O homem não deveria ser tolerado a nenhum preço a não ser, talvez, enquanto pai da criança, sendo que dificilmente a criança viria à vida sem um pai. Felizmente, as puritanas mais implacáveis nunca terão força suficiente para matar o desejo inato pela maternidade. Mas a liberdade da mulher está estritamente ligada à liberdade do homem e, muitas das minhas irmãs consideradas emancipadas, parecem ignorar o facto de que uma criança nascida em liberdade precisa do amor e devoção de cada ser humano, homem e mulher. Infelizmente, foi a concepção limitada das relações humanas que trouxe esta grande tragédia para a vida do homem e da mulher modernos.

Há cerca de quinze anos atrás apareceu um trabalho pela mão da brilhante norueguesa Laura Marholm chamado “Mulher, um Estudo de Carácter”. Ela foi uma das primeiras a chamar a atenção para o quanto a concepção existente de emancipação da mulher é vazia e limitada e o seu efeito trágico sobre a vida privada da mulher. No seu trabalho, Laura Marholm fala no destino de várias mulheres talentosas e de fama internacional: a genial Eleonora Duse; a grande matemática e escritora Sonya Kovalevskaia; a artista e poetisa Marie Bashkirtzeff que morreu bastante cedo. Em cada descrição da vida destas mulheres de extraordinária mentalidade corre um trilho marcado pelo desejo não alcançado de uma vida cheia, completa e bonita, e o resultado insatisfatório e solitário da falta da mesma. Através destes esboços psicológicos magistrais não podemos deixar de reparar que, quão maior é o desenvolvimento mental da mulher, menos possível é conhecer um companheiro à altura que veja nela, não apenas sexo, mas também o ser humano, a amiga, a camarada e individualidade forte, que não pode nem deve perder qualquer um dos seus traços de caracter.

O homem médio, com a sua auto-suficiência, os seus ares ridiculamente superiores de patronato para com o sexo feminino, é uma impossibilidade para a mulher descrita no Estudo de Caracteres por Laura Marholm. Igualmente impossível para ela é o homem que não vê nada mais nada para além da sua mentalidade e génio, e que falha em despertar a sua natureza feminina.

Um intelecto rico e uma alma pura são atributos geralmente considerados necessários numa personalidade bonita e profunda. No caso da mulher moderna, esses atributos servem como impedimento para a completa afirmação do seu ser. Durante mais de cem anos a antiga forma de casamento baseado na Bíblia, “até que a morte nos separe”, foi denunciada como uma instituição que apoia a soberania do homem sobre a mulher, a completa submissão desta às vontades e comandos dele e a absoluta dependência ao seu nome e sustento. Uma e outra vez ficou provado que a antiga relação matrimonial restringe a mulher à função de serva do homem e portadora dos seus filhos. E, ainda assim, encontramos muitas mulheres emancipadas que preferem o casamento com todas as suas deficiências a uma vida restritiva sem ele: restrita e insuportável devido às amarras de preconceito moral e social que acorrentam a sua natureza.

A explicação de tamanha inconsistência por parte de tantas mulheres modernas encontra-se no facto destas nunca terem verdadeiramente entendido o significado da emancipação. Elas acreditavam que tudo aquilo que é preciso é a independência das tiranias externas; os tiranos internos, muito mais prejudiciais à vida e ao crescimento – convenções éticas e sociais – foram deixados de lado; e assim a sua preponderância cresceu. Eles parecem dar-se tão bem nas cabeças e corações dos expoentes mais activos da emancipação da mulher, como se deram nas cabeças e corações das nossas avós.

