Escritoras brasileiras em domínio público

por Roberta AR

A literatura brasileira está entre as artes nacionais mais respeitadas em todo o mundo. Na escola, aprendemos que temos grandes nomes em todos os movimentos literários, mas só não vemos exclusivamente homens quando se fala de produções mais recentes, como se não houvessem romances escritos por mulheres no final do século XIX e início do século XX, por exemplo. As mulheres passam a se tornar invisíveis em pouco tempo, assim, panoramas e antologias acabam nos apagando, ainda hoje, no presente, e deixam apenas as marcas de homens, na sua maioria brancos, na história.

A lista que se segue reúne quatro importantes autoras e alguns de seus trabalhos, que já estão em domínio público. São contos e romances que publicamos aqui no Facada X ao longo dos anos.

 

Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis nasceu na Ilha de São Luís, no Maranhão, em 11 de março de 1825, falecida em 1917.  Em 1859, ela publicou o romance Úrsula, que teve sua edição bancada pela autora, e, hoje, este livro é considerado o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil. Mas sabemos que muitas mulheres publicaram com pseudônimo ou com o nome do marido ao longo da história, então não podemos nos fiar de que este seja realmente o primeiro, apesar de ser um marco importante da literatura brasileira.

Negra, abolicionista, sua obra é marcada pelo retrato da escravidão pelo ponto de vista dos escravos. Úrsula foi reeditado recentemente em versão impressa e deveria ser uma das obras que estudamos do Romantismo na escola. Outra obra importante da autora é o conto A Escrava, que foi publicado em 1887, na Revista Maranhense.

Leia aqui o primeiro capítulo do romance Úrsula (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o conto A Escrava

 

Júlia Lopes de Almeida

Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida, ou apenas Júlia Lopes de Almeida, nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de setembro de 1862, onde também faleceu, em 30 de maio de 1934.

Foi contista, romancista, cronista, teatróloga, poeta, tradutora e jornalista e uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras. Sua obra se mistura com seu ativismo, pois foi bastante atuante no movimento abolicionista. Por muito tempo escreveu às escondidas, pois a literatura não era considerada atividade para mulheres na época. Seu estilo é marcado pela influência do realismo e do naturalismo. Seus trabalhos influenciaram muitos artistas na época, entre eles, Artur de Azevedo.

Leia aqui o primeiro capítulo do romance A falência (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o primeiro capítulo do romance A intrusa (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o primeiro capítulo do romance Livro das donas e donzelas (com pdf para a obra completa)

Carmen Dolores

Carmen Dolores é o pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, nascida em 11 de março de 1852, no Rio de Janeiro, morreu na mesma cidade em 16 de agosto de 1910. Foi uma importante escritora naturalista brasileira.

Sua obra mais famosa é o romance A luta, publicado em folhetim pelo Jornal do Commercio em 1909 e editado posteriormente, em 1911. A obra fala da sobre mulheres que questionam seu papel na família, mas que temem perder segurança social. Lutou pela educação das mulheres, pelo divórcio e foi uma importante jornalista na sua época, chegando a ser a colunista mais bem paga do periódico O País, no fim da vida..

Leia aqui o primeiro capítulo do romance A luta (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o conto Lição Póstuma

Maria Benedita Bormann

Nascida em Porto Alegre, em 25 de novembro de 1853, faleceu no Rio de Janeiro, julho de 1895. Era conhecida pelo pseudônimo Délia,  com o qual assinou crônicas, romances, contos. Também atuou como jornalista. Publicou nos principais jornais do Rio de Janeiro.

Sua obra é considerada naturalista, e está entre as duas mulheres representantes do movimento, segundo estudiosos, aos lado de Carmen Dolores. Sua obra retrata mulheres complexas com uma pitada de erotismo, que chocou os críticos da época.

Leia aqui o primeiro capítulo do romance Uma vítima (com pdf para a obra completa)

Leia aqui o primeiro capítulo do romance Duas irmãs (com pdf para a obra completa)

 

Uma vítima

por Délia*

I

Na sala de um dos melhores colégios de meninas desta Corte, acham-se: a diretora, francesa de quarenta anos, simpática e amável e o Dr. Caetano Pinto, distinto jurisconsulto, deputado geral, fisionomia inteligente, fronte altiva, maneiras irrepreensíveis – perfeito gentleman.

