Sushis Mortos

por Jamile Vasconcelos*

(relato de um sonho)

Andava juntamente com alguns amigos e familiares por uma longa e escura estrada. Com curvas suntuosas, cercado de matas por um lado e banhado pelo mar pelo outro, o caminho não nos levavam especificamente há algum lugar. Éramos conduzidos por um negrinho nu, todo sujo de barro, que nos arrastava através de uma corda. Preso pelo pescoço, às vezes amarrado pela testa, de forma que a tarefa não o trouxesse dor, apesar da aparente ferida causada pelo grosso entrelaçado de fios. Não era um escravo ou empregado que estivesse trabalhando de forma servil, porém, um elemento da terra que nos guiava e nos ajudava. Em um determinado ponto, avistamos uma bela e reluzente estrela que, subitamente, começa a mudar de forma e foco, se transformando inicialmente em uma grande luz, depois em uma bola com triângulos dentro e, por fim, em um grande disco luminoso. Tento receber a luz que ele emite mas não consigo. Sempre há um galho de árvore na minha frente, por mais que tente me desviar. Um amigo, por sua vez, consegue tudo perceber. Nesse momento, um garoto branco nu em miniatura, espécie de anjo-alienígena, desce voando (apesar de não ter asas) e despeja três gotas de esperma em sua boca. Uma benção e batizado pela jornada. Ao meu lado avisto apenas sushis gigantes, mortos e enfileirados na praia. Cani, salmão, camarão, polvo. A radiação havia sido forte demais para aqueles seres, que um dia certamente já haviam habitado a terra e o mar.

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* Jamile Vasconcelos é baiana, produtora cultural, fotografa e rabisca nas horas vagas. Simpatiza com andróides.

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Flans

por Jamile Vasconcelos*

Há muito mais flans caramelados na estrada que imagina a nossa vã filosofia…

Imagem by Juan Bettancurt**

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* Jamile Vasconcelos é baiana, produtora cultural, fotografa e rabisca nas horas vagas. Simpatiza com andróides.

**Juan Bettancurt é colombiano e ilustrador .

O poder do contra

por Jamile Vasconcelos*

Todo mundo, pelo menos alguma vez na vida, já se viu obrigado a ir contra a própria vontade. Não tem como negar. Seja por desejo, necessidades trabalhistas ou determinações sociais, o fato é que vez ou outra temos que fazer alguma coisa que não estava nos planos. Ai, às vezes, por outro lado, queremos, precisamos, lutamos, desejamos e tentamos fazer de maneira diferente e não conseguimos. Como é isso?

As pessoas vivem três vidas diferentes. A que elas querem viver, a que elas mostram que vivem e a que os outros imaginam que ela vive. No meio disso tudo, tem mais um milhão de bombardeios, como as mudanças. Ninguém é uma única coisa eternamente. Leia-se uma única coisa, não como apenas uma única coisa. Primeiro que as pessoas realmente mudam. O tempo passa e a maneira de ver e entender o mundo muda, nos tornamos mais flexíveis e tolerantes e, sobretudo, passamos a perceber e aceitar as diferenças. Além dessas mudanças “normais”, tem também as mudanças “espontâneas”, conhecidas também como evolução pessoal. São acontecimentos, traumas, medos e incapacidades que foram gerados em algum momento da vida e parece que passaram, mas, na verdade nos atormentam a vida inteira até que seja superado. Eles determinam suas relações afetivas, sexuais, encontros amorosos, relações de amizade e familiares. Uma pendência lá no fundo do baú e adios! São faltas e excessos de si próprio, freios e aceleradas, que, no final das contas, acabam ocupando o mesmo lugar.

Tendo de mais ou de menos, o fato é que dá pra mudar. Dá pra chegar a um ponto de equilíbrio e encontrar a solução para aquele buraco no meio da existência. Teoricamente, é mais simples do que parece, na prática, mais difícil que se espera. O primeiro passo é justamente aceitar que ele existe. Aí, é ter paciência. O negócio demora muito pra ser resolvido e o percurso é todo seguido por um diabinho que fica o tempo inteiro catucando pra que a gente deixe de lado a árdua tarefa. É uma estrada longa, feia, fria, suja e dolorosa, cheia de tentações e guloseimas, potes de ouro e muito flam caramelado no acostamento. Um simples grão de açúcar e bye, já foi, nem Orfeus foi capaz de retomar o caminho. O prazer é grande demais para se dar conta da armadilha. Mas, se a paciência for grande e a coragem maior ainda, dá pra chegar lá, afinal de contas, somos apenas nós contra e a favor de nós mesmos. Testemunhas, juizes, réus e advogados. Esse tribunal é individual e exclusivo. Não entrar na estrada, é uma escolha, desistir no meio também, mas, se deliciar com a absolvição do veridito final é conquista.


Caos, por Jamile

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* Jamile Vasconcelos é baiana, produtora cultural, fotografa e rabisca nas horas vagas. Simpatiza com andróides.

O limite de tudo isso

por Jamile Vasconcelos*

Até onde vai, onde está e qual é o limite disso tudo. Até onde vai a fronteira permitida às idéias e ao fantástico mundo real? Como ser capaz de sobreviver criativo e “inserido”? As contas batem à porta no final do mês, o telefone não para de tocar de madrugada, as notícias se escondem embaixo do tapete na porta de casa. O que fazer com as idéias? Onde guardar, como escolher, como apresentar, como manipular esse mundo tão próprio, perverso e indecifrável?

Acho que muitos preferem fazer de conta que ele não existe. Que é apenas “viagem” ou uma maneira de encontrar um passatempo no corre-corre do dia-a-dia. Mas o que fazer quando elas te impedem de sentir fome, de dormir, de se relacionar “normalmente” com as pessoas, de viver de maneira sociável? O que fazer quando elas se tornam empecilho para que um simples bom dia não se torne em um terrível saia daqui? Porque, além das idéias, ainda existe por trás de tudo, as idéias das e sobre as idéias, ou seja, uns e outros ainda inventam de querer compreender e analisar o significado do significado. A bola de neve é criada, a bola de neve cresce, a bola de neve vai rolando, rolando, rolando, até o momento que você fica bem no centro dela, deixando respirar apenas as pontas dos pés e alguns fios de cabelo. Com ela, vai o pacote todo… O dormir, o comer, o socializar-se e qualquer ação corriqueira que apenas, de fato, um verdadeiro bom dia poderia resolver.

“Será que há uma maneira de, simultaneamente, viver o mundo real e o das idéias?”, me perguntou uma vez um amigo. Como viver de maneira saudável, socializável e equilibrada no meio de tantos questionamentos, visões diferentes, desencontros e possibilidades? Porque, na verdade, tudo é possível – e é justamente aí onde mora o perigo. O universo existe para os que se dispõe a percebê-lo e encontrá-lo, a desvendá-lo, mas, existe, sobretudo para os capazes de respirar. Não adianta ter o cérebro vivo e pulmões incapazes de sentir o ar puro (ou até mesmo o poluído).

O fato é que, qualquer ação, fator, conteúdo, método, qualquer energia que seja gerada precisa encontrar o seu pouso, a sua voz e maneira de ser dissipada, propagada ou, até mesmo, exterminada. Encontrar um lugar ela precisa, nem que seja um descanse em paz e me esqueça… (o que já não é pouca coisa).

Para tudo, as considerações, o porém.

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* Jamile Vasconcelos é baiana, produtora cultural, fotografa e rabisca nas horas vagas. Simpatiza com andróides.