Estes tiranos internos, quer sejam na forma de opinião pública ou daquilo que a mãe, o irmão, o pai, o tio, ou um parente qualquer poderá dizer; o que a senhora Grundy, o senhor Comstock, o empregado, ou o conselho directivo da escola possam dizer? Todos estes intrometidos, detectives morais, carcereiros do espírito humano, o que dirão eles? Até que a mulher aprenda a desafiá-los a todos, a manter-se firme no seu próprio terreno e insistir na sua própria liberdade sem restrições, a ouvir a voz da sua natureza, quer esta clame pelo grande tesouro da vida, o amor por um homem, ou pelo seu privilégio mais glorioso, o direito a dar à luz uma criança, não se poderá considerar emancipada. Quantas mulheres emancipadas são suficientemente corajosas para reconhecer que a voz do amor está a chamar, a bater violentamente nos seus peitos, exigindo ser ouvida, ser satisfeita.

O escritor francês Jean Reibrach, num dos seus romances, New Beauty, tenta representar a mulher ideal, bonita e emancipada. Este ideal é personificado numa rapariga jovem, uma médica. Ela fala muito sabiamente em como alimentar crianças, é bondosa e administra medicamentos de forma gratuita a mães pobres. Ela conversa com um jovem que conhece sobre as condições sanitárias do futuro e em como os vários bacilos e germes serão exterminados pelo uso de paredes e pisos em pedra e pelo fim da utilização de tapetes e cortinas. É, naturalmente, muito prática a vestir-se, maioritariamente de negro. O jovem, que no seu primeiro encontro ficou intimidado pela sabedoria da sua amiga emancipada, gradualmente aprende a compreendê-la e, um belo dia, reconhece que a ama. Eles são jovens, ela é gentil e bonita e, embora sempre em trajes rígidos, a sua aparência é suavizada por um colarinho e punhos impecavelmente limpos e brancos. Seria de esperar que ele admitisse o seu amor, mas ele não é de cometer absurdos românticos. A poesia e o entusiasmo do amor escondem as suas faces ruborescentes perante a beleza pura da senhora. Ele silencia a voz da sua natureza e permanece correcto. Também ela é sempre exacta, sempre racional, sempre bem comportada. Temo que, caso eles tivessem formado uma união, o jovem teria arriscado morrer congelado. Confesso que não consigo ver nada de bonito nesta nova beleza que é tão fria quanto as paredes e pisos com que ela sonha. Prefiro antes ter as canções de amor de eras românticas, antes o Don Juan e a Madame Vénus, antes uma fuga em noite de luar por uma escada ou corda, seguida da maldição do pai, os lamentos da mãe e os comentários moralistas dos vizinhos, que a adequação e correcção medidas a metro. Se o amor não sabe como dar e receber sem restrições então não é amor, mas antes uma transacção que nunca cessa de insistir num mais e num menos.

O maior defeito da emancipação nos dias que correm reside na sua rigidez artificial e nas suas estritas respeitabilidades, que produzem um vazio na alma da mulher que não lhe permite beber da fonte da vida. Uma vez comentei que parece existir uma maior e mais profunda ligação entre a mãe e a dona de casa à antiga, sempre em alerta relativamente à felicidade dos seus pequenos e ao conforto daqueles que ama, e a verdadeira nova mulher, do que entre esta e a sua irmã emancipada comum. As discípulas da emancipação pura e simples declararam-me como uma pagã que mereceria a fogueira. O seu zelo cego não lhes permite ver que a minha comparação entre o velho e o novo era meramente para provar que boa parte das nossas avós tinha mais sangue a correr-lhes nas veias, muito mais humor e perspicácia, e claramente uma dose muito maior de naturalidade, bondade e simplicidade, do que a maior parte das nossas mulheres profissionais emancipadas que enchem as faculdades, salas de ensino e escritórios vários. Isto não significa um desejo de regresso ao passado, nem condena a mulher à sua esfera antiga, a cozinha e o berçário.