– Sua filha é um tesouro, senhor, e foi a minha melhor discípula, disse a francesa. O deputado sorria comovido e ia responder, quando a filha assomou à porta.

Era uma mocinha de 15 anos, esbelta, fresca, adorável em sua toilette de crepe-paille1; vinha corada, com os olhos úmidos e uma sombra de melancolia no peregrino semblante.

Lúcia acabava de despedir-se de suas companheiras de estudos e das professoras que a prezavam; deixava essa habitação calma, onde a vida corria pautadamente e ia internar-se no bulício da sociedade.

A alma cândida da donzela estremecia ante o desconhecido, ante o problema do futuro.

O pai foi-lhe ao encontro, abraçou-a e beijou-a. -Então, filhinha! sê forte! ainda me queres privar mais tempo da tua companhia? Virás sempre ver tuas amigas e reviver os anos da infância. Isto não é um desterro!

Lúcia lhe sorria por entre lágrimas; abraçou a diretora, que se sensibilizou, seguiu o pai e entraram na elegante vitória, que partiu a trote largo.

Caetano Pinto casara aos vinte e cinco anos com Melania Amália Costa, interessante diabrete de quinze anos, que o enfeitiçara para sempre.

Era Caetano filho único do desembargador Manoel Pinto, íntegro magistrado, homem de vastos conhecimentos e grossa fortuna.

A mãe, idólatra, grave e inteligente, guiou-o desde a infância na senda do bem, da virtude e da honra.

O feliz mancebo herdara as qualidades do pai e os ternos e elevados sentimentos da mãe: reunia em si a essência desses dois seres, extremamente afetuosos e bons.

Formou-se em direito, pagou à literatura o seu juvenil tributo em versos de rendilhado lirismo e entregou-se à advocacia.

Desfrutava a vida alegremente; teve aventuras de rapaz bonito, portou-se galhardamente para com as mulheres, que o distinguiram, e no dia em que se sentiu preso à imagem de Melania, pôde encarar o passado sem pejo e sem remorso.

Desposou a galante criatura e, um ano depois, era pai da pequena Lúcia.

Sua alma de poeta curvava-se extasiada e trêmula, ante o berço da menina, linda, mimosa; seu terno coração criava um mundo à parte, onde a filha deveria encontrar, mais tarde, olímpica felicidade. Melania não pôde criá-la. Caetano desvelava-se em adular e presentear a alemã, que amamentava Lúcia: nada faltava à boa mulher, que alegremente lhe dava o leite, e ficou no fim da criação com o futuro garantido.

À instâncias da mulher, Caetano foi à Europa, deixando Lúcia com a avó: custou-lhe muito deixar a filha, porém Melania tão porfiadamente lhe demonstrou os incômodos de uma longa travessia com a menina, e realçou o devotamento da sogra, que ele cedeu às razões da mulher e aos protestos de sua mãe: beijou loucamente a criança e embarcou, saudoso.

Durante dois anos percorreu as capitais européias, admirando o belo, mas sempre pensando na filha: às vezes parecia-lhe que Melania amava friamente a menina, porém seu apaixonado coração imediatamente a defendia, levando essa indiferença à conta da leviandade da moça.

E, com maior meiguice ainda, cercava a mulher de carinhos e desvelos; concluía, culpando-se de haver desposado uma criança.

 Este é o primeiro capítulo do livro Uma vítima, que pode ser lido na íntegra ao clicar neste link (em pdf)

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*Maria Benedita Câmara Bormann (1853 – 1895), conhecida pelo pseudônimo Délia, foi uma cronista, romancista, contista e jornalista brasileira.

