A estrela da bonança

por Delminda Silveira*

O mar estava negro, e negro estava o Céu.

Temerosas vagas erguiam-se à altura dos rochedos, onde se despedaçavam com pavoroso fragor, espumantes de ameaçadora fúria.

Impelidos pelo tufão, corriam no espaço escuros nimbos semelhando enormes abutres pairando por sobre abismos insondáveis.

A natureza toda parecia envolta no lutuoso véu da morte.

Deus! entre horrores do Céu e do Oceano, um navio rodopiava á mercê da tormenta!

No tombadilho, a equipagem silenciosa agrupava-se presa de terror, que o piloto, desanimado, já não mandava a manobra, perdida o rumo, a bússola desarranjada.

Era a hora da Ave Maria; – em meio do horror da tempestade, o capitão descobre a fronte morena, prosta-se de joelhos e convida a orar.

Toda a tripulação descobre-se e ajoelha sobre o tombadilho.

Virgem Senhora da Bonança, Estrela, radiosa do Céu e do Mar, pelas sete dores que te pungiram o materno coração quando peregrinavas na terra; pela Cruz bendita de teu Filho Santo, estende por sobre este Céu de horrores o teu manto azul e mostra-nos no horizonte a formosa estrela da tarde imagem tua.

Estampa no firmamento da noite o Sete estrelo, – símbolo das tuas dores indizíveis, e o cruzeiro brilhante, formoso emblema da salvação. Nós, pecadores agradecidos, levaremos ao sopé do teu altar augusto as rotas velas da nossa desventurada barca homenagem de fé e gratidão ao teu piedoso amor… O trovão reboou no espaço…

O raio fendeu a negrura do Céu.

Romperam-se os nimbos e a chuva caiu torrencial.

Lá, no longínquo horizonte, rasgou-se a cobertura da tempestade, descobrindo uma nesga de azul puríssimo, e a formosa estrela da tarde lentamente surgiu por entre os véus despedaçados da procela…

Era que a Virgem da Bonança estendia o seu manto azul constelado, em que resplandecia o Sete-estrelo e o cruzeiro formoso!

E o mar, pouco a pouco sossegado, retratava humilde a radiosa estrela bendita. Depois, quando a manhã serena já dourava as ondas mansinhas, na praia, os marinheiros enastravam de flores as rotas velas da embarcação, conduzindo-as, após, reverentes, entre cânticos de louvores, ao sopé do altar em que a formosa imagem da Virgem Senhora da Bonança parecia acolher com sorriso de maternal amor o preito singelo de tanta fé e gratidão.

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*Delminda Silveira de Sousa (1854 – 1932) foi uma professora e escritora brasileira. Foi membro da Academia Catarinense de Letras (ACL). Foi a primeira mulher da ACL, titular da cadeira 10, a qual assumiu com 77 anos de idade.

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Pobre Coração

por Delminda Silveira*

Ele tinha os olhos garços; o olhar desses olhos falava… Ora meigo, de indizível e
sedutora ternura, ora lampejante, imperioso, irresistível no seu brilho
dominador.

Pálido como poeta, o seu coração seria o de um poeta também?… não possuiria
ele uma alma terna e sensível?…

Os cabelos lindos de um acastanhado leve, ondeavam graciosamente; o porte
elegante e distinto… era um mancebo encantador!…

Fraca e pálida como a flor abandonada, ele encontrou-a; definhada qual a folha
mimosa no arrefecer do Outono.

Ele examinou-a … Seus olhos belos, meigos e compassivos se quedaram fitos
nos olhos escuros dela; o que leria ele ali?…

Depois, sua formosa cabeça inclinou-se sobre o brando seio da doente;
auscultava-a … escutava-lhe o coração; — o que ouviria ele?…

Um suspiro débil, penso que fugia, — avezinha errante em busca do abrigo
onde repousar; — e a formosa cabeça comprimiu terna, suavemente o seio que
ficava por sobre o coração.

Ai! pobre coração! o que sentiste?…

Que sensação indefinível! que inexplicável anseio te fez assim tanto palpitar?
Foi bem a terna saudade, a doce recordação, talvez, de um passado desfeito o
que sentiste?

Ai! Pobre coração!…

A palma mimosa da sensitiva se retrai ao contato de mão; coração, coração!
porque te confrangeste assim? Oh! folha mimosa! porque te retraíste?…

A avezinha livre do deserto, por vezes tem sede; — ai! se avistar a cristalina
veia, quem a condenará porque vai sôfrega beber?

Se a gota de orvalho que o Céu mandou, tremulando fica na pétala desprendida
da magnólia branca, quem há de criminar a borboleta que pela tarde estiva e vai
sorver?

A cândida açucena tem doçura no seio; foi Deus que lha depositou ali; — que
mal há pois que o beija-flor sequioso procure o doce mel naquele seio
perfumado?

E se da luz criadora do sol benefício, acaso a violeta que na sombra pende,
sentir o almo calor e amoroso o acolheu no seio em que ele docemente
penetrou, se deve, porventura, censurar a misérrima que, de frio, se finava no
isolamento?

E Deus criminaria a inocente imbele para resistir e mui sensível para ser
ingrata?!

O orvalho do Céu caía gota a gota, em cada manhã, sobre a planta que
desfalecia; o sol aqueceu-a, cuidou-a o floricultor, e cada dia ela sentia o
extremo desvelo com que a trataria. Oh! revivessem, abrindo-se em flores bem
mimosas!… Que culpa tem as flores que se abrem agradecidas?

A flor encerra o gérmen, o perfume, a doçura; o coração encerra a vida, o amor,
a ternura; a flor desabotoa, entornando aroma se o sol a aqueceu; o coração é
como a flor: expande-se derramando a ternura se amor feriu…

Que culpa tem a flor? Que culpa tem o coração?…

Ai! pobre flor abandonada!

Ai! pobre coração!

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*Delminda Silveira de Sousa (1854 – 1932) foi uma professora e escritora brasileira. Foi membro da Academia Catarinense de Letras (ACL). Foi a primeira mulher da ACL, titular da cadeira 10, a qual assumiu com 77 anos de idade.