A salvação reside numa marcha enérgica rumo a um futuro mais brilhante e mais claro. Estamos a necessitar de um crescimento sem entraves para fora das tradições e hábitos antigos. O movimento para a emancipação da mulher apenas deu, até agora, o primeiro passo nesse sentido. É desejável que reúna forças para dar mais um. O direito ao voto ou direitos civis iguais podem ser boas exigências, mas a verdadeira emancipação não começa nem nas urnas nem nos tribunais. Começa na alma da mulher. A História diz-nos que todas as classes oprimidas conquistaram a verdadeira libertação dos seus senhores através dos seus próprios esforços. É necessário que a mulher aprenda esta lição, que perceba que a sua liberdade chegará tão longe quanto o seu esforço para a conseguir. Assim, é muito mais importante para ela começar com a sua regeneração interior, libertar-se do peso dos preconceitos, tradições e costumes. A exigência por direitos iguais em todas as vocações da vida é justa e razoável mas, afinal de contas, o direito mais vital é o direito de amar e ser amada. De facto, se a emancipação parcial se transformar numa emancipação verdadeira e completa, terá de acabar com a ridícula noção de que ser amada, ser amante e mãe é sinónimo de ser escrava ou subordinada. Terá de acabar com a ideia absurda da dualidade de sexos, ou de que homem e mulher representam dois mundos antagónicos. A pequenez separa, a amplitude une. Sejamos abertas e grandes. Não vamos menosprezar o que importa devido a todas aquelas pequenas coisas com que nos confrontamos. Uma verdadeira concepção da relação entre os sexos não vai admitir conquistador e conquistado, conhece apenas e tão só uma grande coisa: dar de si mesmo sem limites a fim de se encontrar a si mesmo mais rico, mais profundo, melhor. Tal, por si só, pode preencher o vazio e transformar a tragédia da emancipação da mulher em alegria, uma alegria sem fim.

(link para download em pdf no site book bloc)

.

*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

O Fracasso do cristianismo

por Emma Goldman*

Os falsificadores e envenenadores de ideias, na tentativa de obscurecer o limite entre a verdade e a falsidade, acham um valioso aliado no conservadorismo da linguagem.

Concepções e palavras que há muito perderam seu significado original continuam, por séculos, a dominar o gênero humano. Especialmente se estas concepções se tornarão um lugar comum,se elas foram incutidas em osso ser desde nossa infância como grandes e irrefutáveis verdades. As mentes comuns são facilmente contentadas com coisas herdadas e adquiridas ou como que dita os pais e professores, porque é muito mais fácil imitar do que criar.

Nossa era deu à luz dois gigantes intelectuais que empreenderam uma transvaloração dos valores sociais e morais mortos do passado, especialmente aqueles contidos no cristianismo. Friedrich Nietzsche e Max Stirner lançaram sobro contra os portais do cristianismo, porque viram nele uma moralidade escravizante perniciosa, a negação da vida, o destruidor de todos os elementos que compõem a força e o Caráter. Enfim, Nietzsche opôs-se á ideia da moralidade escravizante inerente ao cristianismo em favor de uma moral de mestre para poucos privilegiados. Mas eu arrisco sugerir que a ideia de mestre não teve nada a ver com a vulgaridade de categoria, casta ou riqueza. Ao contrario, ela significa a potência nas possibilidades humanas, a tradições e valores exauridos,de forma que ela possa aprender a se tornar o criador de coisas novas e belas.

Nietzsche e Stirner viram no cristianismo o nivelador do gênero humano, o destruidor do desejo do homem de ousar e fazer. Eles viram em todo movimento construído sob ética e a moralidade cristã tentativas não de emancipação da escravidão, mas de sua perpetuação. Consequentemente eles se opuseram a estes movimentos com toda força.

Quer concorde ou não completamente com estes iconoclastas, eu acredito, como eles,que o cristianismo é admiravelmente adaptado para o treinamento de escravos, para a perpetuação de uma sociedade de escravos; em resumo, para as mesmas condições que confrontamos hoje. Na verdade, nunca poderia uma sociedade ter se degenerado a essa apavorante fase atual, se não pela ajuda do cristianismo. Os governadores da terra perceberam há muito tempo o poderoso veneno inerente à religião cristã. Essa é a razão porque eles a nutrem; esse é o motivo porque eles não deixam nada por fazer para incutir isso no sangue das pessoas. Eles sabem mito bem que o mais penetrante dos ensinamentos cristãos é uma mais poderosa proteção contra a rebelião e o descontentamento do que a ordem ou a arma.