Duas Irmãs

por Délia*

I

Em um dia de fevereiro, quente e brilhante, um homem de 50 anos, forte e de feições acentuadas, achava-se em seu gabinete, passeando, agitado, nervoso, como quem deseja quebrar um obstáculo ou empreender uma luta.
Sua enérgica fisionomia, dominada pela apreensão de próxima resistência, tornara-se sombria.
A natureza sanguínea e imperiosa transparecia-lhe nos olhares duros, nos gestos convulsivos, na celeridade do andar.
Nascera para déspota, não o podia ser inteiramente e isso o torturava.
De repente, como quem toma uma decisão, tocou violentamente a campainha: um fâmulo acudiu.
– Previna á Deia que a estou chamando! disse com os dentes cerrados.
Passou, então, a mão pela fronte, procurou compor o semblante e sentou-se, mais serenos, diante da secretária…
Pouco esperou; o reposteiro ergueu-se, dando passagem á uma criatura, elegante, pálida, altiva: um desses seres, que se isolam, que se sustem nos transes da vida, rejeitando consolos banais e lágrimas, impotentes.
Entrou, sem temor, envolta nas dobras do peignoir de cambraia, soberana como verdadeira rainha, bela, radiante, no frescor de suas vinte primaveras.
Com voz grave, triste e contraltina, disse:
– Meu pai, aqui estou
– Sente-se, disse ele asperamente, designando-lhe uma cadeira; – temos que conversar.
A moça fitou-lhe o olhar profundo, viu-lhe a crispação da face, adivinhou o que lhe ia dizer, corou de leve e cruzou os braços, esperando acusação ou sentença.
– Sei que se desmandou, que esqueceu seus deveres, perdendo-se, loucamente, com seu primo Jorge, um miserável, além de toleirão, que abriguei em meu teto e a quem protegi! Julga, porém, que consentirei nesse casamento?
– Meu pai, perdão!… Aliás, Jorge promete reparar a nossa falta!
– Não casará: o seu pérfido sedutor, que eduquei, gastando tanto dinheiro, o é ainda mais. Você não é feia, pode e deve fazer melhor escolha e tenho alguém em vista. Cabe-me o direito de ser severo pela sua conduta. Fecho, porém, os olhos e procuro melhorar-lhe a sorte; já vê que deve obedecer ou será muito ingrata!
Casarei com Jorge… porque… nos amamos e porque só a ele poderei pertencer! disse ela, com ímpeto.
– Mas se desistisse, por ser mais ajuizado que você, por compreender que, duas pobrezas não se unem, para não cortar seu futuro? disse o pai com pérfida doçura.
– Ele?! Exclamou a moça; – impossível!
– É a verdade, disse o pai, quase triunfante; daqui a pouco, ele lhe dirá isso mesmo.
-Jorge ?… quero vê-lo, já! O senhor me ilude! Murmurou ela lívida.
O pai tocou o tímpano e mandou chamar o sobrinho.
Ergueu-se ela, apoiou, sem calor, sem luz, os braços no espaldar da cadeira, vivendo pelos olhos e pelo ouvido.
Perturbado, confuso, entrou Jorge, sem olhar para a moça, que procurava tudo lhe adivinhar no rosto.
Dor medonha, sensação de ferro em brasa mordeu-a no coração: começava a duvidar do amor desse homem a quem tudo sacrificara: a experimentar essa primeira decepção, essa primeira ferida, que não cicatriza nunca, reabre todas as vezes que a alma sofre novo embate e distila amargo vírus, que envenena as mais leves, alfinetadas.
Adiantando-se ao pai; interpelou, em tom vibrante ao primo:
– Jorge, concorda com, meu pai,- não quer casar comigo?
Empalideceu o moço; corou e balbuciou:
– Sim, meu tio tem razão, somos pobres, eu não a cercaria do bem-estar que merece… Pode ainda fazer um bom casamento e estimo-a bastante para desejar a sua felicidade, e não a estorvar.
Vendo que a moça não o interrompia, criou alguma coragem e prosseguiu, com mais calor:
– Esqueçamos o passado…. foram criançadas. Quanto á minha indiscrição, nada receie, poderá viver tranquila e respeitada: querer-lhe-ei como a uma irmã.
Enquanto ele falava, sentia Deia a razão vacilar no cérebro.
Seria sonho ou realidade? Pois aquele ente desprezível, egoísta e que, sem duvida, mirava algum interesse, fora o homem a quem votara afeição fraterna, afeição, que se fundira lentamente em sentimento ardente e avassalador ?
Quisera estar sonhando e, baixinho, como sob a ação de atroz pesadelo, seu coração bradava, trêmulo – meu Deus, faze-me despertar!
