Se quiser conhecer as mulheres, leia Ana Cristina Cesar

por Thelma Ramalho*

Pergunto aqui se sou louca 
Quem quer saberá dizer 
Pergunto mais, se sou sã 
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar 
E finjo fingir que finjo 
Adorar o fingimento 
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores 
quem é a loura donzela 
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém 
É um fenômeno mor
(Ana C.)

Ana Cristina César, musa, punk, linda, escritora, moderna, cult, atual, são tantos adjetivos que podemos empregar para defini-la. Menina inquieta, aos 4 anos, entre pulos e brincadeiras, ditava poesias para sua mãe. Foi criada entre Copacabana, Niterói e os jardins do Instituto Bennet, mas aos poucos ganhou o mundo em diversas viagens.

Eu era assim tipo… Eu fui uma ‘menina prodígio’. Esse gênero, assim, aos seis anos de idade faz um poema e papai e mamãe acham ótimo… Na escola, as professoras achavam um sucesso. Então literatura assim pra mim começou… Mamãe era professora de literatura, aqui em casa era sempre local de encontro de intelectuais, papai transava Civilização Brasileira, não sei o quê. Então tem esse lance assim de família de intelectual que você… Estimulava e publicava nas revistinhas assim de igreja, ou alguém conhecia alguém na Tribuna da Imprensa… Botava no mural da escola…

(Ana C.)

Em 1969 foi a Londres pela primeira vez, voltando apaixonada pela literatura de língua inglesa, e principalmente pelas obras de Katherine Mansfield, Sylvia Plath e Emily Dickinson. Chegou ao Brasil com um diploma em arte e um livro editado em Londres, criando uma obra poética nova, uma mistura de ficção e confissão, fragmentos colados, uma voz “despudoradamente” feminina, Ana C era muito discreta em sua vida pessoal e indiscreta em sua poesia.

Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho Examinei o local.Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado a mais. Passei pomada branca até que a pele(rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura. (Ana C.)

Para sobreviver, fez muitas traduções, escreveu para revistas e jornais alternativos — que seriam o berço dos melhores jornalistas e ilustradores de hoje — e lançou seus livros por editoras independentes. “O Beijo”, um desses jornais alternativos, foi reconhecido em sua época como um dos mais interessantes veículos da contracultura carioca, da década de 70. (Mariana Várzea )

Em 1976 saiu na Antologia 26 Poetas Hoje publicada pela Funarte. A coletânea reúne os trabalhos da “geração mimeógrafo”, a poesia chamada marginal – por ser divulgada de uma maneira nova. Eram brochuras e livros artesanais, vendidos pelos próprios poetas em bares, cinemas, teatros, muitos diziam “ser obrigados”a comprarem as obras dada e insistência de seus autores.

A opção marginal, traçada principalmente por poetas novos, tem por enquanto mais fôlego que a cooperativa e está alheia à questão do sindicato. Tem também uma dupla face. Contingência imposta pelo sistema editorial fechado, constituiria passagem provisória do autor desconhecido, que secretamente talvez desejasse o selo da boa editora, a distribuição mais ampla e os olhares da instituição. Seria como que o passo inicial necessário para a criação de um primeiro círculo de leitores, a editora tomando posse do processo na medida do reconhecimento do escritor. Já a outra face do marginal implica a formação de um circuito paralelo de produção de distribuição de textos, em que o autor vai à gráfica, acompanha a impressão, dispensa intermediários e, principalmente, transa mais diretamente com o leitor. (Ana C.)

Ítalo Moriconi escreveu: “Ana Cristina dizia que uma das facetas do seu desbunde fora abandonar a ideia de ser escritora, livrar-se do que ela naquele momento julgava ser sua face herdada, o estigma princesa bem-comportada, alguém marcada para escrever”.

Não consigo falar do coquetel da Labor. Foi uma mistura de caretice do lugar, convidados, Houaiss e desbunde de poetas, amigos, tresloucados. Para mim foi complicado porque acabou virando noite de autógrafos, pela 1.a vez autografei para os ilustres, tive a vertigem de celebridade, as pessoas me cumprimentavam sem nem terem lido meus textos, esquisita euforia. Eu sempre cultivei sério a fantasia de que era eu já era uma grande escritora, e diversas pessoas (pais & mestres & parentes & alli) ajudaram a regar o jardim. Não era preciso fazer mais nada, o mundo estava a meus pés. (Ana C.)

A poesia de Ana Cristina Cesar tem a característica de ser confessional, mas o tom de intimidade é apenas um lance de sedução estética, a Ana como dizem seus amigos, “mentia”muito, ela iludia seu leitor, seus textos são curtos, parecem fragmentos, de cartas e pretensas páginas de diários. Ela se apropria de trechos de outros autores, reescreve, readapta, um novo método de composição, uma construção. Sua poesia não tem rima, não tem ritmo, mas tem uma carga poética grande.