Sem dívida ou diria que, apesar da religião ser um veneno e o cristianismo institucionalizado o maior inimigo do progresso e da liberdade, há algum bem no cristianismo “ele mesmo”. Sobre os ensinamentos de Cristo e do cristianismo primitivo eu poderia ser questionada: eles não representam o espírito da humanidade, do direito e da justiça?

É justamente essa afirmação frequente essa afirmação frequentemente repetida que me induziu a escolher este assunto, me permitiu demonstrar que os abusos do cristianismo, assim como os do governo, são condicionados por si mesmos, e não devem ser transferidos aos representantes do credo. Cristo e seus ensinamentos são a inércia, da negação da vida, consequentemente, é responsável pelas coisas feitas em seu nome.

Eu não estou interessado no Cristo teológico. Mentes brilhantes como Bauer, Strauss, Renan, Thomas Paine, e outros refutaram esse mito há muito tempo. Eu estou até mesmo pronta a admitir que o Cristo teológico não representa nem a metade do perigo que Cristo ético e social. Na proporção em que a ciência toma o lugar da fé cega, a teologia perde sua influência. Mas o Cristo-mito ético e poético está tão fartamente presente em nossas vidas que até mesmo algumas das mentes mais avançadas acham difícil se emancipar de seu jugo. Eles livram-se das epístolas, mas retém o espírito; contudo é o espírito que está por trás de todos os crimes e horrores cometidos pelo cristianismo ortodoxo. Os padres da igreja podem se ar ao luxo de bem orar o evangelho de cristo. Ele não contém nada de perigo para o regime da autoridade e da riqueza; ele representa abnegação, penitência e arrependimento, e é absolutamente inerte frente a toda (in)dignidade, a toda afronta ao gênero humano.

Aqui eu devo voltar aos falsificadores de e palavras. Muitos sérios opositores da escravidão e da injustiça confundem da maneira mais infeliz, os ensinamentos de Cristo com as grandes lutas para emancipação social e econômica. Os dois serão sempre irrevogavelmente opostos um ao outro. Um necessita coragem, ousadia, desafio e força. O outro prega o evangélico da não resistência, da aquiescência servil do desejo dos outros; é o descuido completo do caráter e da autoconfiança, é, portanto, o destruidor da liberdade e do bem estar. Quem anseia sinceramente por uma mudança radical as sociedade, quem se esforça para livrar a humanidade do açoite da dependência e da miséria, tem que dar as costas ao cristianismo, tanto ao antigo como também á sua forma presente.

Em todos os lugares e sempre, desde seu mais remoto passado o cristianismo transformou a terra em um vale de lagrimas; sempre fez da vida uma coisa fraca, doente, sempre instalou medo no homem e o transformou em um ser dual cujas energias de vida são gastas na luta entre o corpo e a alma. Depreciando o corpo com algo mal, a carne como tentadora para tudo o que é pecado, o homem tem multilado seu ser na tentativa vã de manter sua alma pura, enquanto seu corpo apodrece longe das injúrias e torturas infligidas sobre ela.

A moralidade e a religião cristã exaltam a gloria do além-vida, no entanto permanecem indiferentes aos horrores na terra.

Realmente, a ideia de abnegação e de tudo aquilo que traz dor e tristeza é o teste do valor humano, é seu passaporte para entrar no céu.

O pobre é possuidor do céu e o rico irá ser para o inferno. Isso talvez explique os esforços desesperados do rico fazer feno enquanto o sol brilha, de tirar o Maximo que podem da terra: nadar em riqueza e superfluidade, apertar os grilhões dos escravos abençoados, os roubar dos direitos inatos, os degradar e ultrajar todos os minutos do dia. Quem Poe culpar os ricos se eles se vingam-se através do pobre, se agora é o tempo deles e só o deus cristão misericordioso sabe como o rico esta fazendo isso de forma completa e competente.