Era verdade: ante si, tinha a vil palidez do amante, sem afeto, sem decoro, sem generosidade; do homem que a desonrara, seduzido pela sua beleza,deixando-a, depois, inútil, despedaçada!
Fugira, como indigno ladrão que, ao roubar cintilantes pedras, esquece no pó da estrada o mimoso escrínio, que as guardava.
Era verdade: o abjeto pai quase sorria, regozijando-se com a sua angústia, em bárbara volúpia bebendo as lágrimas amargas do seu doido coração, vendo, mentalmente, o desmoronamento de todas as suas ilusões e esperanças!
Fustigaram-na, como um látego a baixeza de um e o sarcasmo do outro: a altivez sufocou a dor. Com a face marmórea e os negros olhos tempestuosos, dirigiu-se ao primo:
– O senhor é um miserável! nunca mais…. nunca mais, ouviu! me dirija a palavra, morri para o senhor, ou então morreu para mim; eu o desprezo!
Empalideceu o moço: compreendera quanto merecia aquela despedida e sentia uma espécie de pesar: habituara-se á grandeza daquela alma, que o repudiava, depois de o haver acariciado tanto tempo!
Curvou a fronte e saiu.
Deu ela rapidamente costas à essa porta, por onde desaparecia o seu passado e, cruzando o olhar com o do pai, como lâmina, de florete, disse serena, embora com lágrimas nos cílios:
Estou convencida; o que mais deseja?
– Firmar o seu futuro. Você conhece Maurício Barreto, um homem interessante, uma bela fortuna; pediu-a em casamento e eu o quero, o que, diz?
– Recuso! respondeu a moça, escandalizada.
– Não o acha digno de si? Inquiriu o pai com ironia.
– Pelo contrário; indigno-me com a ideia de o iludir. Se me apresentasse um homem, como tantos que há por ai, talvez, eu o aceitasse; porém o Maurício é melhor que os outros.
– Mas é ele que me convém por mil razões. Você há de casar, do contrário separá-la-ei de Julieta, contar-lhe-ei a sua falta, e verá a existência que lhe criarei!…Sabe, aliás, para quanto presto
Daqui há um ano, serei maior, poderei suportar este inferno até lá e depois me emanciparei….
– Sim, viverá, quem sabe como?
– Não! mas ensinarei o que aprendi e viverei, sem a sua presença, longe desta atmosfera maldita, respondeu ela, com desespero.
– Há de casar, digo-lhe, ainda que seja preciso empregar a força…. e caminhou para ela, hediondo, convulso.
Fulvo lampejo passou, pelos olhos da moça, um desses lívidos clarões, em que a dignidade humana se confunde com o instinto do crime, em vulcânica erupção da alma.
A febre de suas pupilas magnetizou a brutalidade do adversário.
Ergueu ela, mais altivamente a fronte contraída e ele deixou decair o braço ameaçador.
Afastaram-se, olharam-se de longe e a filha disse, com sarcasmo:
– Refleti e aceito; Maurício ou outro qualquer é sempre o mesmo, a infâmia não tem gradação, é ou não é! A minha será imposta pela sua vontade… Aceito-a, por zombaria, nojo, tédio pelo mundo e pelos homens, que nada valem aos meus olhos!…Mas, sobretudo, sufoco a minha dignidade pela ameaça de me separar de Julieta e perder-me em seu conceito!…O senhor bem sabia em que ponto sensível tocava, ameaçando-me!…Deixe-me, ao menos, naquele coração viver pura e santamente!
– Bem, murmurou o pai, com voz rouca, – tomou juízo, vivera feliz e há de me agradecer um dia!
Mas peço-lhe um favor, isto é, suplico-lhe que me diga a verdade… quem lhe revelou a minha desgraça? inquiriu a moça.
– Sua madrasta, que se interessa por você e que me obrigou a ser indulgente; sua madrasta, cujo afeto você não reconhece.
Indefinível sorriso passou mais pelos olhos do que pelos lábios de Deia, percebeu-o o pai e acrescentou:
– Duvida? Ah! não lhe perdoa ter vindo ocupar o lugar de sua mãe…
– Cale-se, não fale, hoje, em minha mãe! bradou a moça, fremente, dardejando um olhar de fogo.
Com voz afetadamente calma, perguntou o pai:
– Darei, então, a Maurício resposta satisfatória? Considere-se, nesse caso, noiva, desde já. Fez ela um sinal de sombrio assentimento e saiu.
O pai respirou mais desassombradamente.

Clique aqui para ler o romance Duas Irmãs na íntegra (versão em .pdf).

*Maria Benedita Câmara Bormann (1853 – 1895), conhecida pelo pseudônimo Délia, foi uma cronista, romancista, contista e jornalista brasileira.