Samba Canção

Tantos poemas que perdi. 
Tantos que ouvi, de graça, 
pelo telefone – taí,, 
eu fiz tudo pra você gostar, 
fui mulher vulgar, 
meia-bruxa, meia-fera, 
risinho modernista 
arranhando na garganta, 
malandra, bicha,  
bem viada, vândala, 
talvez maquiavélica, 
e um dia emburrei-me, 
vali-me de mesuras 
(era comércio, avara,  
embora um pouco burra,  
porque inteligente me punha 
logo rubra, ou ao contrário, cara 
pálida que desconhece 
o próprio cor-de-rosa, 
e tantas fiz, talvez 
querendo a glória, a outra 
cena à luz de spots, 
talvez apenas teu carinho, 
mas tantas, tantas fiz…

(Ana C. )

Escritora compulsiva, visceral, produzia poemas, cartas, artigos para jornais e revistas, traduções, ensaios. Trabalhou em televisão foi analista de textos da Rede Globo.Em 1979, lançou de forma independente seu primeiro livro de poesia, Cenas de Abril e, em 1980, Correspondência Completa, uma carta ficcional, e Luvas de Pelica. De volta ao Brasil depois da pos graduação em Londres, lançou em 1982, A Teus Pés – uma junção de seus livros anteriores e ainda o inédito que dá nome a obra. Após sua morte, o poeta e amigo Armando Freitas Filhoorganiza sua obra e promove o lançamento dos livros Inéditos e Dispersos, em 1985, Escritos da Inglaterra, 1988, e Escritos no Rio, 1993.

Escrevo in loco, sem literatura – (Ana C.)

(…) um sonho dentro do automóvel, cidade adentro, uma cidade sem muito contorno, de noite, uma cidade grande, com trânsito noturno, faroletes vermelhos, e um fala-fala que não termina mais, uma consideração de casos e desencontros que vai ficando entorpecida e seduzível e num ponto cego, e acordo com a aflição que bateu dentro do carro. (Ana C.)

“Ana Cristina Cesar demitiu o verso e a própria vida numa tarde de sábado, dia 29 de outubro de 1983. Tinha 31 anos quando se suicidou, se jogando pela janela de seu apartamento.

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão. (Ana C.)

Batidas na porta (não tem campainha, claro). Débeis. Abro 
Ana C. MAL. Põe mal nisso. Magra, consumida, trêmula, chorosa. Não sei contar direito. Nunca vi ninguém tão frágil. Com toda minha gripe, eu era um poço de saúde ao lado dela. Imagina uma alface (ela) ao lado de uma costela gorda (eu). E lúcida. Parou de ir trabalhar, vai pedir licença. […] O maisestranho: o caso de amor continua, e ótimo. Ana C. está sofrendo de medo de amor. Não sabe bem. Medo de amor? Culpa do prazer? Não escreveu mais nada depois do Contagem regressiva, não consegue dormir, as mãos tremem, são incapazes de datilografar ou segurar uma caneca. Estar com Júpiter e Urano em oposição ao Sol/Mercúrio/ Vênus radicais, justifica, perguntaram? Deixei-a numa sessão de bioenergética, ia a um acupuntor hoje. Me convidou para irmos, com a namorada e maybe GM, para um sítio dela em Petrópolis, hoje à noite ou amanhã. Parece a Isabelle Adjani em Nosferatu, depois que começa a ser sugada. Lin- da, naturalmente, mas troppo morbo. […] – Caio Fernando Abreu

“Era noite e uma luva de angústia me afagava o pescoço. Composições escolares rodopiavam, todas as que eu lera e escrevera e ainda uma multidão herdada de mamãe. Era noite e uma luva de angústia… Era inverno e a mulher sozinha… Escureciam as esquinas e o vento uivando… Saí com júbilo escolar nas pernas, frases bem compostas de pornografia pura, meninas de saiote que zumbiam nas escadas íngremes. Galguei a ladeira com caretas, antecipando o frio e os sons eróticos povoando a sala esfumaçada.”(Ana C.)

Tudo foi muito rápido para Ana Cristina Cesar quem a conheceu, fala de uma pessoa de poucas palavras, mas de expressão clara, cristalina, uma das personalidades mais sensíveis da literatura contemporânea, esbanjava emoção. mostrando o reflexo da mulher moderna em seus poemas que, segundo Heloísa Buarque de Hollanda, “possuem um traço diferente, extremamente pessoal, que não dá para classificar de modo nenhum como marginália ou algo parecido”.

quando você escreve, tem sempre uma história que não pode ser contada, entende, que é basicamente a história, a história da nossa intimidade, a nossa história pessoal. Essa história, ela não consegue ser contada. Se você conseguir contar a tua história pessoal e virar literatura, não é mais a tua história pessoal, já mudou. (Ana C.)

Quando eu morrer, 
Anjos meus, 
Fazei-me desaparecer, sumir, evaporar Desta terra louca
Permiti que eu seja 
desaparecido
Da lista de mortos de algum campo de batalha
Para que eu não fique exposto
Em algum necrotério branco (Ana C.)

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pesquisa:

paginas da internet:

http://www.bolsademulher.com/estilo/ana-cristina-cesar/

http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet122.htm

trabalhos:

MULHERES NOS INTERSTÍCIOS DE UMA “GERAÇÃO MIMEÓGRAFO”: ITINERÁRIOS DE ANA CRISTINA CÉSAR
Clovis Carvalho Britto

ANA CRISTINA CÉSAR: NÃO TÃO MARGINAL ASSIM
Leandro Garcia Rodrigues

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*Thelma Ramalho escreve periodicamente em seu blog 2 e dois são 5 e é produtora da banda Zefirina Bomba.