E o pobre? Eles agarram-se à promessa do céu cristão, como a casa para os velhos, o sanatório para os corpos incapacitados e mentes fracas. Eles suportam e se submetem, eles sofrem e esperam, até que todo pedaço de seu auto-respeito seja banido, até seus corpos se tornarem-se magros e murchos, e o espírito destroçado pela espera, a infinita pelo céu cristão.

Cristo fez a sua aparição como líder do povo, o redentor dos judeus do domínio romano, mas no momento em que ele começou seu trabalho, provou que não tinha nenhum interesse na terra, nas necessidades imediatas urgentes dos pobres e deserdados do seu tempo. O que ele pregou foi um misticismo sentimental e obscuro, ideias confusas carentes de originalidades e vigor.

Quando os judeus, de acordo como os evangélicos se retirarão de Jesus, quando eles o levaram para crus, podem talvez ter se desapontado amargamente com quem os prometeu tanto e lhes deu tão pouco. Ele prometeu alegria e felicidade em outro mundo enquanto as pessoas estavam passando fome, sofrendo e padecendo diante dos seus próprios olhos. Pode ser, talvez, que a condolência dos romanos, especialmente de Pilatos, tenha sido dada a Cristo porque eles o considerarão como perfeitamente inofensivo ao seu poder e dominação. O filósofo Pilatos pode ter considerado as “verdades” eternas de Cristo como anêmicas e sem vida se comparadas ao aparato de força que eles tentaram combater. Os romanos, fortes como eles eram, devem ter rido à custas do homem que falava arrependida e pacientemente, em vez de chamar seu povo a se armar contra seus despojadores e opressores.

A carreira pública de Cristo começa com o édito: “arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”.

Por que se arrepender, por que lamentar, em face de algo que supostamente trazia libertação? As pessoas já não sofreram e suportaram o bastante: elas não tinham ganhado o direito à libertação pelo seu sofrimento? Pegue o Sermão da Montanha, por exemplo. O que é senão um elogio à submissão ao destino, à inevitabilidade as coisas?

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”.

O céu deve ter um lugar muito estúpido e triste se os pobres de espírito vivem lá. Como pode qualquer coisa criativa, qualquer coisa vital, útil e bonita vir dos pobres de espírito? A ideia contida o Sermão da Montanha é a maior acusação contra os ensinos de Cristo, porque ele vê a pobreza da mente e do corpo uma virtude, e porque busca manter esta virtude através e recompensa e castigo. Todo ser inteligente percebe que nossa pior maldição é a pobreza do espírito; que isso é o produtor de todo mal e miséria, de toda injustiça e crimes no mundo. Toda pessoa sabe que nada bom jamais veio ou pode vir do pobre de espírito; com certeza, nunca liberdade, justiça ou igualdade.

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”.

Que noção ridícula! Que incentivo à escravidão, inatividade e parasitismo! Além disso, não é verdade que o submisso possa herdar qualquer coisa. Só porque a humanidade foi submissa é que a terra lhe foi roubada.

Mansidão tem sido o chicote que o capitalismo e os governos têm usado para forçar o homem á dependência, na sua posição de escravo. Os criados mais fies do estado, da riqueza, dos privilégios conveniente que Cristo, o “redentor” dos povos.

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”.

Mas o Cristo excluiu a possibilidade de justiça quando disse “os pobres sempre os tendes convosco”? Mas então cristo era grande em pronunciamentos, não importa se o que ele dizia fossem coisas completamente opostas uma à outra Isto é demonstrado tão notavelmente no comando “daí a Césas o que é de César, e a deus o que é de deus”.

Os intérpretes afirmam que Cristo teve que fazer estas concessões aos poderes de seu tempo. Se isso é verdade, este simples compromisso foi suficiente para atestar, até os dias de hoje, a mais impiedosa arma nas mãos do opressor, uma horrível chicotada e um inexorável coletor de imposto para o empobrecimento, a escravização e a degradação das mesmas pessoas por quem Cristo supostamente morreu. E quando nós estamos seguros que “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”, nos é dito “como”? Como? Cristo nunca se preocupou em explicar isso Justiça não vem das estrelas, nem porque Cristo a desejou. Justiça surge da Liberdade, de oportunidade e igualdade social e econômica. Mas como pode o manso e o pobre de espírito estabelecer tal estado de coisas?

“Bem-aventurados sois vós, quando injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus”.

A recompensa no céu é uma isca perpétua, uma isca que tem apanhado o homem em uma rede de ferro, numa camisa de força que não deixe expandir ou crescer. Todos pioneiros da verdade foram e ainda são ultrajados; todos pioneiros da verdade foram e ainda são ultrajados; eles foram, e ainda são perseguidos. Mas eles pediram para a humanidade pagar o preço? Eles buscaram subornar o gênero humano para aceitar suas ideias? Eles souberam muito bem aquele que trocará por uma oferta mais alta.

Bem e mal, castigo e recompensa, pecado e penitência, céu e inferno, é como o espírito móvel do Cristo- evangélico tem sido o empecilho na situação do mundo. Ele retém tudo através de ordens e comandos, mais ignora completamente as muitas coisas que nós mais precisamos.

O trabalhador que conhece a causa de sua miséria que entende a maquiagem de nosso sistema social e industrial injusto pode fazer mais, por si e pelos seus, que Cristo e seus seguidores já fizeram para a humanidade; certamente podem fazer mais do que paciência, ignorância e submissão.

Quanto mais exalto, mais benéfico é o individualismo extremo de Stirner e Nietzsche ao invés da atmosfera de confinamento de doentes da fé cristã. Se eles repudiam o altruísmo como um mal, é por causa do exemplo contido no cristianismo, que fixa um prêmio ao parasitismo e a inércia, que dá à luz a todas as formas de desordens sociais que serão curadas com a pregação de amor condolência.

Personalidades orgulhosas e autoconfiantes preferem o ódio que o tal adoecido amor artificial. Não é por causa de alguma recompensa que um espírito livre decide por uma grande verdade, nem é do tipo que se afugenta por medo de castigo.

“Não cuides que vim destruir a lei ou os profetas não vim ab-rogar, mais cumprir”.

Justamente, Cristo era um reformador, sempre pronto para remendar, cumprir, continuar a velha ordem das coisas; nunca destruir e reconstruir. Isso pode explicar a simpatia que todos reformadores têm por ele.

Realmente, toda a historia do estado, do capitalismo e da igreja prova que eles se perpetuaram por causa da ideia de que “ eu não vim destruir a lei”. Esta é a chave da autoridade e da opressão. Então, naturalmente, Cristo não elogiou a pobreza como uma virtude; ele propagou a não resistência ao mal? Por que a pobreza e o mal não poderiam continuar dominando o mundo?

Muitos como eu opostos a toda religião, muitos como eu acham-na uma imposição sobre e um crime contra a razão e o progresso. Eu, contudo, sinto que nenhuma outra religião tem feito ou ajudado tanto na escravização de homem como a religião de Cristo.

Testemunhe Cristo antes de seus acusadores. Que falta de dignidade, que falta de fé nele e nas suas próprias ideias! Tão fraco e impotente era este “salvador dos homens” que precisa que toda a família humana pague por ele, por toda a eternidade, porque ele “morreu por nós”. Redenção pela cruz é pior do que a danação, por causa do fardo terrível imposto sobre a humanidade, pelo efeito que tem na alma humana, acorrenta e paralisa com o peso do fardo cobrado pela morte de Cristo.

Milhares de mártires pereceram, contudo, algum sequer se demonstrou tão importante como o grande deus cristão. Milhares têm ido para a morte profunda nas suas ideias que Nazareno. Eles não esperam gratidão eterna dos seus próximos por causa do que eles suportaram por eles.

Comparado com Sócrates e Bruno, com os grandes Mártires da Rússia, com os anarquistas de Chicago, Francisco Ferrer e inumeráveis outros, Cristo terna-se uma figura realmente pobre. Comparado com a delicada e frágil Spiridonova, que sofreu as mais terríveis torturas, as indignidades mais horríveis, sem perder a fé em si mesma ou em sua causa, Jesus é uma verdadeira nulidade. Eles mantiveram-se firmes e encararam seus executores com firme determinação e, entretanto, eles, que também morreram pelas pessoas, não pediram nada em troca do seu grande sacrifício.

Na verdade, nós precisamos de redenção da escravidão, da fraqueza e da dependência humilhante da moralidade cristã.

Os ensinos de Cristo e dos seus seguidores falharam porque faltou a vitalidade para tirar o peso dos ombros da raça; eles falharam porque a essência daquela doutrina é contraria ao espírito de vida, exposto através as manifestações da natureza, a força e beleza da paixão.

Nunca poderá o cristianismo, debaixo de qualquer máscara que apareça – seja neoliberalismo, espiritualismo, ciência cristã, pensamento novo, ou mil e uma outras formas de histeria e neurastenia – trazer alívio da pressão terrível de condições, do peso, da pobreza, dos horrores de nosso sistema injusto. O cristianismo é a conspiração da ignorância contra a razão, da escuridão contra a luz, da submissão e escravidão contra a independência e a liberdade; a negação da força e da beleza, contra a afirmação da alegria e da glória da vida.

Texto em pdf no site anarkio.net.

.

*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

O indivíduo, a sociedade e o estado

por Emma Goldman*

A dúvida reina no espírito dos homens, pois nossa civilização treme em suas bases. As instituições atuais não mais inspiram confiança e os mais inteligentes compreendem que a industrialização capitalista vai contra os próprios objetivos que diz perseguir.

O mundo não sabe como sair disso. O parlamentarismo e a democracia periclitam e alguns creem encontrar salvação optando pelo fascismo ou outras formas de governos “fortes”.

Do combate ideológico mundial sairão soluções para os problemas sociais urgentes que se apresentam atualmente: crises econômicas, desemprego, guerra, desarmamento, relações internacionais, etc. Ora, é dessas soluções que dependem o bem-estar do indivíduo e o destino da sociedade humana.

O Estado, o governo com suas funções e seus poderes, torna-se, assim, o centro de interesse do homem que raciocina. Os desenvolvimentos políticos que ocorreram em todas as nações civilizadas levam-nos a fazer essas perguntas: desejamos um governo forte? Devemos preferir a democracia e o parlamentarismo? O fascismo, sob uma ou outra forma, a ditadura, quer seja monárquica, burguesa ou do proletariado, oferecem soluções aos males ou às dificuldades que atormentam nossa sociedade?

Em outros termos, conseguiremos apagar as taras da democracia com a ajuda de um sistema ainda mais democrático, ou devemos cortar o nó górdio do governo popular com a espada da ditadura?

Minha resposta é: nem um, nem outro. Sou contra a ditadura e o fascismo, e oponho-me aos regimes parlamentares e às pretensas democracias populares.

É com razão que se falou do nazismo como de um ataque contra a civilização. A mesma coisa se poderia dizer de todas as formas de ditadura, opressão e coerção, pois o que é a civilização? Todo o progresso foi essencialmente marcado pela extensão das liberdades do indivíduo em detrimento da autoridade exterior, tanto no que concerne à sua existência física quanto à política ou econômica. No mundo físico, o homem progrediu até controlar as forças da natureza e utilizá-las em seu próprio proveito. O homem primitivo realiza seus primeiros passos na estrada do progresso quando logra produzir fogo, triunfando assim sobre o próprio homem, e reter vento e captar água.

Que papel a autoridade ou o governo desempenharam nesse esforço de melhoria, invenção e descoberta? Nenhum, ou melhor, nenhum positivo. É sempre o indivíduo quem realiza o milagre, geralmente a despeito das proibições, das perseguições e da intervenção da autoridade, tanto humana quanto divina.

Da mesma forma, no campo político, o progresso consiste em afastar-se cada vez mais da autoridade do chefe de tribo, de clã, do príncipe e do rei, do governo e do Estado. Economicamente, o progresso significa mais bem-estar para um número de pessoas incessantemente crescente. E, culturalmente, ele é o resultado de tudo o que se realiza algures: independência política, intelectual e psiquica cada vez maior.

Nessa perspectiva, os problemas de relação entre o homem e o Estado revestem uma significação completamente nova. Não é mais questão de saber se a ditadura é preferível à democracia, se o fascismo italiano é superior ou não ao hitlerismo. Uma questão muito mais vital se nos apresenta: o governo político, o Estado, é proveitoso para a humanidade? Qual é sua influência sobre o indivíduo?

O indivíduo é a verdadeira realidade da vida, um universo em si. Ele não existe em função do Estado, ou dessa abstração denominada “sociedade” ou “nação”, que não é senão um ajuntamento de indivíduos. O homem sempre foi e é – necessariamente – a única fonte, o único motor de evolução e progresso. A civilização é o resultado de um combate contínuo do indivíduo ou dos grupamentos de indivíduos contra o Estado, e até mesmo contra a “sociedade”, quer dizer, contra a maioria hipnotizada pelo Estado e submetida a seu culto. As maiores batalhas já travadas pelo homem foram contra obstáculos e prejuízos artificiais que ele próprio se impôs e que paralisam seu desenvolvimento. O pensamento humano sempre foi falseado pelas tradições, pelos costumes, pela educação enganadora e iníqua, dispensada para servir os interesses daqueles que detém o poder e gozam de privilégios; ou seja, pelo Estado e palas classes proprietárias. Esse conflito incessante dominou a história da humanidade.

Podemos dizer que a individualidade é a consciência do indivíduo de ser o que é, e de viver essa diferença. É um aspecto inerente a todo ser humano e um fator de dese volvimento. Estado e as instituições sociais fazem-se e desfazem-se, enquanto a individualidade permanece e persiste. A própria essência da individualidade é a expressão, o sentido da dignidade e da independência – eis seu terreno de predileção. A individualidade não é esse conjunto de reflexos impessoais e maquinais que o Estado considera como um “indivíduo”. O indivíduo não é apenas o resultado da hereditariedade e do meio, da causa e do efeito. É isso e muito mais. O homem vivo não pode ser definido: ele é fonte de a vida e de todos os valores; ele não é uma parte disso ou daquilo: é um todo, um todo individual, um todo que evolui e se desenvolve, mas que permanece, contudo, um todo constante.

A individualidade assim descrita nada tem em comum com as diversas concepções do individualismo e, sobretudo, com aquele que denominarei “individualismo de direita, à americana”, que é tão somente uma tentativa disfarçada de coagir e vencer o indivíduo em sua singularidade. Esse pretenso individualismo, que sugere fórmulas como “livre empresa”, “american way of life”, arrivismo e sociedade liberal, é o laisser-faire econômico e social: a exploração das massas pelas classes dominantes com a ajuda da velhacaria legal; a degradação espiritual e o doutrinamento sistemático do espírito servil, processo conhecido sob o nome de “educação”. Essa forma de “individualismo” corrompido e viciado, verdadeira camisa de força da individualidade, reduz a vida a uma corrida degradante aos bens materiais, ao prestígio social; sua sabedoria suprema exprime-se numa frase: “Cada um por sie maldito seja o último”.

Inevitavelmente, o “individualismo” de direita desemboca na escravidão moderna, nas distinções sociais aberrantes, e conduz milhões de pessoas à sopa dos pobres. Esse “individualismo” em questão é o dos senhores, enquanto que o povo é arregimentado numa casta de escravos para servir a um punhado de “super-homens” egocêntricos. Os Estados Unidos são, sem dúvida, o melhor exemplo dessa forma de individualismo, em nome do qual a tirania política e a opressão social são elevadas à posição de virtudes, enquanto que a menor aspiração, a menor tentativa de vida mais leve e mais digna será imediatamente considerada como antiamericanismo intolerável e condenada, sempre em nome desse mesmo individualismo.

LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA AQUI

.

*Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista lituana, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.